Agir em conjunto e no mesmo sentido

A opinião de Gonçalo Xufre Silva, Presidente do Conselho Diretivo da ANQEP

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Gonçalo Xufre Silva

No final deste ano foram conhecidos os resultados do primeiro inquérito pan-europeu centrado na problemática da desadequação das competências que todos os países europeus enfrentam e que procuram resolver, na tentativa de ajustarem as formações disponibilizadas, em cada ano, pelos sistemas nacionais de educação e formação às reais necessidades presentes e futuras evidenciadas pelo mercado de trabalho.

Este inquérito baseou-se numa amostra de 49 mil adultos empregados dos 28 Estados-Membros, com idades compreendidas entre os 24 e os 65 anos de idade, e deixou muito evidente que, aos esforços empreendidos até agora pelos sistemas nacionais de educação e formação, não houve o correspondente e necessário empenho das empresas.

Os resultados apurados demonstraram, por exemplo, que quase metade (47%) dos trabalhadores europeus enfrentou mudanças tecnológicas desde o ingresso no emprego. Além disso, 21% destes trabalhadores estão convictos de que muitas das competências que detêm tornar-se-ão obsoletas nos próximos 5 anos, necessitando, para poderem continuar a ser produtivos, de adquirir novas competências que apenas poderão ser proporcionadas em ambiente informal, nos locais de trabalho. Olhando para o que se passou nos últimos anos, apenas um em cada cinco adultos empregados atesta ter desenvolvido novas competências nas empresas e 25% dos adultos consideram-se sobre qualificados para os cargos que ocupam (que apenas requerem o uso de competências básicas de literacia). De referir ainda que 27% dos inquiridos consideram estar num emprego tipo “beco sem saída”, no qual não veem qualquer potencial de desenvolvimento.

A par disto, quatro em cada dez empresas reclamam não conseguir angariar recursos humanos com as competências de que necessitam, o que contrasta com os elevados níveis de desemprego existentes na Europa (23 milhões de pessoas, o correspondente a 10% da população ativa).

Estes resultados levantam, claramente, uma questão: Afinal se existe tanta mão de obra disponível e se, efetivamente, grande parte (sobretudo nas gerações mais jovens) é muitíssimo mais qualificada do que alguma vez foi, por que motivo expressam as empresas tantas dificuldades em captar e reter os recursos humanos necessários para poderem ser competitivas?

A resposta afinal, como já avançam alguns estudos do Centro Europeu para o Desenvolvimento da Formação Profissional (CEDEFOP), está na necessidade de as empresas se comprometerem, também elas, com aspetos como a atratividade dos postos de trabalho, o bem-estar dos trabalhares e uma efetiva qualificação ou requalificação dos seus colaboradores, numa perspetiva de construção de carreiras.

Se isso não suceder, os esforços já empreendidos pelos sistemas nacionais de educação e formação nunca alcançarão os resultados desejados. Por mais que se reajustem os currículos, aproximando-os das aprendizagens necessários aos desempenhos profissionais e se lhes dê legibilidade perante as empresas, através de uma tradução em resultados de aprendizagem (que expressem o que os aprendentes sabem fazer quanto terminam as suas formações), por mais horas de formação prática em contexto real de trabalho que se acrescentem às formações profissionalizantes e por mais que se envolvam representantes de empresas na construção dos referenciais de formação e dos correspondentes perfis profissionais, não seremos capazes de evoluir para os níveis que pretendemos alcançar de competitividade e de empregabilidade, se, do lado das empresas, estas não forem capazes de percecionar estes problemas como seus e não colaborarem na construção de respostas eficazes.

Há que trabalhar com a convicção de que todos teremos de assumir uma quota-parte da responsabilidade e de propor soluções, agindo em conjunto e todos no mesmo sentido.

ANQEP