Árvores de Natal verdadeiras, ainda se podem comprar?

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Se antigamente a árvore de Natal era sinónimo de um pinheiro natural escolhido a dedo na floresta mais próxima de casa (ou no quartel dos Bombeiros), hoje é sinónimo de uma árvore artificial escolhida a dedo numa loja de decoração. Há de todas as cores, tamanhos e feitios: verdes, brancas, frondosas, minimais. Será que se perdeu a magia da tradição natalícia partilhada por pais e filhos durante gerações?

Vera Ferreira, de 50 anos, diz que sim. Desde o seu casamento, em 1991, criou o hábito de ter uma das árvores cortadas pelos guardas florestais da terra. A família ainda mantém a tradição e reúne-se para encontrar a árvore de Natal logo nos primeiros dias de dezembro. “São cortadas porque têm raízes menos saudáveis ou estão num mau sítio”, explica. “Depois da árvore estar enfeitada, sente-se um cheirinho a pinhal e, no fim, ainda aproveitamos pequenos ramos para a lareira.”

No entanto — e sem entrar, por enquanto, nas questões ambientalistas —, nem todos os pontos são positivos. “As árvores até são resistentes mas algumas folhas acabam por cair e sujar a sala. Já para não falar que as decorações são mais difíceis de agarrar às folhas e costumam escorregar”, conta Vera. Foi exatamente para contrariar isto que uma empresa de piaçabas criou a primeira árvore de natal artificial em 1930. Graças à sua durabilidade, tornaram-se logo bastante populares.

Com o aparecimento das árvores artificiais, a procura pelos pinheiros naturais diminuiu à velocidade da luz, mas ainda se podem comprar. Quem o diz é José Cosme, gerente da Lusoflorestal que trabalha com pinheiros naturais há mais de 17 anos. “Apesar da quebra no negócio, os pinheiros de Natal são uma tradição familiar que quero continuar a acarinhar e manter para estimular a procura.” Atualmente o especialista ainda vende árvores de Natal naturais aos seus clientes mais fiéis num mercado anual no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a preços que variam entre os 14 e os 35 euros, consoante o tamanho (que pode alternar entre os 1,20 e os 1,75 metros).

Este ano, o mercado volta no próximo dia 6 de dezembro com pinheiros da Lousã que, em vez de serem cortados, são arrancados pela raiz para que possam voltar a ser plantados depois das festividades. “Em anos anteriores até fizemos uma parceria com a Ikea através da qual as pessoas podiam alugar um pinheiro e, no fim do Natal, reciclá-lo”, diz José.

Para além dos pinheiros da Lusoflorestal, existem espaços como o Lidl, o Horto do Campo Grande e a florista Monceau Fleurs que têm à venda pinheiros naturais até com dois metros de altura desde os 10 até aos 118 euros. No que toca à manutenção da árvore natural, José Cosme recomenda que se “mantenha a terra e raízes húmidas” para que ela aguente até um mês dentro de casa. Outra das dicas passa por afastar o vaso das fontes de calor e borrifar os ramos com água para que ele se mantenha fresco.

Natural ou artificial? O ambiente decide

Mais do que uma questão de gosto pessoal ou tradição, o especialista em pinheiros olha para este tipo de tradição natalícia com uma perspetiva ambientalista: “As árvores de Natal naturais são muito mais amigas do ambiente, uma vez que podem voltar a ser plantadas, enquanto as árvores artificiais são compostas por plástico e outros componentes prejudiciais ao ambiente.”

Para Domingos Patacho, da Quercus, a realidade não é assim tão linear:
“Os pinheiros naturais só devem ser comprados com raiz por pessoas que tenham espaço para as plantar novamente depois da época natalícia e sem raiz se forem cortados de árvores que não têm condições para crescer. Às pessoas da cidade (sem jardim ou quintal), a decisão mais amiga do ambiente será comprar uma árvore artificial para que esta possa ser reutilizada durante vários anos.”

O objetivo? Diminuir a pegada ecológica, uma árvore de cada vez.