Centros portugueses em Cabo Verde apresentam apostas culturais

A exposição "Casa Estudantes do Império" marca o arranque das atividades no centro cultural português da Praia, Cabo Verde, enquanto no Mindelo a grande aposta para 2016 será no teatro, com estreia prevista de duas produções novas.

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Agendada para 2,3 e 4 de fevereiro, a exposição itinerante “Casa dos Estudantes do Império 1944-1965 – Farol da Liberdade”, promovida pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), foi inaugurada em Lisboa, em maio de 2015, no âmbito de uma homenagem aos antigos alunos desta instituição criada pela ditadura em 1944 e que se destinava a acolher os jovens das colónias durante o percurso universitário, em Portugal.

A instituição acabou por albergar os jovens nacionalistas e a elite dos movimentos de independência a partir do final dos anos 1950.

Com sede em Lisboa, uma delegação em Coimbra e mais tarde no Porto, a Casa dos Estudantes do Império, sob vigilância da polícia política, foi encerrada por ordem de Salazar, em 1965.

A mostra, atualmente patente em Maputo, Moçambique, poderá ser vista em fevereiro no Centro Cultural Português da Praia, antecipando desta forma o início das atividades deste centro, que habitualmente começam apenas em março, conforme explicou à agência Lusa a diretora Conceição Pilar.

Segundo a responsável, o programa está ainda em construção, mas é certo que incluirá os tradicionais ciclos de guitarristas e de pianistas, além de teatro, exposições e lançamentos de livros, jazz e fado.

Conceição Pilar explicou à agência Lusa que o centro recebeu uma série de propostas destas áreas, sendo agora necessário fazer uma triagem dos espetáculos a apresentar.

Conceição Pilar adiantou que gostaria de poder concretizar em 2016 o sonho de realizar um desfile de moda e de apresentar um dos novos filmes portugueses, trazendo de Portugal para a apresentação um ou dois protagonistas.

“A grande aposta seria esta”, disse, mostrando-se cautelosa quanto ao avançar com muitos projetos, numa altura em que ainda não há certezas sobre o orçamento do centro para este ano.

Está ainda previsto um concerto para assinalar o 25 de abril, que este ano deverá trazer o artista José Perdigão, e outro para assinalar o Dia da Mulher Cabo-Verdiana.

Conceição Pilar adiantou que em dois anos o orçamento do centro sofreu um corte de 5 por cento, sendo que em 2015 a verba global atribuída ao centro foi de 76 mil euros.

“Acho que este ano vão cortar mais um bocadinho, aumento é impossível, manter seria um milagre”, disse a responsável, sublinhando a dificuldade de trazer a Cabo Verde artistas portugueses por causa dos custos elevados das viagens.

Em 2015, o centro “apostou muito” em artistas cabo-verdianos, a juntar aos portugueses, tendo realizado, em média, um concerto por semana, com assistências de 150 a 160 pessoas, sempre com entrada livre.

Apostar na “prata da casa” é também a linha seguida de João Branco, diretor do Centro Cultural Português do Mindelo, que este ano terá uma vez mais uma grande aposta no teatro.

Com um grupo de teatro próprio, o centro prevê estrear duas produções teatrais novas, elevando para 52 o número de produções em 22 anos.

A “Metamorfose”, de Kafka, a partir de um texto adaptado por um jovem dramaturgo cabo-verdiano, é a proposta teatral para o mês de maio, enquanto em julho está prevista a apresentação de uma peça de José Luís Peixoto, numa parceria com o Teatro Rivoli do Porto.

A peça tem o título provisório de “Estrangeiras” e conta a história de uma portuguesa, uma cabo-verdiana e uma brasileira que se encontram num Serviço de Estrangeiros e Fronteira.

“É uma reflexão crítica, cáustica e até provocatória do que é a lusofonia hoje”, considerou João Branco.

O programa de atividades prevê ainda a realização de encontros com quatro escritores: Filinto Elísio e Germano de Almeida (Cabo Verde) e Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto (Portugal).

Os meses de abril, maio, junho e julho, serão dedicados ao cinema, língua portuguesa, infância e Cabo Verde, respetivamente.

Em outubro, o Mês da Memória, João Branco estima trazer ao Mindelo o “Teatro Vestido”, de Joana Craveiro, um projeto de museu-vivo que junta teatro, história e antropologia através das memórias das pessoas.

O responsável prevê ainda manter a atual atividade de oficinas, conferências e atividades infantis e reanimar o grupo de marionetas.

Para isso, espera que seja possível manter o orçamento de 50 mil euros do centro, que em 2015 realizou em média uma atividade por semana.

“É uma média extraordinária que queríamos manter, queríamos conseguir continuar a dar resposta ao “elan” já criado pelo centro”, disse João Branco.