“Temos de reforçar o ensino da estatística”

Para abandonar por completo a definição de “ciência invisível”, a estatística tem ainda um longo caminho a percorrer. Se, por parte dos mais jovens, esta tem sido uma área cada vez mais aliciante, importa, por outro lado, consciencializar o tecido empresarial sobre a mais-valia que a estatística pode ter nas suas decisões de investimento. É esta ideia que a Sociedade Portuguesa de Estatística tem procurado dar a conhecer, nas muitas ações que desenvolve em prol de uma maior literacia estatística. Conheça este trabalho com Maria Eduarda Silva, Presidente da SPE.

1609
Maria Eduarda Silva

Na missão assumida desde o início pela Sociedade Portuguesa de Estatística de promover, cultivar e desenvolver no nosso país o estudo da estatística, as suas aplicações e ciências afins, quais são as limitações que vão encontrando? O que tem impedido uma maior consciencialização acerca da real importância desta disciplina?
É uma questão cultural. As mentalidades demoram a mudar: estatística são números e os números não interessam. O mundo está a mudar rapidamente e a literacia estatística será para a próxima geração o que o saber ler e escrever foi para as gerações passadas. O sistema de ensino é o local privilegiado para passar a mensagem. À semelhança de outros países temos de reforçar o ensino da estatística, em particular o ensino pós-graduado. Aqui deparamo-nos com dificuldades porque mestrados e doutoramentos, em geral trabalhos multidisciplinares, estão dependentes de um sistema de investigação robusto na área. E têm-se observado nos últimos anos cortes gravosos e discriminatórios quer a grupos de investigação, quer em projetos e bolsas de doutoramento em estatística, colocando em causa a formação de especialistas que uma sociedade moderna e desenvolvida requer.

Com a realização do congresso anual, de seminários, a publicação do Boletim Informativo da SPE, não esquecendo o Prémio Estatístico Júnior 2015, entregue numa sessão aberta que decorreu na FNAC de Santa Catarina no Porto, a SPE coloca a estatística na ordem do dia. Importa promover uma maior união entre profissionais da área e não só para que exista um maior interesse por esta área?
Esta é uma questão que nos tem preocupado. Os nossos sócios não são apenas docentes com carreira universitária ou matemáticos pois encontram-se estatísticos em todos os setores e áreas de atividade. É necessário estabelecer pontes duradouras entre todos os interessados. A SPE quer potenciar estas ligações e fazer do congresso um fórum privilegiado para isso.

Num momento em que os portugueses atravessam um período conturbado na procura de emprego, importa estimular nos jovens um maior interesse por esta área, encarando-a como um futuro caminho profissional? Qual tem sido o papel da SPE neste sentido?
Estamos a entrar numa época de um tremendo crescimento na procura de profissionais de estatística, dada a globalização na recolha de dados possibilitada pelas novas tecnologias. A profissão “Cientista de Dados” foi alcunhada de profissão mais sexy do século XXI. Mas também na área governamental se vai sentir fortemente a necessidade de estatísticos uma vez que a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável vai requerer um grande esforço de estatísticos em todo o mundo. Por exemplo, recentemente o INE procedeu ao recrutamento de 20 especialistas…

No passado dia 20 de outubro assinalou-se mais uma vez o Dia Mundial da Estatística. Neste e em todos os dias do ano, que mensagem continua a ser urgente passar?
Em 2013 celebrou-se o Ano Internacional da Estatística e, desde então, multiplicam-se as iniciativas sobre uma ciência que faz parte do quotidiano de todo o cidadão. Mas o poder político reconhece também a importância dos dados estatísticos e da sua fiabilidade como instrumento indispensável à elaboração de políticas com vista ao desenvolvimento sustentável das nações e à erradicação da pobreza. A SPE e outras sociedades congéneres assinaram uma declaração que apela a que: todos os sistemas estatísticos oficiais sejam devidamente financiados; o investimento em investigação e formação em estatística seja reforçado; o apoio à recolha de informação seja complementado com o apoio à sua transformação em informação útil e usável. A mensagem é sintetizada no lema: Melhores Dados, Melhores Vidas.

Para o futuro, qual continuará a ser a estratégia e a linha de atuação da SPE para que a estatística deixe definitivamente de ser vista como uma “ciência invisível” e seja valorizada como parte integrante de todos os quadrantes da sociedade?
A visibilidade da estatística requer um trabalho continuado. Por exemplo, a  iniciativa Explorística, que ganhou o prémio Best Cooperative Project Award in Statistical Literacy 2015, destina-se a promover a literacia estatística junto dos mais jovens. Os Prémios Estatístico Júnior promovem a atração de jovens talentos para a estatística. Mas queremos mais. Queremos que o tecido empresarial entenda o valor acrescentado que a estatística pode ter nas suas decisões de investimentos e que cada vez mais nos procurem. É necessário estabelecer pontes duradouras entre a indústria e a academia. Recentemente, o INE criou a carreira de especialista estatístico. Estamos, pois, a caminhar para que em Portugal a estatística adquira o reconhecimento social que já tem noutros países.