É uma casa portuguesa, com certeza. Mas erguida para piscar o olho aos turistas estrangeiros que visitam Lisboa e, a partir de agora, também o Porto. No dia 2 de abril, a Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhauabriu as portas junto à Torre dos Clérigos, num edifício com três andares e muitos lugares sentados. Todos prontos a receber pratos com pastéis de bacalhau, com ou sem queijo da Serra da Estrela DOP (Denominação de Origem Protegida).dscf6173_

No interior, ouve-se fado enquanto se faz o pré-pagamento, para depois se pedir o pastel. O fado também se ouve nos dois andares superiores, com Fernando Pessoa a dar as boas-vindas no primeiro andar, assim como uma miniatura da Ponte D. Luís e uma parede em azulejo. Tudovery typical. O segundo andar é uma biblioteca e os clientes podem ler um livro enquanto provam o pastel feito de bacalhau, batata e queijo da Serra da Estrela ou um copo de vinho do Porto Taylor’s dry white.

Os portuenses que entrarem no novo espaço dificilmente vão pedir a especialidade da casa pelo nome. É que, no Porto, o pastel chama-se bolinho de bacalhau. O preço também pode afugentar. Um bolinho — perdão, pastel — com queijo da serra custa 3,50 euros, sendo que o tamanho é superior aos dos que se vendem nas redondezas.

Tal como em Lisboa, os clientes podem, logo à entrada do espaço, ver os pastéis de bacalhau a serem confecionados ao vivo, “contactando assim diretamente com uma receita secular”, explicam os proprietários em comunicado. Foi precisamente a questão da “receita secular” que causou polémica aquando da abertura da primeira Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau, na Rua Augusta, na Baixa lisboeta.

O salgado começou a ser vendido pela primeira vez no Museu da Cerveja, no Terreiro do Paço. Em maio de 2015, a Patrimus Indústria abriu casa própria, com o fado a tocar bem alto na Rua Augusta durante todo o dia, decoração a fazer lembrar uma loja antiga, brasões com as iniciais P e B espalhados no interior e no exterior da loja, em material de imitação a bronze antigo, e, para completar, placas também forjadas a antigo com uma data em destaque: “1904”.

Tudo parece feito para levar quem não é da zona a pensar que está ali uma casa centenária, na qual é preciso entrar para provar um pedaço da história gastronómica portuguesa. No Porto, a fachada, bonita e cuidada, é mais discreta. A data 1904 não aparece sozinha em grande destaque, mas sim associada em todas as comunicações promocionais onde surgem as iniciais P e B, adotadas para imagem da casa.

“O 1904 não tem a ver com a data em que iniciou o projeto, mas sim com a primeira receita em que nos baseamos para fazer o pastel de bacalhau”, explica ao Observador Eva Fialho, responsável pela loja do Porto. Recusa que o objetivo seja induzir as pessoas em erro. “Esse assunto já está mais que ultrapassado, todas as pessoas já sabem a razão por que existe essa data, nunca foi com o objetivo de enganar ninguém.”

dscf6162_A chegada ao Porto serve para aproveitar o boom turístico, mas não só. “Pensámos que é uma cidade adequada ao conceito, que é a tradição”, explica a responsável, apesar de se tratar de uma receita nova, criada pela empresa. Quando, no ano passado, tomou conhecimento da receita, a gastrónoma portuguesa Maria de Lurdes Modesto não esteve com meias palavras e considerou que o pastel de bacalhau com queijo da Serra da Estrela era uma “verdadeira obscenidade”. Num texto enviado ao Observador, Maria de Lurdes Modesto apelava à defesa, tanto do pastel de bacalhau, como do queijo da Serra da Estrela.

Levantei os olhos, e deparo com uma verdadeira obscenidade no ecrã do meu televisor: um pastel de bacalhau a esvair-se em queijo Serra da Estrela. Não pode vir mais a propósito a expressão: “com uma cajadada matar dois coelhos”. Duas das mais queridas e conseguidas especificidades da nossa gastronomia, numa pornográfica e ridícula figura! (…) não há ninguém com papilas saudáveis, bom gosto e que saiba que o pastel de bacalhau é uma das jóias mais perfeitas e mais queridas da nossa gastronomia popular? Não foi a nossa gastronomia elevada a Património Cultural? Ninguém com poder toma conta ‘disto’?”
Ainda não é hora de adiantar se a Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau vai continuar a expandir-se. A Patrimus Indústria tem outros negócios em mãos, entre eles a histórica (e, essa sim, centenária) Casa Oriental do Porto, mesmo ao lado dos pastéis de bacalhau. A empresa comprou a mercearia portuense criada em 1910, fez-lhe obras de remodelação e reabriu-a a 19 de março.

Lá dentro já não há frutas e legumes. Em redor da data 1910, colocada em destaque, vendem-se agora produtos que apelam à memória das gerações mais antigas, como a pasta medicinal Couto ou os desodorizantes stick de lavanda, assim como licores, vinho do Porto Taylor’s, compotas, bolachas e muitos mais produtos alimentares, já que o espaço conta agora com um andar superior que antes estava fechado ao público.

À porta e lá dentro está o ‘fiel amigo’, inteiro ou às postas, pelo qual a Casa Oriental já era conhecida. Junte-se uma vitrine dedicada ao queijo da Serra da Estrela DOP e temos a ligação perfeita ao novo negócio que abriu ao lado.

Em Lisboa, a Patrimus Indústria abriu recentemente mais um negócio na Baixa Pombalina, a loja Fábrica das Enguias da Murtosa. E com publicidade nas fachadas que não é permitida naquela zona, facto de que é conhecedora, uma vez que a empresa foi obrigada, recentemente, a retirar o mesmo tipo de publicidade da Casa do Pastel de Bacalhau da Rua Augusta. O Observador questionou um responsável que se encontrava na casa do Porto, que desvalorizou a situação. Nunca quis dizer o seu nome, nem o cargo que ocupa na empresa.