Pela saúde dos nossos ouvidos

“A APtA (Associação Portuguesa de Audiologistas) tem um grande objetivo que é garantir a qualidade dos cuidados de saúde audiológica”. Para tal, nesta missão de honrar a audiologia portuguesa, a associação tem desenvolvido todos os esforços ao seu alcance para uma maior divulgação e esclarecimento junto dos cidadãos, “promovendo formação, ciência e luta contra o trabalho inqualificado”. Quem o garante é Jorge Humberto Martins, Presidente da Direção da APtA.

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Quando em 2014 assumiu estas funções, identificou como prioridade para os três anos seguintes promover a expansão profissional e científica da profissão em Portugal. O que tem sido feito neste sentido?
Profissionalmente continuamos a desenvolver esforços para um maior acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde auditiva com qualidade. No âmbito mais científico, realizámos o I Congresso Internacional de Audiologia em outubro e que contou com palestrantes nacionais e internacionais. Conseguimos ainda garantir a realização do 14º Congresso da European Federation of Audiology Societies a decorrer em 2019.

Qual tem sido o impacto da atual conjuntura económica no quotidiano da população no que respeita à prevenção de doenças auditivas? Neste campo, que papel a APtA tem procurado desempenhar?
A atual conjuntura impede a implementação de serviços de cuidado audiológico designadamente na saúde preventiva bem como a aquisição por parte dos hospitais dos novos desenvolvimentos tecnológicos e técnicas. Por outro lado, a prevenção do impacto da privação auditiva é menor pois os indivíduos adiam cada vez mais a procura de ajuda de reabilitação auditiva ou optam pela aquisição de aparelhos auditivos a menor preço e muitas vezes com menor potencialidade de ajuda.

Apesar de ser um problema que surge com o avançar da idade, em Portugal temos assistido a um crescimento do número de crianças com perda auditiva, sendo que três em cada mil crianças já nascem com esse problema. Apostar no rastreio geral à nascença seria suficiente? Como é que devemos agir?
Sempre existiram crianças que nascem com perda auditiva porém, atualmente é um tema debatido mais abertamente e, claro, o impacto do Rastreio Auditivo Neonatal tem sido enorme para o diagnóstico e re(h)abilitação precoce. Um programa de rastreio bem organizado para todos os bebés e com atenção diferenciada para bebés de alto risco seria suficiente mas é necessária a criação de serviços de referenciação com audiologia pediátrica para que todos os bebés referenciados no rastreio possam ser corretamente avaliados, diagnosticados e re(h)abilitados. Não obstante, o rastreio à nascença não deve ser único e a implementação do rastreio audiológico nos programas de saúde infanto-juvenil acompanhado de ações para promover a literacia em relação aos cuidados audiológicos em toda a população escolar é uma necessidade premente. Hoje vemos um número crescente de jovens com perda de audição por exposição a ruído que terá grave impacto na sua qualidade de vida.

É necessário inovar para um futuro com mais saúde. Na área da audiologia, o que tem sido feito em Portugal tem sido suficiente? Com o aparecimento de novas doenças, a complexidade das tecnologias ou o aumento da esperança de vida, importa estar sistematicamente na linha da frente da inovação?
Em audiologia os maiores avanços têm sido ao nível da reabilitação auditiva em particular em tecnologias como aparelhos auditivos e implantes cocleares. Esta tecnologia está disponível em Portugal e há já uma vasta experiência nesta área com produção científica. Poderemos dizer que em Portugal falta haver um maior e mais rápido acesso a esta tecnologia em qualquer idade.

Na sociedade atual, apesar do rápido desenvolvimento dos instrumentos utilizados pelos especialistas, ainda existe medo de ir ao audiologista? Quais são os principais receios? Está presente a ideia de que um problema auditivo é de imediato um sintoma de surdez?
Infelizmente, a perda de audição é ainda um assunto tabu, é algo que não se vê e numa sociedade que se crê visual, os assuntos da audição são negados. A aceitação do uso de aparelhos auditivos ainda é diminuta no nosso país. Todos aceitamos usar a ajuda dos óculos mas muitos negam a ajuda de um aparelho auditivo e daí que possa existir algum receio em ir ao audiologista e que ele recomende a sua utilização. Na realidade deve ser encarada de forma natural pois têm como objetivo melhorar a qualidade de vida da pessoa e permitir que participe em reuniões de família, no trabalho, no seu dia-a-dia.

Até 2017 o que podemos esperar da APtA e da sua atuação? Qual será a estratégia da associação para construir um futuro com mais saúde?
A APtA tem um grande objetivo que é garantir a qualidade dos cuidados de saúde audiológica. A divulgação e esclarecimento junto dos cidadãos, promovendo formação, ciência e luta contra o trabalho inqualificado será o modo de atingir esse objetivo.

Dentro do segmento da saúde dos nossos ouvidos quais serão os grandes desafios para o futuro? A APtA está claramente apta para os enfrentar?
O principal desafio é a luta contra o trabalho inqualificado que continua a ser elevado nesta área da saúde. A APtA está perfeitamente preparada para enfrentar este problema pois conhece-o e os seus órgãos sociais são compostos por audiologistas que intervêm em todas as valências da audiologia enquanto profissão e ciência, desde o cidadão até à formação de novos audiologistas.