Num evento que também contou com a presença do autor do prefácio da obra, Rui Pereira, Ministro da Administração Interna nos XVII e XVIII Governos Constitucionais, foi a João de Almeida Santos, Diretor do Departamento de Ciência Política, Segurança e Relações Internacionais da Universidade Lusófona, que coube a responsabilidade de dar início ao lançamento do livro “A Globalização e a Geopolítica Internacional”, no passado dia 24 de fevereiro, nas instalações da Universidade Lusófona. Desenvolvida no âmbito de uma parceria com o Departamento de Ciência Política, Segurança e Relações Internacionais, “a dimensão da obra é tão extensa que, mais do que apresenta-la, pretendo propor algumas reflexões em torno do fascinante tema da globalização”. Para João de Almeida Santos, é sempre gratificante verificar que os professores daquela instituição investigam matérias que facilitam a compreensão do mundo atual, sob a moldura de um assunto tão pertinente como é a globalização. “Logo no início desta obra os autores referem-se à globalização como algo que não é pacífico e que está envolvido por um manto de dificuldades”, explicou, acrescentando ainda que o facto de os autores defenderem que este conceito está a “cair em desuso” poderá significar que o mesmo está a “perder clareza concetual em parte por ter caído na esfera da banalidade linguística mas também por existir um afunilamento ao deslizar para a esfera da economia”.

João de Almeida Santos
João de Almeida Santos

Contudo, para Almeida Santos, esta obra ultrapassa esse denominado “afunilamento económico-financeiro”, ao propor uma panóplia de temas que integram este mundo global, desde a “política externa e segurança comum da União Europeia, à necessidade da sua reinvenção institucional e política com propostas concretas e bem estimulantes como é o caso da criação de um Senado que substitui o Conselho de Ministros até à complexa questão da guerra global da informação”, enumerou o responsável que, por inúmeras ocasiões, descreveu o livro como sendo “uma obra muito vasta” que percorre inúmeros temas que são objeto de uma análise bastante minuciosa por parte dos autores. O emprego numa ótica global, o direito ao trabalho e à subsistência para aqueles que não podem trabalhar ou a liderança no contexto internacional são outros assuntos propostos, sob a bandeira da globalização, um conceito que, para João de Almeida Santos, está “banalizado e pouco claro do ponto de vista concetual”, confundindo-se frequentemente “o processo com o conceito”. Assim sendo, com este livro de António Gameiro, Doutorado pela Universidade Complutense de Madrid, e Rui Januário, Mestre em Relações Internacionais, Almeida Santos acredita que estão lançadas “boas alavancas para entrarmos em força nos grandes temas da globalização”.

Rui Pereira
Rui Pereira

Se para os autores o facto de Rui Pereira ter aceite escrever o prefácio desta obra é de uma simbologia inestimável, para o antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros é de louvar o facto de alguém “ousar pensar e escrever sobre um conjunto vasto e atrevido de temas que estão na ordem do dia”. Globalização e Geopolítica Internacional são grandes temas do momento sobre os quais tem uma visão bastante otimista. Recuando no tempo e fazendo uma certa e curiosa analogia com o setor da saúde, Rui Pereira acredita que a “globalização está hoje para o discurso político como a virose estava para o discurso médico há uns anos”. Por outras palavras, se, no passado, perante um problema de saúde com causas desconhecidas os médicos tinham o hábito de associa-lo a uma virose, hoje o mesmo acontece com a globalização. Terrorismo, criminalidade internacional organizada, autoestradas da informação, entre muitos outros fenómenos atuais são frequentemente vistos como consequências do mundo global e, para Rui Pereira, dentro deste cenário, há uma certeza inabalável: “sabemos o que é a globalização mas não sabemos para onde nos vai conduzir”.
Com esta obra, os autores conseguiram tratar algumas temáticas relativas à globalização, enfrentando este fenómeno através de algumas das suas manifestações.  Para tal, abordaram temas com uma pertinência ímpar, como “a emergência do mundo unipolar, o fim da guerra fria, a era da mediatização global e da internet, a ameaça de colapso ecológico, a crise do estado social, as migrações e a insegurança no Mediterrâneo, a criminalidade organizada e o terrorismo”. São temas que se relacionam com a globalização que, para Rui Pereira, tem causado mais vantagens do que inconvenientes porque “no essencial, traz mais democracia, mais informação, mais liberdade e mais cultura às pessoas”, defendeu, reconhecendo, contudo, que um dos domínios onde tem efeitos mais perversos é o da segurança. “A globalização aumenta a liberdade e diminui a segurança”, afirmou Rui Pereira, lançando de imediato a questão: “nos tempos atuais, como conciliar liberdade com segurança?” Este é um problema a resolver. “Entre segurança e liberdade há uma relação de interdependência mas também existe uma relação de antinomia que tem sido agudizada pela globalização”, defendeu Rui Pereira que termina a sua intervenção com um apelo aos autores. “Perante esta avalanche da globalização, como é que podemos preservar o Estado Social? Numa futura obra espero que os autores respondam a esta questão de uma forma mais desenvolvida”, concluiu.

António Gameiro
António Gameiro

A visão dos autores
Considerando a globalização e a geopolítica internacional o denominador comum que melhor assentava, esta obra, acima de tudo, procura ser abrangente e abarcar um conjunto de temáticas sobre um assunto que, para António Gameiro, “nos interpela a todos, sobretudo aqueles que estão mais atentos ao fenómeno político e social”. Hoje não há nada que não seja acompanhado no momento e, como prova disso, o autor partilhou com o público o facto de, minutos depois do início do evento, já existirem fotografias nas redes sociais sobre o mesmo. “Estamos nesta era da globalização onde a informação nos interpela a cada momento. O livro, tendo como base um conjunto diversificado de temas, reúne o nosso esforço no sentido de narrar alguns fenómenos da globalização e da geopolítica internacional mas fomos ainda mais além, dando a nossa opinião”, salientou António Gameiro que acredita ainda que o Estado Social é cada mais digno de proteção uma vez que “o Estado Social na União Europeia é o arquétipo de Estado no Mundo. É um Estado igualitário, livre e justo que tende a fomentar políticas públicas para que as pessoas tenham mais qualidade de vida, e sejam felizes, o que traz harmonia e paz ao Mundo”. Mas, perante os desafios atuais e a falta de resolução de alguns problemas prementes, importa repensar e lançar o debate. Este é o objetivo da obra. “Espero que tenham boas reflexões porque a inquietação dos autores é imensa”, concluiu António Gameiro.

Rui Januário
Rui Januário

Por fim, depois de todas as apresentações, Rui Januário dedicou a sua intervenção à desconstrução de algumas ideias apresentadas no livro, defendendo, desde logo, que a globalização evoluiu para uma vertente social e política com referência à chamada “sociedade dos dois décimos”, uma ideia preconizada por Werner Schwab. O que significa?  “Significa que dois décimos das pessoas fazem falta e terão emprego no futuro, ao passo que 80% da população não vai ter uma atividade funcional”, explicou o autor. Se não houver uma rápida atenção relativamente ao Estado Social e aos ditames da relação entre política e economia, esta teoria tende a reforçar-se. Neste sentido, partindo do facto de no mundo ocidental 64% das receitas do Estado provir do rendimento do trabalho, Rui Januário avançou com alguns números que causam alguma preocupação e que geram aquilo a que chamou de “anemia no mercado e na democracia ocidental”. “Segundo alguns autores, para sustentarmos o Estado Social na forma e no modelo existentes, teremos de diminuir os salários em 20%. Ora, 40% do PIB da Europa Ocidental é gasto em prestações sociais, financiadas fundamentalmente pelas contribuições do fator trabalho”, explicou. Perante estas constatações, os autores lançam algumas questões na obra: “Que dose de mercado poderá a democracia suportar? O que é que o mercado pode evoluir de forma a continuarmos no modelo de Estado Social e no modelo democrático?” Posto isto, os autores não defendem uma “cura de emagrecimento dos Estados por via de uma cisão social. Mas, correndo mais uma vez o risco de serem considerados “reacionários”, António Gameiro e Rui Januário expuseram algumas medidas que poderão combater o paradigma da designada “sociedade dos dois décimos”, nomeadamente: limitar o poder político de que dispõe os mercados; criação de um imposto sobre o volume financeiro; em vez de combater a inflação, encorajar a liberdade empresarial (regulada e tutelada); criação de um imposto sobre a circulação internacional de capitais; proibição das transferências de capitais para paraísos fiscais (já não de um ponto de vista criminal mas orçamental); incremento do sistema educacional para fornecer toda a informação aos cidadãos para que se consigam aperceber das realidades; novas formas de financiamento dos orçamentos públicos; entre outras.
Se para Rui Pereira, os leitores poderão encontrar nestas páginas “um estímulo para (re)pensar o futuro de Portugal no quadro dos seus compromissos e alianças”, Rui Januário aceita que o vejam como um reacionário. “Se ser reacionário é defender o bem comum e o bem da sociedade, eu serei orgulhosamente um reacionário”, concluiu.

O conceito de globalização deverá ser devidamente clarificado para que a discussão não conheça deslizes concetuais e, portanto, para que possamos abordar esta temática de forma correta”. (João de Almeida Santos)

Tenho uma visão muito otimista porque a globalização terá mais vantagens do que inconvenientes. No essencial, a globalização traz mais democracia, mais informação, mais liberdade e mais cultura às pessoas”. (Rui Pereira)

Estamos na era da globalização onde a informação nos interpela a cada momento. O livro, tendo como base um conjunto diversificado de temas, reúne o nosso esforço no sentido de narrar alguns fenómenos da globalização e da geopolítica internacional mas fomos ainda mais além, dando a nossa opinião”. (António Gameiro)

Há quem defenda que o livro é um pouco reacionário. Pois bem, se ser reacionário é defender o bem comum e o bem da sociedade, eu serei orgulhosamente um reacionário”. (Rui Januário)