“Para que haja envelhecimento ativo e saudável, é necessário aumentar o conhecimento sobre o mesmo”

A Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior (FCS-UBI) tem tido um papel de excelência na investigação do envelhecimento, promovendo o estudo e acompanhando de perto o idoso. Maria Vaz Patto, Coordenadora das Ações Estratégicas para o Envelhecimento da FCS, e Marcia Kirtzner, Professora Auxiliar de Geriatria e Responsável pela Implementação do Ensino da Geriatria na faculdade, falam-nos sobre o que tem sido a missão desta instituição.

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Maria Vaz Patto

O envelhecimento é uma preocupação crescente da nossa sociedade e torna-se premente promover a investigação, de modo a melhor compreender os desafios desta faixa etária. A FCS-UBI tem vindo a desenvolver um excelente trabalho neste âmbito, através de distintos projetos. Como define a postura da instituição neste contexto?
A FCS-UBI tem um interesse profundo na investigação e no acompanhamento do envelhecimento, quer pelo seu papel na educação dos futuros médicos, quer pela sua consciencialização da necessidade de promover um envelhecimento ativo e saudável.

Luis Taborda Barata, Presidente desta faculdade, afirmou em 2014: “a nossa visão é: que não seja a faculdade, que não seja o hospital, que não seja a câmara, que não seja o lar a fazer ou a tomar medidas isoladas, mas todo o tecido social”. De que modo a faculdade tem contribuído para este envolvimento entre os diferentes atores que visam responder às questões relacionadas com o envelhecimento?
A FCS tem contribuído para esse envolvimento através de projetos com parceiros variados. Inserida numa região demograficamente muito envelhecida, teve, em termos de ensino, a preocupação de fornecer aos seus alunos conhecimentos na área da Geriatria, tendo sido, em 2001, o primeiro curso de Medicina em Portugal a inserir o Módulo de Geriatria obrigatório no seu currículo. Posteriormente, através do mestrado em Gerontologia, forneceu formação pós-graduada a médicos e a outros profissionais de saúde e de outras áreas de conhecimento, permitindo, assim, a capacitação de recursos humanos numa área carente de profissionais qualificados para melhoria da qualidade de vida do idoso. Finalmente, alguns cursos de formação curta, em aspetos distintos de cuidados ligados ao envelhecimento, irão ter início em breve.
Em termos de investigação e de intervenção na comunidade, foram já iniciados ou estão em fase de pré-implementação vários projetos integrados, focando aspetos de envelhecimento ativo e patológico, envolvendo outros parceiros, nomeadamente outras faculdades da UBI, autarquias, residências sénior, farmácias, Institutos Politécnicos e unidades de saúde.

Que projetos têm atualmente em prática no sentido de melhorar a qualidade de vida do idoso e permitir-lhe um envelhecimento mais ativo e saudável?
Para que haja envelhecimento ativo e saudável, é necessário aumentar o conhecimento sobre o mesmo. Assim, na FCS, a formação tem estado a estender-se a várias classes profissionais, bem como ao próprio idoso e seus cuidadores. Temos um projeto de “Educação para a saúde”, dirigido a idosos, em parceria com residências sénior, com grande sucesso. Pretendemos continuar a melhorar essa oferta e, através de parcerias já estabelecidas, alargá-la e dirigi-la para os interesses do idoso e das instituições que o acolhem. Também temos projetos com coortes de idosos, para telemonitorização e farmacovigilância. Um outro projeto envolve alunos de Medicina a acompanhar regularmente idosos durante cerca de 2 anos.

O Laboratório de Neurofisiologia Clínica da FCS tem sido determinante no campo da investigação, nomeadamente no contexto de patologias neurológicas, como a Demência, a Doença de Parkinson ou o Acidente Vascular Cerebral. De que forma podemos associar estas doenças ao envelhecimento e, assim, preveni-las junto dos idosos?
A senescência e as suas alterações fisiológicas e fisiopatológicas aumentam a predisposição para este tipo de patologias. O Laboratório de Neurofisiologia Clínica da FCS tem-se dedicado ao estudo destas alterações e à influência de medidas de prevenção, mas também tem tido a preocupação de inserir os resultados obtidos nas reuniões que temos com idosos, o que lhes permite ter uma ideia acerca da sua saúde e discutir medidas de prevenção.
Há que ressaltar as atividades práticas das associações de alunos da faculdade junto da população idosa da região e que frequentemente dizem respeito à prevenção daquelas patologias.
Finalmente, várias ações surgem através de colegas de Medicina Geral e Familiar docentes da FCS, que também estão envolvidos em projetos de investigação e intervenção comunitária, o que permite uma ação muito mais concreta sobre a população mais idosa e uma melhoria marcada nos cuidados a oferecer.

Os vossos projetos têm mostrado resultados que podem ter aplicações diretas no âmbito clínico. De que benefícios concretos estamos a falar para os doentes inseridos nesta faixa etária?
A melhoria na qualidade de cuidados de saúde geriátricos, na aplicação da terapêutica, nomeadamente novas abordagens, e no acesso a cuidados preventivos. Também o acesso a diagnósticos e tratamentos mais diferenciados e que, pela presença da FCS, se tornaram muito mais acessíveis. Por exemplo, no próprio Laboratório de Neurofisiologia Clínica ou no recentemente inaugurado Centro Clínico e Experimental em Ciências da Visão, da FCS, ou mesmo através da UBIMedical.

A abrangência das áreas de investigação do Laboratório de Neurofisiologia Clínica permite uma colaboração estreita entre profissionais, nacionais e internacionais, ligados a diferentes áreas que não apenas a medicina. Esta partilha de conhecimentos tem sido importante para o progresso das vossas investigações?
A colaboração multidisciplinar e multiprofissional é fundamental e desenvolvemo-la através de interações com médicos, outros profissionais de saúde, engenheiros e professores de educação física, entre outros. Atualmente, temos connosco uma nutricionista doutorada brasileira, estudante de pós-doutoramento e temos sido visitados por alunos de várias universidades (México, Holanda, Venezuela), através de convénios. Assim, os projetos que estamos a desenvolver baseiam-se em equipas multidisciplinares e internacionais, cujas experiências diferentes contribuem para enriquecer as nossas abordagens.

O envelhecimento continuará a ser parte dos desafios sociais do futuro? Qual será o papel da FCS-UBI neste âmbito?
A seguir as linhas demográficas recentes, vai chegar uma altura em que vamos estudar o “caso raro do adulto jovem”, já que a maioria de nós será idoso! As mudanças sociais e políticas que este envelhecimento gradual da população vai trazer são enormes. Assim, o papel das instituições de ensino superior como a FCS, interessadas em estudar e avaliar os vários aspetos ligados ao envelhecimento, é muito importante. A FCS quer continuar a aprofundar a sua intervenção e inovação na investigação, formação, monitorização, prevenção e outros aspetos do envelhecimento, nomeadamente através do aumento das suas colaborações nacionais e internacionais. Em termos de envelhecimento, o futuro vai ser seguramente interessante.