Joe Berardo vende hotéis Savoy na Madeira

O empresário Joe Berardo e os herdeiros de Horácio Roque venderam a Siet Savoy, que detinha na Madeira as unidades hoteleiras Royal Savoy e Savoy Gardens, aos madeirenses do Grupo AFA.

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O negócio, concretizado na sexta-feira, envolve cerca de 115 milhões de euros e permite arrancar com as obras de construção do Hotel Savoy, uma unidade emblemática do Funchal, que foi demolida em 2009 para dar lugar a um novo hotel.

Na altura, a decisão de demolir o hotel com quase 100 anos foi polémica, pois envolveu o despedimento coletivo de 95 trabalhadores e varreu da cidade uma unidade histórica, por onde passaram personalidades internacionais como Margaret Thatcher (que lá passou a lua de mel e as bodas de ouro), e que contribuiu para colocar a Madeira no mapa turístico mundial.

As obras do renovado Savoy começaram no ano seguinte, mas a empreitada acabou por parar em 2011 por falta de financiamento. Desde essa data que no coração da zona mais nobre da capital madeirense está uma cratera com o tamanho de dois campos de futebol.

Apesar dos contratempos, Joe Berardo defendeu sempre o projeto, e mostrou-se confiante que o sonho dele e de Horácio Roque ia ser uma realidade. No entanto, todas as tentativas de encontrar financiamento falharam, apesar da vertente imobiliária e de time-sharing da unidade terem sido comercializadas com relativo sucesso.

A compra pelo Grupo AFA permite agora viabilizar a construção do hotel de cincos estrelas que conta com 500 quartos – mais 163 do que o anterior Savoy –, divididos em 16 pisos e três corpos. E mesmos detratores do projeto inicial – a oposição camarária criticou a volumetria do edifício –, olham para o negócio com satisfação.

“Mais importante do que refletir se o Savoy original deveria ou não ter sido demolido, importa olhar para o futuro e pensar que aquela cratera tem um impacto negativo muito forte numa zona nobre da cidade”, disse ao PÚBLICO o presidente da Câmara Municipal do Funchal, Paulo Cafôfo, confirmando que a autarquia foi ouvida durante as negociações entre o Grupo AFA e a Siet Savoy.

As licenças da obra caducavam esta terça-feira, e os compradores queriam garantias que estas seriam prorrogadas. Cafôfo, eleito por uma coligação de partidos opositores ao PSD-Madeira, que na altura da demolição presidia à câmara, não só deu essas garantias como ainda simplificou os processos e procedimentos.

“O que eu pedi, foi que o requinte e o classicismo do anterior Savoy, continuem nesta nova unidade”, explicou o autarca, lembrando que a zona onde o hotel será construído é “fundamental” para a cidade. “Fica junto de moradias do início do século passado, e ao lado de um hotel desenhado por Oscar Niemeyer [o hotel Casino Park]”, argumentou, apontando ainda os benefícios para a cidade de uma obra que irá dinamizar a economia e criar cerca de 350 postos de trabalho. As obras devem arrancar já em Janeiro.

O Grupo AFA tem na construção o core business, principalmente as grandes obras públicas. Na Madeira, o grupo, do qual o empresário Avelino Farinha é o rosto mais visível, foi responsável pela construção de grande parte da rede viária, túneis e infraestruturas portuárias. Com uma vasto portfólio de obras no continente, Açores, Senegal, Mauritânia e Angola, a AFA começou a diversificar as áreas de atuação à medida que se aproximava o fim do ciclo de obras públicas na Madeira.

Próximo de Alberto João Jardim, Avelino Farinha começou a olhar para o turismo com interesse. Primeiro com a compra do quatro estrelas Calheta Beach e depois, em Abril deste ano, com a construção e exploração de outro quatro estrelas, o Saccharum, também na Calheta.

Com este negócio, a AFA reforça a posição no sector turístico e imobiliário, que passa a ter um peso cada vez maior na faturação do grupo. O empresário, que foi buscar um ex-diretor regional do Turismo, Bruno Freitas, e o ex-vereador funchalense com o pelouro da economia, Pedro Calado, não pretende ficar por aqui.

O hotel Madeira Palácio, outro ícone da hotelaria madeirense, que foi também parcialmente demolido para ser reconstruído e acabou, devido à falta de financiamento, por ter o mesmo destino do que o Savoy, será um dos próximos alvos. Mas é também para Lisboa, sabe o PÚBLICO, que o grupo pretende crescer nesta área, através da compra de uma unidade hoteleira.