A Educação e a ligação ao universo Empresarial

Um dos principais pilares de um grande país, assenta, sem qualquer dúvida, na Educação e nas entidades que a promovem através de padrões de excelência, credibilidade e capacidade de integração no universo laboral/empresarial. A Revista Pontos de Vista foi conhecer a Escola Profissional de Setúbal e conversou com Manuel J. Pisco Lopes, Presidente do Conselho de Administração da instituição e da Associação Nacional de Escolas Profissionais. A evolução da educação em Portugal e a ligação ao tecido empresarial foram alguns dos temas abordados, entre outros. Conheça um pouco mais desta realidade.

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Como avalia a situação atual da educação em Portugal? Qual a sua opinião relativamente à importação de políticas educativas, de que é exemplo o sistema dual alemão?
A educação em Portugal evoluiu muito, no sentido da generalização do acesso à educação nos níveis básico e secundário. Não tanto no nível superior, condicionada pelo baixo nível sócio-económico de grande parte da população. A evolução que falta fazer, é em dois pontos chave para qualquer sistema de ensino: 1) a gestão curricular, com adequação permanente à realidade da vida atual, para conseguir, por um lado, motivar e captar o interesse dos alunos pela escola, para poder desempenhar uma função social e cultural e, por outro lado, para corresponder às reais necessidades de competências das empresas e organizações; 2) a formação contínua de professores que, como principais agentes da educação, carecem de uma permanente atualização de conhecimentos e de metodologias de ensino, mas que não dispõem de um sistema de formação contínua – que, na realidade é inexistente – não lhes permitindo uma evolução consistente no desenvolvimento das suas carreiras.
O sistema dual – que existe há décadas, como opção dos alunos, com o sistema de aprendizagem e os cursos profissionais – foi um “disfarce” para parecer que havia uma novidade na política educativa e para disfarçar o insucesso escolar, mas que contém, tal como se tentou implementar, um risco enorme de exclusão de segregação educacional, ao tentar alimentar o sistema com os alunos com pior desempenho escolar, logo a partir do nível básico.

O anterior governo apostou claramente no ensino profissional. De que forma essa aposta se tem refletido na educação em Portugal?
Não houve essa aposta no ensino profissional, houve apenas algumas declarações formais. Na escola pública foi quebrado o impulso para a promoção dos cursos profissionais e no ensino particular que, desde o início foi o motor do ensino artístico vocacional e profissional, foi constante a redução do número de turmas atribuídas e viveu-se quase permanentemente uma situação de estertor financeiro.

Que balanço faz do mandato de Nuno Crato enquanto Ministro da Educação?
Tentou cumprir o seu desígnio de fazer “implodir o Ministério da Educação”, desestruturando os serviços que ficaram entregues à incompetência e à incapacidade de resposta dos serviços, com as evidentes consequências no sistema educativo.

De que forma essa aposta se tem refletido também na procura da Escola Profissional de Setúbal?
A procura tem-se mantido, mas a atribuição de turmas é feita pelo Ministério da Educação. A redução geral de turmas atribuídas ao Ensino Profissional, teve os seus reflexos também nesta escola que tem ainda uma capacidade de oferta formativa bastante deaproveitada.

Quais os cursos com maior procura e porquê?
Química Industrial e Análise Laboratorial, Eletrónica e Automação, Desenho Digital, Informática e Manutenção Industrial, claramente pela sua empregabilidade.

Quais aqueles que têm uma maior taxa de empregabilidade?
Química Industrial, Análise Laboratorial, Eletrónica e Automação. As necessidades das empresas é que ditam a empregabilidade e a qualidade da formação ministrada é o garante da concretização dessa empregabilidade.

A taxa de empregabilidade dos cursos profissionais ronda os 70% um ano após a conclusão dos mesmos. No entanto o ensino profissional ainda não consegue atrair os alunos portugueses tanto quanto o governo expectou, ou seja, na ordem dos 50%. Porquê? O que está a falhar? O estigma que durante muitos anos afastou os alunos do ensino profissional e os aproximou mais da formação superior ainda não está ultrapassado?
Os alunos do ensino profissional sabem que podem prosseguir estudos e, em boa parte, seguem essa via, nomeadamente para os Institutos Politécnicos. O estigma existe mais na opinião publicada de quem ainda não entendeu a normalidade do ensino profissional e também nos decisores do Ministério da Educação, do que é exemplo a criação dos Cursos Vocacionais destinados aos alunos de insucesso escolar, bem como dos Cursos Técnicos Superiores Profissionais, alimentados com alunos que podem interromper o percurso escolar de nível Secundário e Profissional.Escola Setúbal

Uma das prioridades europeias é o combate ao abandono e insucesso escolar. Que contributo podem dar as escolas profissionais nesta matéria?
O ensino profissional, com a sua metodologia de ensino e recuperação das aprendizagens e as suas práticas de ligação constante às empresas, é um modelo de integração escolar e profissional. A integração escolar, não a segregação, é a melhor resposta ao insucesso escolar.

De que forma a Escola Profissional de Setúbal se tem vindo a aproximar o tecido empresarial?
A ligação às empresas, sobretudo na preparação, definição de projetos e acompanhamento permanente dos estágios em contexto de trabalho, é um elemento essencial no funcionamento da Escola Profissional, o que se reflete nas largas dezenas de protocolos firmados com empresas e na dificuldade que esta escola vai tendo, para dar resposta a todas as solicitações das empresas para a colocação de estagiários e também para o recrutamento de alunos ou ex-alunos da Escola Profissional de Setúbal.

Que objetivos gostaria de ver atingidos nos próximos anos?
O mais importante seria que as políticas educativas, desenhadas em gabinete, não entravassem as respostas necessárias às necessidades de integração educativa dos alunos e formação de técnicos para as empresas, atendendo às suas reais necessidades. As Escolas Profissionais já demonstraram à sociedade que são capazes de dar essa resposta e atingir esses objetivos.