Marcelo prepara entrada em Belém e já afina regras com Costa

Marcelo tinha prometido um novo estilo e demonstrou-o: não esperou ser Presidente para começar a ter audições formais. O primeiro-ministro aproveitou. António Costa vai continuar a ir às reuniões de quinta-feira com Cavaco Silva, mas vai deixando claro que o que importa são as conversas com o futuro de Presidente. Ou, nas palavras de Costa, "reuniões de trabalho".

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Marcelo Rebelo de Sousa

Após receber três ministros (Defesa, Finanças e Negócios Estrangeiros), Marcelo Rebelo de Sousa recebeu ontem o primeiro-ministro no seu gabinete de Presidente eleito (no palácio de Queluz), num encontro que durou duas horas e meia. António Costa admitiu à saída que tinha acabado de ter uma “excelente reunião de trabalho”, considerando “natural” que – neste momento de “transição de poderes” – o Governo mantenha o Presidente eleito “ao corrente dos assuntos do Estado” .

Costa disse ainda que estão a ser definidas “regras de trabalho em comum” e até referiu que estão a ser feitos “com o consentimento” e “sem desconsideração” pelo atual Presidente da República, Cavaco Silva, “que está no pleno exercício das suas funções”. Porém, poderá haver aqui uma tentativa de encostar Cavaco, como adverte ao DN o antigo assessor político de Soares e Eanes, Joaquim Aguiar (ver entrevista ao lado). Também o ex-membro da casa civil de Soares e Sampaio, Pedro Reis, diz ser já claro que “o que importa é o pós 9 de março”.

Presidente a 100%

Fonte próxima de Marcelo explicou ao DN que “todos estes contactos estão a ser feitos como um trabalho de casa do presidente eleito como trabalho de casa para quando chegar o dia 9 de março entrar a 100% no cargo”.

Sobre o facto de receber o ministro das Finanças, Mário Centeno, a mesma fonte justifica que está relacionado com o facto de “um dos dossiers que o Presidente terá como prioridade ser o Orçamento do Estado para 2016”. Nesse mesmo sentido já ouviu os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa, pois são pastas sob as quais incidem os poderes presidenciais.

Um estilo inédito

As audições (ontem recebeu também o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa) que Marcelo está neste momento a fazer, com tanto formalismo, acabam por ser inéditas. Pedro Reis – que esteve na casa civil de Mário Soares e de Jorge Sampaio e foi um dos organizadores das “presidências abertas” – recorda que no tempo de Soares “foram feitos contactos, mas mais informais e de forma muito diferente. Ele, aliás, esteve muito tempo fora e era o indigitado chefe da casa civil, Alfredo Barroso que fazia alguns contactos”.

Ao DN, Alfredo Barroso recorda-se que, antes de ser eleito, Soares fez apenas “audiências informais e pontuais”, até porque “aproveitou para estar muito tempo a descansar na Serra da Estrela”. O antigo chefe da casa civil recorda-se até que Soares estava na serra quando teve de lhe ligar a “informar do assassinato do Olor Palme [o carismático social-democrata sueco]”.

Daí que Soares só tenha reunido, e de forma informal, com “os candidatos vencidos antes das eleições. Chamou o Freitas do Amaral, Salgado Zenha e Maria de Lurdes Pintassilgo para mostrar que era o presidente de todos os portugueses”. Isto porque, “ganhou por pouco e a direita até tinha autocolantes a dizer: “Este não é o nosso Presidente””.

Já no caso de Sampaio, Pedro Reis conta que foi “tudo mais informal”, até porque “havia pessoas que transitavam de uma casa civil para outra”, caso de Carlos Gaspar, de José Manuel dos Santos e do próprio Pedro Reis. Quanto à relação com o primeiro-ministro, Sampaio e Guterres dispensavam apresentações e encontros formais. Conheciam-se há anos e eram do mesmo partido.

Pedro Reis, que apoiou Sampaio da Nóvoa, destaca que Marcelo “está a ser muito mais acelerado, por exemplo, na escolha dos nomes do Conselho de Estado”, num estilo que “faz parte das características pessoais do próprio”. Pedro Reis acredita que foi eleito um “heterónimo de Marcelo, o Marcelo Presidente”, que parece estar a querer “ir buscar o que de melhor houve nas outras presidências”.

Alfredo Barroso também considera “legítimo” que Marcelo esteja a querer ser o Presidente de todos os portugueses e elogia o facto de querer copiar o “bom exemplo” das presidências abertas de Soares. Os três antigos membros das casas civis (que incluem as de Eanes, Soares e Sampaio) concordam que “Marcelo tem perfil” para pôr em prática um modelo de presidências abertas.