No Radar do Empreendedorismo

Empreendedor é alguém que tem uma ideia e que, face à envolvente socioeconómica, a transforma numa verdadeira oportunidade de negócio. Para isso, o empreendedor terá de ser um verdadeiro mobilizador de recursos, desde competências, a equipa, passando por recursos físicos e, financeiros. Qualquer iniciativa empreendedora terá inevitavelmente três características: incerteza, risco e inovação.

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Miguel Cruz

Por Miguel Cruz, Presidente do IAPMEI

Uma estratégia empreendedora de sucesso passará, pois, pela adequada síntese entre a oportunidade do mercado e a capacidade efetiva de resposta do empreendedor e da sua equipa, com as características desejadas pelo mercado.
Apesar da importância da palavra “tecnologia”, “Mercado” é a palavra-chave para o sucesso. Um erro de enfoque gera, muito frequentemente, uma sobrestimação da probabilidade do sucesso da iniciativa empreendedora, com consequências na capacidade de sobrevivência financeira. Não há compreensão do mercado sem compreensão da concorrência. Muitas vezes, a sobrestimação da probabilidade de sucesso encontra, com facilidade, a sua contraparte na subestimação da concorrência, atual e futura.
Para uma melhor compreensão do mercado e de um fator crítico como o time to market, é indispensável o funcionamento em rede. O funcionamento do agora comummente designado de ecossistema empreendedor.
Elementos essenciais deste funcionamento em rede são, desde logo, a educação em empreendedorismo (o IAPMEI tem vindo a investir fortemente no referencial para o empreendedorismo, a aplicar desde o ensino básico), a literacia financeira (o IAPMEI e o Conselho Nacional de Supervisores Financeiros, lançaram um referencial de formação financeira), o funcionamento de Universidades e outros Centros de Saber que têm um papel essencial na dinamização do empreendedorismo, nomeadamente tecnológico, e na credibilização técnica de ideias e competências, a disponibilidade de infraestruturas de apoio, como incubadoras, que aportem efetivo valor a pequenas organizações com estrutura inexistente ou reduzida, a mentoria e a assistência técnica, que pode ajudar a desenvolver, enfocar e adequar ideias ao mercado e, parceiros financeiros, como os Business Angels ou Venture Capitalists.
É de referir a experiência que o IAPMEI levou a cabo com o passaporte para o empreendedorismo, em que foram recebidas 2316 ideias, que foram trabalhadas, acompanhadas, escrutinadas e avaliadas, tendo 406 oportunidades de negócio sido criadas, e que se revelou muito positiva. Para tal foi essencial o contributo da Rede Nacional de Mentores, num total de quase 600 mentores voluntários inscritos. Esta primeira experiência piloto teve resultados muito interessantes, pelo que consideramos essencial aprofundar a disponibilidade deste instrumento.
Também o concurso INOVA, com mais de dez mil estudantes, e mais de mil professores envolvidos por edição, constitui uma iniciativa essencial para a dinamização do espírito empreendedor. A dinamização de uma cultura virada para o empreendedorismo é essencial, o que implica a necessidade de atuar em diferentes vertentes, desde a educação, a abordagem cultural ao insucesso (honesto), e o tempo para encerrar uma empresa, entre outros.
Na vertente financeira, há uma aposta decisiva do Portugal 2020 no empreendedorismo, quer através dos sistemas de incentivos, dirigidos a empresas criadas há menos de dois anos, quer através dos instrumentos financeiros, dirigidos a capital, através de cofinanciamento a Business Angels, e através de Venture dirigido às fases de seed e de start-up.
Em 2006, 2012, 2013, 2014, Portugal, através de um exercício coordenado e dinamizado pelo IAPMEI, de forma aberta e colaborativa, veio a receber primeiros prémios de inovação e empreendedorismo da responsabilidade da Comissão Europeia. Recebemos ainda uma menção honrosa em 2014, sempre em concorrência contra projetos de todos os restantes países da União Europeia. Em 2015, Portugal ganhou o grande prémio do júri, num projeto apresentado pelo IAPMEI e dinamizado pela Câmara Municipal de Lisboa, o Lisboa Empreende.
A presidente do júri fez, então, questão de cumprimentar Portugal pelo excelente trabalho que tem vindo a desenvolver na dinamização do empreendedorismo. É bom ter esse reconhecimento e visibilidade, sabendo, no entanto, que tal não é suficiente.
A criação de novas iniciativas empreendedoras tem um impacto direto na criatividade, inovação e capacidade competitiva da economia portuguesa, sendo por isso elemento essencial para manter um impulso no crescimento das nossas exportações.
Qualquer nova iniciativa empresarial, quando nasce, nasce no mercado global. Assim, precisamos, cada vez mais, de referências mundiais de sucesso, de acesso a capital e a financiamento global e transfronteiriço. Precisamos não apenas de apoio público, mas também de um crescimento do empreendedorismo corporativo. Precisamos de continuar a apostar na inovação empresarial e na colaboração entre empresas e centros de saber. Precisamos de recursos humanos qualificados e de competências adequados para sustentar um crescimento exponencial da atividade empreendedora. Precisamos de uma rede de empreendedores que se autoalimente.
Precisamos, por isso, de aprofundar todas estas condições de sucesso, em rede, para colocar Portugal no radar do empreendedorismo.