Diagnóstico e tratamento precoces são fundamentais nos doentes com DII

No âmbito da Reunião Anual do Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal (GEDII), a Revista Pontos de Vista fez questão de compreender qual o panorama atual desta área médica e que avanços têm sido protagonizados pela comunidade científica. O papel do GEDII, reconhecido como Instituição de Utilidade Pública pela Secretaria Geral do Conselho de Ministros, em 2013, tem sido fundamental na formação médica e no campo da investigação. Veja a entrevista com Fernando Magro, Presidente do GEDII.

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Fernando Magro

A Doença Inflamatória Intestinal, de causa ainda desconhecida, afeta cerca de 16000 portugueses, sendo conhecidos cerca de 100 novos casos anualmente. Com um grande impacto na qualidade de vida dos doentes, esta patologia crónica subdivide-se essencialmente entre a Doença de Crohn e a Colite Ulcerosa. Esta última apenas “atinge o intestino grosso, nomeadamente o epitélio e a lâmina própria”, explica Fernando Magro. A Doença de Crohn “pode afetar todo o tubo digestivo” e “tem um atingimento transmural, ou seja, poderá lesar todas as camadas do intestino. E, portanto, acompanha-se dos riscos da inflamação transmural, como a formação de fístulas, de abcessos ou, eventualmente, de uma perfuração”, continua. Esta doença assume um componente mais sistémico, comparativamente com a colite ulcerosa, contudo, ambas podem acompanhar-se de manifestações extraintestinais, nomeadamente “oculares, hepáticas e dermatológicas”.
A DII aumenta ainda o risco de osteoporose, pela má absorção do cálcio ou como resultado do uso de corticoides, e de cancro do cólon.
Apesar de os investigadores acreditarem que esta doença está associada a questões genéticas, a ausência de informações sobre a sua causa concreta não permite o rastreio e prevenção.
Após diagnóstico, o tratamento pode ser baseado em fármacos ou, em situações em que a doença seja mais invasiva, através de cirurgia. Ambos os métodos terapêuticos têm como objetivo ajudar a aliviar os sintomas e estimular a cicatrização das lesões intestinais.

Investigação é fundamental

O presidente do GEDII explica que é do conhecimento médico atual que “o sistema imunológico reage contra determinados antigenes e provoca a ulceração da mucosa”. Num indivíduo sem DII, o intestino, após um estímulo nóxico, reage com mediadores inflamatórios e depois há cicatrização da mucosa. Contudo, o que acontece na Doença Inflamatória Intestinal é que, perante uma agressão externa inicial, há uma inflamação perpetuada no modo e no tempo com excesso de mediadores inflamatórios. Neste sentido, como em qualquer área médica, é premente o desenvolvimento de projetos de investigação, no sentido de promover um melhor e mais adequado diagnóstico e consequente tratamento da DII. Fernando Magro refere que atualmente nos encontramos num “ponto viragem farmacológico”, que permitirá conhecer novos fármacos que combatam esta doença e, nomeadamente, assegurar o tratamento dos doentes refratários à medicação já existente.
A investigação científica encontra-se direcionada para a pesquisa de novos biomarcadores que promovam o reconhecimento da inflamação antes mesmo de serem despoletados os sintomas.
Em desenvolvimento encontram-se igualmente novas técnicas de imagem, que impulsionarão uma melhor deteção dos órgãos afetados pela DII.
Em suma, Fernando Magro assume que a comunidade médica se encontra a caminhar para resultados “preditivos de prognóstico e do tratamento da DII”.
Papel do GEDII
O Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal existe há uma década e é já “pioneiro” na investigação e formação de gastrenterologistas, garante o presidente da entidade. No contexto formativo, “o GEDII tem pautado por apresentar aos atuais e futuros médicos especialistas novas realidades, novos métodos de abordagem, novas perspetivas”, que contemplem um conhecimento mais profundo sobre a DII. No seu histórico de eventos, o GEDII tem já mais de 30 reuniões nacionais e organiza anualmente eventos mais intimistas, de modo a partilhar experiência com colegas mais jovens, que ainda se encontram em formação. Esta situação propicia a uma maior qualidade profissional.
No contexto da investigação, têm vindo a desenvolver “projetos inovadores, que envolvem os doentes, a sua perspetiva e avaliação, a relação entre o que o doente sente e o que o médico perceciona, a utilização de biomarcadores e de doseamento de fármacos”, explica também o gastrenterologista. A investigação tem sido direcionada para as áreas de farmacoepidemiologia e biomarcadores. No contexto da monitorização terapêutica de fármacos, o GEDII tem desenvolvido o seu trabalho no sentido de tornar os tratamentos mais assertivos e adequados, através do seu doseamento.
Atualmente o GEDII aposta em projetos que envolvam uma maior dinâmica entre o médico e o paciente, nomeadamente os “patient-reported outcomes”, isto é, o desenvolvimento de mecanismos que permitem aos doentes autoavaliarem-se.
O GEDII distribuiu mais de 20 bolsas de investigação, num total monetário de meio milhão de euros. O objetivo é promover o conhecimento sobre a DII e divulgar o papel de Portugal neste campo da ciência.
O gastrenterologista afirma ainda que, ao longo destes dez anos de existência, o GEDII criou e reuniu “ferramentas epidemiológicas, laboratoriais e clínicas que permitirão que qualquer colega mais novo” possa integrar-se e desenvolver esta área médica.
Por este motivo, e com base no percurso do Grupo, é possível concluir que o futuro da instituição e da própria evolução do conhecimento sobre a DII será “promissor”, declara Fernando Magro.