Merkel anuncia restrições à entrada de refugiados

A chanceler Angela Merkel prometeu ontem reduzir o número de entradas de refugiados na Alemanha, tendo explicado que a decisão de abrir as fronteiras em agosto se justificava por um "imperativo humanitário", para proteger, principalmente, os sírios da guerra.

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Angela Merkel

“Nós pretendemos – e vamos conseguir – reduzir a entrada de refugiados”, declarou Angela Merkel, que falava em Karlsruhe, no estado de Baden-Württemberg, perante cerca de mil delegados presentes no congresso da CDU, que teve início ontem e hoje se conclui nesta cidade. No final da intervenção, a chanceler foi longamente aplaudida de pé, indicando a Reuters que a ovação se prolongou por oito minutos.

Números oficiais de Berlim revelam que, na passada semana, se ultrapassou o milhão de refugiados entrados este ano na Alemanha, a maioria proveniente da Síria, mas também do Iraque, Afeganistão e outros países do Médio Oriente. A média de entradas nas últimas semanas, anunciou ontem a Deutsche Welle, tem sido de dez mil pessoas por dia. Merkel reconheceu que aplicar as restrições constitui “um desafio enorme”, mas terá de ser feito de forma a alcançar-se uma diminuição “significativa”.

Noutro plano, citando Portugal e Espanha, “onde vemos crescimento económico”, Merkel afirmou não estar ainda “totalmente superada esta crise”. Uma crise que atribuiu aos “erros fundamentais” da “criação da união monetária, que não foram ainda corrigidos”.

“Efeito devastador”

Nomeada Pessoa do Ano pela Time e pelo Financial Times pela sua decisão de abrir as fronteiras aos refugiados, Merkel reiterou a necessidade daquela redução “significativa”, retomando um termo que consta de uma resolução da direção da CDU apresentada ao congresso. Esta resolução foi uma iniciativa de última hora da liderança para travar a contestação às políticas de Merkel na questão dos refugiados e nela se afirma, de forma inequívoca, que “a continuação do presente fluxo [de refugiados] acabaria por ter um efeito devastador para o Estado e a sociedade, mesmo num país como a Alemanha”.

As críticas da Merkel têm crescido na CDU, no partido irmão da Baviera, a CSU, e em diferentes setores da sociedade alemã. A seguir a um período de aceitação geral, um número importante de dirigentes e militantes da CDU têm vindo a desferir duras críticas às decisões de Merkel nesta matéria. Recentemente, o líder da CSU, Horst Seehofer, considerou ser um “erro” Merkel não estabelecer um valor limite para o acolhimento de refugiados. Opção que continua a não ser contemplada na resolução aprovada ontem em Karlsruhe.

Uma sondagem Emnid, publicada domingo no Bild am Sonntag, mostrava que 62% dos inquiridos querem um limite máximo para a entrada de refugiados. A mesma sondagem mostrou que as intenções de voto na CDU-CSU continuam em queda, tendo passado de 43% em agosto para 37% hoje.

Apesar destes indicadores e da contestação interna no partido, Merkel defendeu a linha seguida na questão dos refugiados – que considerou em novembro ser o “maior desafio que enfrentamos desde a unificação da Alemanha” -, declarando que “é parte da identidade do nosso país alcançar grandes feitos”. A chanceler afirmou estar-se perante “um teste histórico para a Europa e eu pretendo – melhor, espero que possa dizer que todos nós pretendemos – que a Europa passe este teste”.