PSD abriu o coração a Guterres. Mas na razão não dá a mão ao PS

Afinal há um ponto em que o PS e o PSD se entendem: a candidatura de António Guterres. Ainda antes de receber, mais uma vez, o "apoio entusiástico" de Passos Coelho, o antigo governante foi aplaudido pelos deputados do PSD à chegada às jornadas parlamentares do PSD, em Santarém. Mas se os sociais-democratas admiram o antigo primeiro-ministro socialista, com o PS não querem qualquer entendimento. Muito menos sobre o Orçamento do Estado (OE).

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António Guterres

Começando pelo fim, pela intervenção de Guterres, o antigo governante confessou a forma como o apoio do PSD falou “tão fundo” no seu “coração”. Antes disso, mesmo não estando previsto, Passos Coelho pediu o microfone para “reafirmar publicamente que o engenheiro Guterres contará com o entusiástico apoio do PSD e, creio, de todas as forças políticas nacionais na sua candidatura a secretário-geral da ONU que o governo português está a preparar.”

Passos Coelho acredita que esta “será uma candidatura bem-sucedida” e que, uma vez no cargo, conseguirá “dar bem conta do recado”.

António Guterres falou, mais uma vez, na problemática das migração, dizendo que neste momento a “entidade reguladora dos movimentos migratórios são os traficantes”. Para o ex-alto-comissário para os Refugiados da ONU, “vale a pena investir na regulação dos movimentos migratórios”, pois “sem migrações regulares” a tendência é que aumentem as “irregulares”.

Em altura de Orçamento do Estado, Guterres – que no fecho desta edição ainda respondia a perguntas e ouvia elogios de deputados – não falou mais de política nacional, dizendo apenas que se sentia “reconfortado” por ser português e por no país “os partidos políticos relevantes não cederem ao populismo nem à xenofobia”.

Mas, para lembrar um antigo slogan do próprio António Guterres, uma coisa é o coração, outra é a razão (do PSD). E aí o dia (político) de jornadas parlamentares foi mesmo dominado pelo OE para 2016. Passos Coelho deve hoje sugerir o sentido de voto no encerramento das jornadas e ontem disse – à entrada para a cimeira do Partido Popular Europeu, em Bruxelas – que quem tinha de responder perante a preocupação “genuína” relativamente ao OE é o executivo de António Costa. “Aquilo que julgo que é mais importante é obter do governo português as respostas tranquilizadoras que são necessárias”, disse o líder do PSD.

Voltando às jornadas, que terminam hoje em Santarém, logo ao início da tarde de ontem o líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, voltou a deixar pistas de que o PSD votará contra o documento, pois o PS demonstra que “logo no seu primeiro orçamento o governo entrou em campanha eleitoral”, estando já “a preparar-se para o combate eleitoral subsequente”. E acrescentou: “Quem fez este Orçamento não espera fazer um segundo”, daí a “marca eleitoralista”.

Embora o anúncio final não tenha sido feito, tal como o DN adiantou hoje, o PSD vai mesmo votar contra o Orçamento. E esse sentido de voto vai sendo sugerido por vários membros da direção da bancada laranja e por destacados militantes. A ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque disse que o Orçamento socialista não tem estratégia económica. Numa pergunta dirigida aos convidados, mandou uma farpa ao documento de Centeno, provocando sorrisos na sala: “Um orçamento é ou deve ser um elemento fundamental de estratégia política e económica. No atual consegue descortinar alguma? “Ao DN, dois vice-presidentes do PSD deram indicações nesse sentido. Matos Correia lembrou que “a direção política do partido ainda não tem uma decisão final”, mas diz ser “pública e notória” a avaliação negativa que o PSD faz deste Orçamento, adiantando ainda que “o que está estruturalmente mal não é corrigível”. Também o vice-presidente Pedro Pinto considera que o Orçamento está “muito perto do desastre” e adianta que “quanto mais recebemos erratas, mais se percebe que este Orçamento não é consistente”, anunciando mesmo o sentido do seu voto na comissão política nacional: “Quando tiver de me pronunciar naturalmente que direi que o PSD deve ser contra.”

Também o vice-presidente da bancada Nuno Serra (que falou na abertura por ser o presidente da distrital anfitriã) disse que o Orçamento do governo PS não tem um “rumo coerente” e irá de “errata em errata até ao erro final”. Nuno Serra afirmou que “este Orçamento não traz nada de bom nem de melhor para Portugal”.

Na mesma linha, o vice-presidente da bancada do PSD, António Leitão Amaro, atacou a “credibilidade de um governo que num mês troca três ou quatro vezes de orçamento” e garantiu que no Orçamento para 2016 “a austeridade líquida aumenta 600 milhões de euros, e não são contas nossas, são da UTAO”.

Um outro vice da bancada, Amadeu Albergaria, disse não conseguir “perceber onde estão as promessas eleitorais de PS, PCP e Bloco de Esquerda. Até os convidados mandaram farpas ao Orçamento, com o presidente do Conselho Nacional de Educação, David Justino, a falar num “efeito Harry Potter” na parte do Orçamento destinada à Educação: “Talvez por ser um jovem ministro há um efeito Harry Potter, é que não sei como consegue a magia de repor salários e mesmo assim baixar o orçamento da educação em vários milhões. Deve haver uns pozinhos que não consigo detetar.”