Enfermeiros – Por uma classe vital para o país

Luís Furtado, recém eleito Presidente da Secção Regional da Região Autónoma dos Açores da Ordem dos Enfermeiros, abordou a atualidade do universo da enfermagem e os desafios existentes, sem esquecer que é necessário continuar a lutar por uma classe, a dos Enfermeiros, de enorme importância para o país e para a melhoria da qualidade da saúde.

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Luís Furtado

No passado dia 25 de janeiro, os Órgãos Eleitos da Secção Regional da Região Autónoma dos Açores da Ordem dos Enfermeiros tomaram posse para o mandato 2016-2019. Quais são as prioridades para os próximos anos?
Para os próximos quatro anos assumimos como prioridade a defesa da qualidade e da segurança dos cuidados de Enfermagem, de resto missão primeira da Ordem dos Enfermeiros, dando continuidade a uma série de iniciativas iniciadas no mandato anterior, e que pretendemos, para além da continuidade, em alguns casos até aprofundar. Refiro-me especificamente ao acordo de cooperação com a Secretaria Regional da Saúde, no âmbito das dotações seguras dos cuidados de Enfermagem, ao protoloco celebrado com a Direção Regional da Saúde no âmbito do Programa Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem, mas também aquele que foi celebrado com a Inspeção Regional de Saúde, alargando a base de intervenção da Secção em matéria de regulação, na medida das suas atribuições estatutárias e no contexto geopolítico em que se insere.

Recentemente também Ana Rita Cavaco tomou posse como a nova Bastonária da Ordem dos Enfermeiros, iniciando-se assim o quinto mandato da instituição. Quais são as suas expectativas para esta nova liderança?
As expectativas são elevadas, da minha parte, mas também de todos os colegas que depositam na recém-empossada Bastonária as suas esperanças para conduzir os destinos da Ordem dos Enfermeiros ao longo dos próximos quatro anos. Enquanto Presidente da Secção Regional da Região Autónoma dos Açores da Ordem dos Enfermeiros, naquilo que estiver ao meu alcance e da Secção que presido, é minha vontade contribuir para que o caminho trilhado pela Ordem dos Enfermeiros vá ao encontro das vontades e aspirações dos enfermeiros. Os enfermeiros precisam de encontrar sentido na sua Ordem.

Para a nova bastonária, “se o país virou a página da austeridade e saiu do estado de emergência, então, está na hora de dar condições aos enfermeiros para que seja possível cuidar das pessoas como elas merecem”. Concorda com esta posição? Acredita que com o novo ciclo político que agora se inicia, os enfermeiros estarão mais próximos desses objetivos?
Tenho algum receio que a página da austeridade ainda não se tenha voltado plenamente, ainda paira muita incerteza, existem sinais que ainda me preocupam. Em todo o caso, com austeridade ou sem austeridade, é um imperativo reconhecer e diligenciar para que os enfermeiros cuidem daqueles que são a razão para a sua existência com as condições que merecem. Aqui a Ordem dos Enfermeiros tem um papel preponderante, é Ela que tem de zelar pela defesa da qualidade e da segurança dos cuidados de Enfermagem, mas também pela dignidade do exercício da profissão e das condições para este exercício.

É necessário inovar para um futuro com mais saúde. Na área da enfermagem, o que tem sido feito em Portugal tem sido suficiente? Com o aparecimento de novas doenças, a complexidade das tecnologias ou o aumento da esperança de vida, importa estar sistematicamente na linha da frente da inovação?
O conhecimento produzido pela academia tem tardado em chegar aos contextos de prática clínica, e quando chega, tem dificuldade em adequar-se a estes é produzido muito em Portugal pelos enfermeiros, mas muito pouco de toda esta produção encontra reflexo na prática. Podemos discutir as culpas, as razões e as soluções, mas a verdade é que entre a conceção e a produção do conhecimento – e potencial de inovação – e a sua efetiva aplicação no terreno, vai uma grande distância, razão pela qual considero que deve haver uma maior entrosamento, partilha e trabalho conjunto entre os investigadores e aqueles que exercem nos contextos de prática clínica e que, no fundo, irão, dia após dia, implementar os fatores de mudança.

Portugal tem excelentes médicos, enfermeiros e pessoal hospitalar, extraordinárias universidades, hospitais, empresas de tecnologia e medicamentos de ponta. Na sua opinião, o que falta para que o país seja efetivamente competitivo na área da saúde?
O setor da saúde em Portugal, precisa – urgentemente – de se libertar do paradigma medicocêntrico. Esta visão redutora da saúde funciona como um autêntico espartilho, causando deformidades estruturais graves que demorarão décadas a serem mitigadas se nada for feito a este nível.

Num momento em que a austeridade levou à emigração de milhares de enfermeiros, quais são as oportunidades de emprego para os enfermeiros nos Açores?
As condições de empregabilidade têm-se deteriorado na Região Autónoma dos Açores. Num estudo realizado por mim recentemente, o desemprego absoluto entre os jovens enfermeiros cifrou-se em 14%. Se o Governo Regional dos Açores proceder como esta Secção espera que proceda, contratando mais enfermeiros para que os serviços públicos atinjam os mínimos necessários em termos de dotações seguras, então muitas oportunidades de emprego poderão surgir. Também o setor social funciona nos mínimos na Região, pelo que aqui, e se a segurança for posta em primeiro lugar, também muitas oportunidades de emprego poderão surgir. Vamos lutar para que os acordos firmados com o Governo dos Açores se concretizem.

De acordo com um estudo feito no âmbito do projeto “Saúde em conta” da Escola Nacional de Saúde Pública e que avaliou o nível de conhecimento em saúde no país, entre nove países inquiridos, só a Bulgária está pior do que Portugal. Na sua opinião, o que é que está a falhar?
Apesar de universal, o Serviço Nacional de Saúde é um constructo recente, e Portugal emergiu de uma ditadura há pouco mais de 40 anos. Temos uma população que foi instruída a preocupar-se pouco com a sua saúde (inexistência de uma estratégia capaz ao nível da prevenção primária – centrada no profissional (médico) e não no utente), apesar de aos poucos este paradigma dar sinais de se estar a modificar.

Neste sentido, que estratégias e intervenções na área da literacia em saúde devem ser desenvolvidas e por quem? Que papel a Secção Regional da Região Autónoma dos Açores da Ordem dos Enfermeiros tem procurado assumir?
Referindo-me à Região Autónoma dos Açores, creio que é a Secretaria Regional da Saúde que deve promover este tipo de intervenção, muito por meio do Plano Regional de Saúde dos Açores – instrumento basilar para o Serviço Regional de Saúde – onde os enfermeiros deverão ser chamados a participar de forma ativa. É necessário recentrar o Serviço na prevenção primária, chamar os enfermeiros para a linha da frente – e reconhecer o seu contributo – mas, também dar-lhes condições para que possam (re)educar as populações. As pessoas precisam ser críticas em relação à sua saúde e em relação à saúde que o Estado lhes fornece. A Secção Regional da Região Autónoma dos Açores da Ordem dos Enfermeiros deixou, desde sempre, clara, a sua vontade em ser um parceiro estratégico do Governo dos Açores.

Num período de crise melhorar estes níveis é, de igual modo, uma forma de otimizar os gastos em saúde. Nas políticas e nas medidas implementadas, tem havido essa consciência?
Não consigo recordar um único programa de Governo, a nível nacional ou regional, que não tenha apregoado a sua vontade em otimizar os gastos na saúde e trazer a eficiência para o sistema, contudo, poucas vezes representou mais do que um bom exercício de intenções. O sentimento que me invade quando se fala em otimizar gastos é sempre o de um Estado fraco, que facilmente verga aos interesses instalados e à pressão de um grupo profissional que se assumo, desde há muito, como o umbigo do Sistema de Saúde, incapaz de ver o que o rodeia.

Em prol do desenvolvimento da profissão, qual continuará a ser a linha de atuação da SRRAA da Ordem dos Enfermeiros? Para este ano, que objetivos pretendem concretizar?
A atuação da Secção manter-se-á fiel os princípios que defendeu e que a regeram durante os últimos quatro anos, fomos eleitos, entre outras coisas, também, com este compromisso. Pretendemos iniciar o processo de reestruturação do Programa Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem na Região Autónoma dos Açores, materializando desta forma o acordo celebrado com a Direção Regional da Saúde e que reconhece a relevância desta iniciativa para o Serviço Regional de Saúde, intervir ao nível dos Núcleos de Saúde Familiar na Região, Rede Regional de Cuidados Continuados e Integrados e também ao nível do programa Estagiar L para enfermeiros.

Com o início de um novo mandato, que mensagem importa ser deixada aos vossos membros?
Os enfermeiros açorianos precisam de saber que a Secção estará ao seu lado na defesa dos seus interesses, mas também de um Serviço Regional de Saúde que os assuma, cada vez mais, como centrais no seu funcionamento.