Tunísia lançou há cinco anos a “primavera árabe”

A Tunísia lançou há cinco anos a primeira das revoltas populares no norte de África e Médio Oriente que fizeram a "primavera árabe", um movimento que derrubou regimes autoritários e mudou o mapa político da região.

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Através de um longo e inclusivo diálogo nacional, distinguido em 2015 com o Nobel da Paz, o país foi o único a completar a transição para a democracia, mas a ameaça terrorista persistente, com três atentados só este ano, põe em risco a estabilidade política e ameaça as liberdades fundamentais pelo recurso frequente a medidas de exceção.

O ato de desespero do jovem vendedor ambulante Mohamed Bouazizi, que a 17 de dezembro de 2010 se imolou pelo fogo em Sidi Bouzid, a 260 quilómetros de Tunes, tornou-se símbolo do descontentamento da população com a pobreza, o desemprego, a ditadura e a corrupção e deu origem à “Revolução de Jasmim” na Tunísia.

Seguiram-se protestos no Egito, Jordânia, Iémen, Bahrein, Líbia, Síria e até na ultraconservadora Arábia Saudita.

Menos de um mês depois da fuga, a 14 de janeiro, do ditador tunisino, Zine El Abidine Ben Ali, o “último faraó” do Egito, Hosni Mubarak, demitiu-se ao fim de 30 anos no poder na sequência de manifestações numa praça central do Cairo, a praça Tahrir (Liberdade), que se tornou também um símbolo da “primavera árabe”.

A revolução egípcia levou os islamitas ao poder, com a eleição de Mohamed Morsi a 30 de junho de 2013, nas primeiras presidenciais democráticas do país.

O presidente eleito acabou deposto um ano depois pelo Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Abdel Fatah al-Sissi, seguindo-se uma repressão em massa dos movimentos da oposição, islamitas mas também laicos, com mais de 1.500 mortos e a condenação à morte ou a prisão perpétua de Morsi e de centenas dos seus apoiantes em julgamentos sumários.

Às revoluções na Tunísia e Egito seguiram-se, em fevereiro de 2011, a Líbia, e, em março, a Síria, países onde os levantamentos degeneraram em guerras civis que, cinco anos depois, continuam por resolver.

Na Líbia, as forças rebeldes tomaram Tripoli em agosto, ao fim de seis meses a conquistar território com o apoio aéreo da NATO, e em outubro acabaram por matar Muammar Kadhafi perto de Sirte, sua cidade natal.

Em guerra civil desde 2011, a Líbia é desde 2014 dirigida por dois parlamentos e dois governos, um estabelecido em Tobruk e reconhecido pela comunidade internacional e o outro, em Tripoli, controlado por uma aliança de milícias tribais, que disputam o poder.

Aproveitando o caos, o grupo extremista Estado Islâmico, que controla vastas áreas do Iraque e da Síria, instalou-se também na Líbia e apoderou-se de Sirte em junho de 2015.

Na Síria, a violenta repressão dos protestos de março de 2011 deu origem a uma guerra civil entre as forças do regime de Bashar al-Assad, ainda no poder, e a oposição armada, a que se juntaram grupos ‘jihadistas’ como a Frente Al-Nosra, afiliada da Al-Qaida, e o Estado Islâmico, que em 2014 proclamou um “califado” nas vastas áreas do Iraque e da Síria que controla.

A guerra na Síria fez ao longo dos últimos quase cinco anos mais de 250.000 mortos e obrigou milhões de pessoas a fugir, a maioria para os países vizinhos mas uma parte também para a Europa, acabando por provocar a mais grave crise de refugiados no mundo desde o fim da II Guerra Mundial.

O Iémen foi outro dos palcos da “primavera Árabe”, com manifestações maciças contra Ali Abdallah Saleh, depois de 33 anos no poder, que só ao fim de vários meses aceitou abdicar em favor do seu “número dois”, que venceu as eleições de fevereiro de 2012.

Em setembro de 2014, os rebeldes xiitas ‘huthi’ e forças leais ao ex-presidente Saleh lançaram uma ofensiva contra o governo de Rabbo Mansur Hadi, conquistando a capital, Sanaa, e vastas áreas do país, o que deu origem à formação de uma coligação militar liderada pela Arábia Saudita e integrada por oito outros países sunitas.

A onda de contestação popular manifestou-se também em monarquias como o Bahrein, a Jordânia, Omã, Marrocos e Arábia Saudita, embora com menos expressão.