Televisão chinesa manipula imagens de arquivo e oculta ex-dirigente

A televisão estatal chinesa CCTV manipulou imagens de arquivo num documentário exibido no passado sábado, visando excluir Zhao Ziyang, o ex-secretário geral do Partido Comunista Chinês (PCC) condenado a prisão domiciliária após o massacre de Tiananmen.

886
Bandeira da China

O documentário histórico serviu para homenagear o centenário do nascimento de Hu Yaobang, que foi secretário-geral do PCC entre 1982 e 1987, e depois substituído por Zhao, segundo avança hoje o jornal South China Morning Post (SCMP).

Em 1989, a morte de Hu, um reformista que viria a gerar inimizades entre a fação mais ortodoxa do partido, marcou o início dos protestos na praça de Tiananmen, que rapidamente passaram de uma homenagem àquele dirigente a manifestações de grande escala.

No documentário difundido pela CCTV, uma fotografia original publicada em 1982 no jornal oficial Diário do Povo, onde aparecia Zhao Ziyang, foi manipulada para que sobressaísse um outro dirigente de menor estatuto.

Segundo o SCMP, o Governo chinês está a tentar recuperar a figura popular de Hu, para melhor legitimar as reformas em curso e a atual campanha anticorrupção, enquanto a figura de Zhao continua censurada no país.

Zhao Ziyang, que foi um aliado próximo de Deng Xiaoping, o dirigente chinês que abriu a economia e o país ao exterior, era um crítico das políticas conservadoras de Mao Zedong, o líder comunista que dirigiu a China ao longo de 27 anos.

Durante os protestos estudantis de 1989, que culminou no massacre de Tiananmen, defendeu o diálogo, opondo-se à fação do partido que apoiava uma repressão direta, e inclusive fez um discurso naquela praça onde se mostrou compreensivo com os apelos dos manifestantes.

No início de junho, Deng acabaria por sucumbir aos apelos da fação mais conservadora do partido e ordenar uma repressão militar, que resultou na morte de centenas de estudantes, e na purga de Zhao, que foi mantido em prisão domiciliária até à sua morte, em 2005.

Durante esse período, o ex-líder realizou diversas gravações áudio onde detalhou a natureza palaciana do regime de Pequim e as disputas internas do PCC durante os protestos de Tiananmen, expressando o seu apoio por um modelo politico inspirado na democracia parlamentar.

Depois da sua morte, vários amigos de Zhao reuniram essas gravações, que viriam a ser transcritas e publicadas integralmente fora do país no livro Prisioneiro de Estado.