Mais informação em saúde

“É preciso chegar ao cidadão”. Para Sílvia Costa Lopes, Presidente da Associação Portuguesa de Documentação e Informação de Saúde, é premente promover uma política nacional que integre projetos existentes na perspetiva de produção, partilha e utilização de informação para o cidadão. Esta tem sido uma das principais missões da APDIS.

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Sílvia Costa Lopes

Enquanto entidade especializada na recuperação, gestão e difusão da informação em saúde, a APDIS tem promovido e representado os melhores interesses dos seus associados. Qual tem sido o vosso papel?
A APDIS, associação sem fins lucrativos, fundada em 1991, agrega bibliotecários de saúde portugueses. Tem por fim a organização e difusão da informação de saúde e a sua articulação com sistemas ou redes nacionais e internacionais. Organizada com objetivos científicos e educacionais, apoia os bibliotecários e profissionais da informação envolvidos na investigação, educação e cuidados de saúde. Coopera com instituições da saúde, intervindo em três eixos estratégicos: social, profissional e associativo. Contribui para a sensibilização dos cidadãos sobre a importância da utilização de informação qualificada. Procura sensibilizar para a qualidade do desempenho profissional face aos desafios e exigências da sociedade. Promove a cooperação com associações congéneres e dinamiza canais e redes de comunicação.

De acordo com um estudo feito no âmbito do projeto “Saúde em conta” da Escola Nacional de Saúde Pública e que avaliou o nível de literacia em saúde no país, entre nove países inquiridos, só a Bulgária está pior do que Portugal. Na sua opinião, o que é que está a falhar?
Existe trabalho desenvolvido neste âmbito mas a informação está dispersa, pouco direcionada e divulgada. É preciso chegar ao cidadão. O sistema está mais focado nos profissionais. Temos jovens com literacia tecnológica elevada e literacia de informação deficiente. Por outro lado, a população envelhecida carece de intervenção diferenciada. Atualmente procura-se o empowerment do cidadão no acesso à informação em saúde e à sua informação clínica. Destaca-se o projeto “INFORMAÇÃO DE SAÚDE: Mais Transparência, Melhor Decisão”, do qual a APDIS é parceira. A APDIS integra também o Grupo de Trabalho dos Utentes da CAIC/SPMS que visa dar resposta aos desafios que colocam ao cidadão no centro do SNS, no que concerne à informação de saúde e ao seu acesso. Pretende-se capacitar o cidadão para exercer, de modo informado e responsável, o direito à informação sobre o seu estado de saúde e sobre o desenvolvimento do sistema e dos serviços de saúde. Falta promover uma política nacional que integre projetos existentes na perspetiva de produção, partilha e utilização de informação para o cidadão. Aqui, as bibliotecas e os seus profissionais são uma mais-valia.

De um modo geral, quais são as principais implicações que um nível inadequado ou baixo de literacia em saúde pode ter nos resultados nesta área, nomeadamente ao nível do recurso aos serviços de saúde? Um maior conhecimento poderá traduzir-se inevitavelmente numa menor taxa de morbilidade em patologias como obesidade, diabetes ou hipertensão?
Estudos demonstram que cidadãos bem informados apresentam redução dos fatores de risco, melhor adesão terapêutica e consequente redução da mortalidade e morbilidade. Assim teremos maior nível de literacia, maior controlo das pessoas sobre a sua saúde e maior capacidade para procurar informação e assumir decisões e responsabilidades.

É sabido que à medida que a idade aumenta, o nível de literacia diminui. Importa promover um maior conhecimento nesta área junto de públicos mais específicos, nomeadamente as populações mais idosas e mais carenciadas de cuidados de saúde básicos? Qual tem sido a atuação da APDIS?
Baixa taxa de natalidade, avanços da medicina, aumento da esperança média de vida e da emigração potenciam o envelhecimento da população e originam desequilíbrios. Exigem-se novas formas de atuação e acompanhamento da população mais desprotegida e menos informada. O envolvimento da APDIS nas questões do acesso à informação de saúde prevê a intervenção junto dos idosos, sabendo que estes têm maiores limitações. Importa criar mecanismos facilitadores do acesso a informação útil, compreensiva, fidedigna e segura.

Num período de crise melhorar estes níveis é, de igual modo, uma forma de otimizar os gastos em saúde. Nas políticas e nas medidas implementadas, tem havido essa consciência?
Sim, mas importa investir em programas de prevenção e de informação de saúde para o cidadão. Estudos comprovam que o aumento dos níveis de literacia da saúde dos cidadãos está relacionado com uma melhor utilização dos recursos do SNS e uma poupança significativa nos gastos em saúde. Promover a literacia da saúde é apostar na mudança de comportamentos. O modo como se lida com estas questões é decisivo para a utilização sustentável do SNS.

Tendo em conta os dados atuais e os desafios futuros, qual continuará a ser a linha orientadora da APDIS?
Em 2016 comemoram-se os 25 anos da APDIS. É nosso compromisso continuar a contribuir para a melhoria do desempenho profissional e qualidade da informação de saúde em Portugal. Das atividades previstas, destacam-se o Prémio Lucília Paiva e as XII Jornadas APDIS, oportunidade privilegiada para a reflexão e partilha de boas práticas entre profissionais de informação de saúde.