Paris: Residentes tentam regressar à normalidade

Os parisienses faziam hoje de manhã "atos de resistência" ao terrorismo em gestos tão simples como ir trabalhar, tomar café ou apanhar o metro, descreveu à Lusa Estelle Chambrel, uma parisiense que mora no bairro de Nation.

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Paris

“Trabalho ao lado da Praça da República. Não tenho medo, é preciso resistir. Continuar a viver normalmente ou apanhar o metro são atos de resistência. Queria apanhar o ‘RER’ mas o tráfego estava interrompido. É preciso retomar a vida”, descreveu a parisiense, com um ramo de flores na mão que ia colocar junto à estátua da República antes de chegar ao trabalho.

A linha nove do metro é uma das mais frequentadas da capital francesa na hora de ponta e passa por baixo dos bairros visados pelos atentados de sexta-feira, mas os milhares de anónimos que todos os dias a apanham tentam resistir ao medo.

“Não se pode ter medo de apanhar os transportes. Quando vamos para o metro, claro que é difícil. Qualquer ‘kamikaze’ pode fazer-se explodir no meio da multidão”, comentou à Lusa Lydie Duguet, operadora de telecomunicações.

A parisiense fala com os olhos aguados e mostra um colar com uma medalha de prata com a inscrição “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.

“Precisei de meter a medalha hoje, mas sinceramente já não acredito nisto. Sob o pretexto de ser o país dos direitos do Homem, a França tornou-se demasiado laxista e tudo pode acontecer. O meu sonho é chegar à reforma e trocar este país por Portugal onde os reformados franceses nem sequer pagam impostos”, disse Lydie Duguet.

Na estação de metro de République – o centro do bairro onde o Bataclan, o Café Petit Cambodje e o café Le Carillon foram palco dos ataques dos jihadistas na sexta-feira, que provocaram 129 mortos – o formigueiro humano era hoje o habitual às nove horas da manhã de um dia de trabalho, com centenas de pessoas de passo acelerado nos corredores.

Uma melodia ecoa das dez cordas da espécie de guitarra “Stick Chapman” de Florent l’Hériteau, um músico do metro que foi trabalhar “como é costume”.

“Venho todos os dias, continuo a vir, a música é uma profissão como as outras e tenho de ganhar a minha vida. Não tenho medo de estar todo o dia nos corredores do metro até porque visivelmente é mais perigoso ir ao café e estar na esplanada a beber um copo”, afirmou o músico, acrescentando que “há tanta gente no metro como habitualmente”.

Florent l’Hériteau diz que as pessoas lhe sorriem e lembra que “a 08 de janeiro, um dia depois do ataque ao Charlie Hebdo, estava no mesmo sítio e um jovem passou com um grande sorriso” e disse-lhe “Allah Akbar” (Deus é grande).

No exterior, a base da estátua da República continua a ser preenchida com flores, mensagens, velas e fotografias. À sua volta, o trânsito continua intenso e veem-se muitas bicicletas.

Blandine Guignard, 20 anos, costuma ir de “vélib” (a bicicleta pública) para o trabalho e esta manhã disse que “há menos bicicletas disponíveis nas estações porque mais pessoas as procuram.”

“Não sei se vou continuar a fazer tudo como antes. Tenho algum medo… É tão fácil fazer um atentado… Tenho vontade de chorar quando vejo os cafés dos ataques, são sítios que eu frequentava e são ao pé de minha casa”, descreve, sublinhando que ao meio-dia vai fazer o minuto de silêncio em memória dos que morreram na sexta-feira.

Num dos quiosques da praça, as manchetes relembram “o terror em Paris” na capa do Le Monde, “a Caça ao homem e a resposta” na primeira página do Le Parisien e a “Geração Bataclan” no Libération.

Caroline Wyart, 34 anos, compra o último exemplar do “Libé” porque diz que ela própria faz parte da “Geração Bataclan”.

“Identifiquei-me muito com as pessoas que morreram. Fui a imensos concertos no Bataclan, moro nesta zona, identifiquei-me completamente”, contou a jovem, acrescentando que é “um alívio” ir trabalhar para “mudar de ideias” depois de um fim de semana que “parece um pesadelo e não real”.

No Café Pierre, umas dez pessoas tomam o café na esplanada, como a estudante Mona Khatab, de computador aberto, a rever as aulas.

“Vim tomar um café para estudar, moro aqui no bairro. Na sexta à noite, a minha reação foi que tínhamos de continuar a viver normalmente, mas ontem estava num café aqui em République e houve um movimento de pânico. Eu fui atirada para as escadas e fiquei magoada nos joelhos. Uma senhora com duas crianças deitou-se no chão para as proteger e muitos passaram-lhe por cima. É cada um por si porque temos medo”, descreveu a estudante.

A jovem de 20 anos nota que “as pessoas estão muito nervosas e, ao mesmo tempo, querem ser solidárias e resistentes”.

Mona Khatab diz ainda que “é preciso viver cada dia porque não se sabe o que pode acontecer no seguinte” e afirma não ter medo por ela mas pelos amigos e familiares porque “tudo pode acontecer”.