Testosterona melhora função sexual nos homens com mais de 65 anos

Uma linha de investigação médica tem tentado compreender se a administração de testosterona pode combater sintomas associados à andropausa, que surgem com a idade devido à diminuição da concentração daquela hormona.

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Mas, até agora, os resultados só tinham confirmado que a terapia hormonal fazia aumentar os músculos e diminuir a gordura. Para a função sexual, a capacidade física e a vitalidade, não havia conclusões consistentes.

Por isso, em 2014 iniciou-se um estudo norte-americano alargado para testar se a terapia hormonal melhora aqueles e outros aspetos da saúde em homens com mais de 65 anos e com uma concentração baixa de testosterona. Os primeiros resultados mostram que a hormona melhora a função sexual, segundo um artigo publicado nesta quarta-feira na revista “The New England Journal of Medicine”.

“Os benefícios foram bastante convincentes para a função sexual”, diz Thomas Gill, um dos responsáveis pelo estudo e médico especialista em geriatria da Universidade de Yale, citado num comunicado desta instituição, uma das 12 que fizeram parte dos Testosterone Trials (Ensaios de Testosterona). Algo que nunca tinha sido concluído até agora.

O estudo divide-se em sete ensaios, que além de terem testado a função sexual, a capacidade física e a vitalidade, também tentaram perceber se a administração de testosterona teria um efeito positivo nas capacidades cognitivas, na anemia, na densidade óssea e na acumulação de placas nas artérias coronárias. Os resultados dos últimos quatro ensaios só vão ser publicados lá para 2017 ou depois, segundo a informação que Thomas Gill deu ao PÚBLICO.

Um ano de terapia

A testosterona é a hormona masculina por excelência. É produzida em células dos testículos e durante a puberdade é responsável pelo desenvolvimento sexual. Nos homens adultos, é necessária para a produção de espermatozoides, além de estar associada ao desejo sexual. Mas com o envelhecimento, a quantidade de testosterona vai diminuindo, o que leva à andropausa e pode diminuir a mobilidade dos homens, a função sexual e a vitalidade.

O estudo decorreu ao longo de um ano. Dos 51.085 homens com mais de 65 anos recrutados, apenas 790 (1,5%) puderam integrar o estudo. A principal limitação era o nível de concentração de testosterona no sangue. Um homem na casa dos 30 ou dos 40 anos poderá ter cerca de 500 ou 600 nanogramas por decilitro (um nanograma é um milésimo de milionésimo do grama) de testosterona. Esta concentração pode variar naquela idade, mas vai descendo à medida que as décadas passam.

O estudo exigia que só participassem homens que tivessem menos de 275 nanogramas de testosterona por decilitro de sangue. Os participantes escolhidos tinham de ter “uma concentração baixa de testosterona por nenhuma outra razão além da idade e tinham de ter problemas clínicos para os quais essa concentração baixa pudesse estar a contribuir”, explica-se no estudo, que integrou dezenas de investigadores.

Nem todos os homens que participaram puderam fazer parte de cada um dos sete ensaios. No caso da condição física, era preciso que os participantes tivessem dificuldade em andar e subir escadas. Os participantes que não sentiam especial dificuldade fizeram os testes físicos à mesma, mas não pertenciam ao núcleo duro deste ensaio. Esta subtileza teve importância nos resultados, mas já lá vamos.

Parte dos participantes recebeu um gel com testosterona para aplicar na pele, outra parte recebeu um gel que era um placebo. Ao fim de três, seis, nove e 12 meses, fizeram os testes para cada um dos sete ensaios. Pelo meio, também foi medida a concentração de testosterona. No caso dos homens que receberam a hormona, as doses foram ajustadas para “manter a concentração dentro da variação dos homens jovens”, explica o artigo.

O único resultado claramente positivo foi na função sexual: os homens tratados com testosterona tiveram em média mais atividade sexual, mais libido e a função eréctil melhorada.

No caso da condição física, não houve melhorias no núcleo duro do ensaio – os homens que tinham dificuldades de locomoção e que tomaram testosterona (191 dos 392 que receberam a hormona). Estes não passaram a andar de forma mais rápida do que os homens também com dificuldades de locomoção do grupo que tinha aplicado o placebo. Mas quando a equipa incluiu os homens que não tinham problemas de locomoção, então a aplicação de testosterona proporcionou uma pequena melhoria na condição física.

“É possível que aqueles que tenham sido incluídos no núcleo duro tenham dificuldade em andar por causa de outras razões que não a da concentração baixa de testosterona”, diz Thomas Gill ao PÚBLICO, tentando explicar aquele resultado, que o surpreendeu. “Além disso, a testosterona atua em primeiro lugar nos músculos, e caminhar depende de outras coisas como o equilíbrio, a coordenação e as dores.”

Em relação à vitalidade, a testosterona não diminuiu o nível de fadiga nos participantes. Mas os homens que foram tratados com testosterona sentiram “um pequeno mas significativo benefício em relação ao estado de espírito e aos sintomas depressivos”, lê-se no artigo, o que pode ser importante a nível clínico.

Mas para se saber se a terapia hormonal pode vir a ser prescrita, será preciso fazer ensaios clínicos com mais pessoas e mais prolongados. Embora não tenha havido efeitos adversos associados ao uso de testosterona, um ano ainda não é suficiente para analisar os possíveis efeitos do uso prolongado desta hormona importante.