Como prolongar a vida ativa?

Falar em envelhecimento ativo, para Arlindo Maia, Provedor da Misericórdia de Vila do Conde, não faz sentido. Pelo contrário, prolongar a vida ativa deveria ser o cerne da questão. É verdade que o Ser Humano envelhece desde o seu nascimento. Mas como é que se pode prolongar a vida ativa e lidar com o envelhecimento de uma forma natural e saudável? Este é o grande desafio dos tempos atuais.

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Arlindo Maia

Vila do Conde tem procurado dar o exemplo. Numa casa com mais de 500 anos de história, Arlindo Maia, atual Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde, sempre assumiu uma posição proactiva e dinâmica no seio de uma instituição que conta consigo há sensivelmente três décadas. Hoje, com 85 anos de idade, não se imagina a parar. E é esse o espírito que deve ser preponderante na população hoje em dia. “O Ser Humano nasce, tem a sua infância e juventude e começa a envelhecer. A partir dos 30 anos começam a surgir os primeiros sinais de envelhecimento. Se a pessoa se curva a esta situação natural vai envelhecer mais cedo. Se a pessoa lutar contra o envelhecimento, acabará por fazer uma vida mais natural”, defendeu. É preciso decidir desde muito cedo qual é a posição que se quer assumir na vida. E como é que isso é possível?
Os tradicionais clichês relacionados com a alimentação saudável e com a prática regular de exercício físico podem parecer repetitivos mas são mensagens que devem ser, constantemente, transmitidas e seguidas. O envelhecimento é uma realidade e, como tal, para Arlindo Maia, importa “treinar” o organismo e o cérebro para que não fiquem inertes. “Mexer é a palavra. Precisamos de nos agarrar a algo que nos faça mexer, nomeadamente a um trabalho produtivo que tanto nos beneficie a nós como à sociedade”, aconselhou. Foi isso que Arlindo Maia fez e continua a fazer. “Aos meus 40 anos comecei a assumir a posição de trabalhar também para a minha comunidade, com benefícios não só para mim, mas também para as pessoas que me rodeavam. Vivo os meus dias divertindo-me e comovendo-me, ajudando e colaborando com as pessoas e esta é uma preparação que começa a ser feita a meio da nossa vida. Posso não me movimentar com a mesma força mas continuo a ter os meus sonhos e a procurar realizá-los. Quando algo do meu organismo começa a falhar, procuro saber a razão. É um desgaste natural da idade ou eu não tenho tido o devido cuidado?”, questionou. É a estes sinais de alerta que todos devemos prestar atenção, preparando o corpo e a mente para um processo de envelhecimento que é natural. Se para muitos a isto se chama “envelhecimento ativo”. Para Arlindo Maia não é mais do que encontrar um caminho para prolongar a vida ativa. “Hoje a esperança média de vida é mais avançada. Chegamos lá? Não sabemos. Mas temos a obrigação de nos prepararmos para isso, tomando todos os cuidados para prolongar a vida ativa o melhor possível, vivendo e não vegetando”, concluiu o provedor. Daí que ouvir alguém com cerca de 50 anos de idade a sonhar com a sua idade da reforma para de seguida nada fazer, parece-me algo confuso. “Este é um pensamento que não deve existir, a não ser que estejamos a falar de pessoas sem outra capacidade de sobrevivência”, partilhou o responsável que nunca deixaria que aos 67 anos de idade lhe dissessem que tinha de deixar de trabalhar. “Quero continuar a sonhar, quero continuar a realizar. A minha mente não foi preparada para envelhecer por ter parado. Não posso, de modo algum, ficar parado no tempo a olhar para o passado”, disse Arlindo Maia numa conversa ao longo da qual reavivou alguns episódios guardados no seu baú de recordações. Com 85 anos são incontáveis as histórias de uma pessoa que nunca procurou passar o seu tempo de qualquer forma. A sua vida sempre teve um propósito: lidar com pessoas, sonhar e produzir para si, para os seus e para a sua comunidade.

Desde 1510 ao serviço da comunidade

Apesar do grande aumento de Instituições Particulares de Solidariedade Social que acolhem idosos, de acordo com os últimos censos, em Portugal cerca de 400 mil idosos vivem sozinhos. Este é um número que nos deve preocupar a todos, enquanto cidadãos. Viver sozinho é um drama. “O Homem nasceu para viver em sociedade, para conviver e falar. É fundamental que assim seja. O Homem não pode viver como um pássaro dentro de uma gaiola por mais confortável que ela seja. Tem de ter as suas relações e o seu cérebro tem de continuar a sonhar e a realizar. Quando deixar de ser assim, deixa de existir”, defendeu Arlindo Maia. Neste trabalho, o papel dos Governos é essencial. É o poder central que deve lançar as diretrizes de atuação e, localmente, as organizações inseridas nas comunidades devem agir. Para o provedor, a Misericórdia de Vila do Conde tem desenvolvido um trabalho importante nesse sentido. “Não esperamos que as pessoas venham ter connosco. Nós é que as procuramos. Por exemplo, em 1994 verificámos que existiam pessoas em Vila do Conde a passar fome, por motivos vários. Tomamos então uma decisão: “em Vila do Conde ninguém há-de passar fome” e começámos a fornecer refeições. Hoje já damos mais de 300 por dia”, contou o responsável satisfeito com as suas equipas que todos os dias dão a cara por esta Instituição. No virar do milénio, Arlindo Maia sonhou que muitas crianças vivem sem uma família ou, se a têm, nada fazem para o seu futuro. Logo se construiu um equipamento, a “Casa da Criança”, com o objetivo de proporcionar a estas crianças uma vida humanizada onde são inseridas e orientadas na sociedade.
“Os funcionários recebem os clientes, estão com os utentes todos os dias, falam com os pais das crianças, a todos sorriem e a todos transmitem esperança, são pessoas humanas e com competências para desempenhar o seu serviço. Eles são o cérebro vivo da Misericórdia de Vila do Conde”, colmatou Arlindo Maia, acrescentando: “gostaríamos que todos prolonguem a sua vida com saúde e um dia quando morrerem, morram de pé”.