Península de Setúbal, uma terra de vinhos sem segredos

“A Península de Setúbal é uma região singular cujos vinhos são tão generosos e equilibrados como a região que os vê nascer”. Singularidade, generosidade e equilíbrio são frequentemente três características associadas a uma terra de vinhos por excelência que apela aos cinco sentidos. Nascendo entre os dois maiores estuários nacionais (Tejo e Sado), a Península de Setúbal prima pela diversidade, pela paisagem de tirar o folego e, claro, pela qualidade intrínseca dos seus vinhos, que resultam de uma perfeita harmonia entre clima, solo, castas e Homem. Foi este quadro que Henrique Soares, Presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal, nos pintou. Mesmo não tendo nascido aqui, já se considera um “homem da terra”, vivendo as alegrias, as conquistas e as dificuldades desta região como ninguém.

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Henrique Soares

A Península de Setúbal é um convite ao paladar, à audição, ao tato, à visão e ao cheiro. Numa descrição geral, que não enfatiza, de todo, a sua verdadeira essência, é uma região que apela aos cinco sentidos, pela diversidade da sua gastronomia, pela riqueza das histórias dos seus monumentos, pelos pormenores das faianças, dos barros, pelos rios, serras e palácios de perder de vista e, claro, pelo aroma dos seus vinhos. E é nesta característica que nos focamos. A Revista Pontos de Vista conversou com Henrique Soares que, além de Presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), é hoje um homem dedicado a esta terra, de corpo e alma. Estar na linha da frente desta entidade é, por isso, todos os dias, um enorme desafio. “Assumir este trabalho é um desafio. Apesar de não ter nascido cá, tenho mais vida aqui do que na terra onde nasci e com estas funções estamos a contribuir para toda uma região em geral e para cada um dos produtores das empresas vitivinícolas em particular, ou seja, estamos sempre com um pé no particular mas sempre com um foco no geral, o que nos dá uma perspetiva diferente daquilo que é o mundo vitivinícola”, defendeu.

Quem faz a essência e a imagem de uma região são os seus produtores e as suas empresas e na Península de Setúbal não há exceções a esta regra. Por isso, se esta região se tem destacado entre as demais regiões demarcadas portuguesas, é fruto do trabalho e da dedicação das “suas pessoas”. Como tal, para Henrique Soares, a CVRPS é “mais uma entidade que investe no sentido de construir a imagem da região, ganhar notoriedade e retornar valor às empresas que investem numa denominação de origem”. Garantindo a genuinidade, a qualidade e a origem dos vinhos, a comissão dedica-se à certificação, defesa e promoção das DO (Denominação de Origem) Moscatel de Setúbal, Moscatel Roxo de Setúbal, Palmela e da IG (Indicação Geográfica) Península de Setúbal, promovendo e defendendo os interesses dos produtores cujo leque de produtos inclua os vinhos da Península de Setúbal.

O perfil do consumidor

Não sendo uma das maiores regiões do país em termos de volume de produção, a aposta sempre foi na qualidade e diferenciação, tendo em conta que o perfil do consumidor é diferente de mercado para mercado. “Quando se produz um vinho tem que se pensar que, dependendo do mercado, o momento do consumo é diferente. Quem gosta de beber um vinho fora da refeição, em princípio não gostará do mesmo género de vinho daquele consumidor que só bebe às refeições”, explicou Henrique Soares. Tem sido esta a génese da viticultura na região que tem evoluído de uma forma muito considerável ao longo dos últimos anos. Deste crescimento surgem uvas com melhor qualidade, com produções ambiental e economicamente viáveis que permitem a conceção de vinhos com uma particular relação entre a qualidade e o preço, tal como nos explicou o Presidente da CVRPS, transportando-nos numa espécie de viagem no tempo. Há 20 anos, na euforia da década de 90, vivia-se uma realidade que, aos olhos de hoje, parece irrealista. “A moderna distribuição aliciava os produtores porque queria que os seus vinhos estivessem nas suas prateleiras.

Nesses tempos de ‘loucura’, fomos uma das poucas regiões em que as empresas não especularam com preço, ou seja, os valores permaneceram os mesmos que se praticavam até então, mantendo a mesma imagem de qualidade”, descreveu. Hoje, perante uma realidade completamente diferente, a postura permanece inalterável. “Com o arrefecimento do mercado e o aumento da concorrência, os consumidores que conquistámos nos anos 90 mantiveram-se fiéis às marcas da região, reconhecendo a qualidade do vinho, vendido a um preço considerado justo”, acrescentou Henrique Soares. E é deste compromisso desde sempre assumido pelos produtores da região que nasce a tão singular relação qualidade/preço que é quase um cartão-de-visita dos vinhos da Península de Setúbal e que conquistou a preferência de consumidores nacionais e estrangeiros.

Importância dos mercados externos

No entanto, com a retração do consumo, foi necessário repensar estratégias, abrindopenínsula de setúbal horizontes e conquistando novos perfis e novos paladares. Era o momento para apostar nos mercados externos, o que temos vindo a fazer com mais afinco nos últimos três anos, com especial enfoque para o Brasil, China e Angola, considerados atualmente mercados prioritários fora do espaço comunitário. “O vinho, não sendo um produto de consumo essencial, tem uma elasticidade muito grande e é um negócio volátil, sujeito à conjuntura económica dos mercados em questão. Mas, apesar das dificuldades do Brasil e Angola, estes continuam a ser mercados muito interessantes e são países onde provavelmente não iremos desinvestir”, garantiu o responsável. Mas, como o negócio da exportação comporta riscos que devem ser ponderados com cautela, tudo terá de ser decidido ao pormenor. Para o ano serão analisados os resultados alcançados e saber-se-á se estes são mercados para abandonar ou para continuar a apostar.

O facto de grande parte do investimento na promoção externa ser feito com recursos do próprio setor e não com verbas públicas é, para Henrique Soares, um fator que joga a favor dos agentes deste setor. “É um fator de previsibilidade e de vantagem. É evidente que é importante alargar o orçamento, e para isso são relevantes os apoios que se dão à exportação, mas esse é o segredo do nosso setor. Outros olham para o negócio do vinho como um modelo a seguir e por vezes tentam segui-lo mas com fundos públicos. Mas o nosso não é assim que funciona. Investimos dinheiro do nosso bolso e esperamos que depois chegue um complemento”, esclareceu.

Voltando ao mercado nacional, apesar da estagnação e até de um ligeiro recuo nos últimos anos, continua a ser um mercado de excelência para os vinhos portugueses, desta região de um modo particular. “Não nos podemos alhear do mercado nacional e não é isso que fazemos. Continuamos a organizar ações de promoção interna, estamos presentes nos principais eventos vínicos e trabalhamos estreitamente com a moderna distribuição porque cada vez mais é aí que os consumidores se abastecem”, explicou. A segunda edição dos “Vinhos no Pátio” é disso um excelente exemplo. Com organização da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa e os apoios da CVRLx e da CVRPS, esta segunda edição foi um sucesso. Os visitantes tiveram a oportunidade de aprofundar conhecimentos sobre as diferentes tipologias de vinhos das duas regiões, numa iniciativa que Henrique Soares acredita que se enquadra num “movimento de parceria entre o vinho, o turismo e o enoturismo para manter e consolidar”. Esta perspetiva veio para ficar. “Quem está ligado à área do turismo tem vindo a perceber a importância da gastronomia e dos vinhos para a promoção e retenção de turistas em Portugal. Além dos monumentos, da natureza e da boa imagem que levam do nosso país, estes dois elementos são um adicional e um complemento à ligação com que eles ficam a Portugal”, concluiu Henrique Soares. E o que é que esta região, em particular, tem de tão apaixonante e singular?

Desfragmentar o conceito de “terroir”

Terroir. Neste setor é habitual ouvirmos enólogos, viticultores ou produtores a usarem com frequência esta terminologia que, para muitos, é desconhecida. É um estrangeirismo difícil de traduzir mas que carrega em si uma simbologia determinante para definir uma região. Para Henrique Soares o terroir ajuda a definir os vinhos da Península de Setúbal e, neste sentido, importa falar nesses quatro elementos: solo, clima, castas e fator humano que, conjugados, são decisivos em qualquer cultura agrícola.

Do ponto de vista dos solos, a Península de Setúbal é caracterizada por uma grande extensão de solos arenosos. “A areia é o mais pobre dos solos, o que faz com que as videiras tenham que “afinar” naturalmente porque são forçadas, em condições muito difíceis, a retirar o melhor de si próprias”, descreveu. Existe depois outro tipo de solo, o argilo-calcário, também com características bem diferenciadas e presentes em zonas de maior relevo.

Se a proximidade ao Oceano Atlântico é um fator presente também noutras regiões, esta em particular goza de outras condições. “Estamos próximos a dois grandes estuários, o Sado e o Tejo, duas enormes massas de água que, juntamente com o Atlântico, fazem com que a Península de Setúbal por vezes até se assemelhe a uma ilha, em termos de influência climática”, explicou.

No que respeita às castas, esta é uma região de diversidade. “No campo dos tintos, nenhuma outra região é tão dominada por uma única casta que não está presente em nenhuma outra região com tanto impacto e dimensão: a Castelão. Nas brancas há duas castas que moldam a região, nomeadamente a Moscatel de Setúbal que é usada não só para vinhos licorosos como para vinhos brancos e a Fernão Pires”, esclareceu Henrique Soares.

Apesar desta predominância, nos últimos 15 anos, para diminuir o risco e para responder às exigências de novos perfis de consumidores, foram introduzidas castas diferentes que fazem nascer vinhos para todos os gostos. Tudo é possível, dos brancos aos tintos, não esquecendo os inigualáveis Moscatel de Setúbal ou Moscatel Roxo de Setúbal, “a nossa joia e o nosso diamante”. “Estes dois vinhos licorosos despertam a atenção do público e dos mercados externos e, com eles, fazemos com que o consumidor conheça os nossos tintos e brancos que são o cerne da nossa atividade. São uma espécie de ‘bandeira/porta-estandarte’ da região”, descreveu o responsável.

Por fim mas não menos importante, o fator humano é o elemento menos objetivo. Todas as regiões têm homens e mulheres de garra e criatividade que vestem a camisola e desempenham as suas tarefas com alma e paixão pelo que fazem e na Península de Setúbal “há um conjunto de produtores, técnicos de viticultura e enólogos que se têm destacado nos últimos anos”. Clima, solo e castas são fundamentais mas “o Homem é o fator decisivo das vinhas que se plantam e dos vinhos que se produzem”, concluiu Henrique Soares, o homem que conduz os destinos da CVRPS e que continuará a trabalhar para reforçar a notoriedade de cada um dos vinhos de uma região “abençoada pela Mãe Natureza”.

Castas da região

Brancas: Moscatel de Setúbal (de Alexandria ou Graúdo), Fernão Pires e Arinto são as principais. Outras – Antão Vaz, Verdelho, Chardonnay, Viosinho, Viognier, Síria, Malvasia Fina, Sauvignon, Alvarinho, Sercial, Rabo de Ovelha, Pinot Blanc, Moscatel Galego Branco, Tamarez, Semillon, Loureiro.

Tintas: Castelão, Syrah, Aragonez, Touriga Nacional, Trincadeira, Alicante Bouschet e Moscatel Roxo são as principais, complementadas com: Cabernet-Sauvignon,, Touriga-Franca, Merlot, Alfrocheiro, Tinta-Barroca, Tinta-Miúda, Tannat, Tinto-Cão, Petit-Verdot, Pinot Noir, Bastardo.

“O negócio do vinho tem o seu ‘quê’ de genética”

Houve muita gente a investir neste setor aparentemente com racionalidade mas este é um negócio muito particular. O negócio do vinho tem o seu ‘quê’ de genética e, não sendo um bem essencial, parece-me que o saber acumulado de geração em geração tem um papel mais decisivo do que noutros negócios no que respeita ao sucesso que se consegue ter”. (Henrique Soares)

História do Moscatel de Setúbal

“O Moscatel de Setúbal sobressai na História de Portugal pela distinção das suas qualidades entre os vinhos fortificados nacionais e é parte da cultura, da tradição e da forma de viver da Península de Setúbal. Desconhece-se o momento preciso em que terá começado o cultivo da vinha na Península de Setúbal, mas estima-se que os Fenícios e os Gregos tenham dado um forte impulso na divulgação do vinho, incentivando as trocas comerciais com outros povos através do estuário do Sado. A fama do Moscatel de Setúbal, além-fronteiras, terá começado na segunda metade do século XIV quando Ricardo II de Inglaterra se torna um importador assíduo de Moscatel de Setúbal”

(FONTE: www.moscateldesetubal.pt)