Face a este cenário, a Revista Pontos de Vista quis saber mais sobre o universo da Engenharia em Portugal, que vive por esta altura um momento de «ebulição», não estivéssemos próximos das eleições para Bastonário da Ordem dos Engenheiros, a realizar no dia 21 de Abril. Que mudanças urgem? Que rumos devem ser traçados? Que desafios se colocam? Que diferenças de gestão para o futuro? Que motivações existem? A tudo isto e muito mais, respondeu Paulo Bispo Vargas, candidato a Bastonário da Ordem dos Engenheiros e que nos deu a conhecer um conjunto de medidas propostas por uma lista que se afirma como “uma lista alternativa”, revela o nosso entrevistado, assegurando que essa variação assenta no abolir da crítica fácil. “Isso é o mais simples e por isso decidimos apostar no não apontar de dedo, porque pretendemos fazer algo para mudar o que consideramos que está errado. Queremos participar de uma forma ativa e positiva nesta causa”.

O nosso entrevistado, candidata-se com a ambição de colocar “O engenheiro no centro das profissões” e explica que em Portugal ser engenheiro já foi mais prestigiante e que tal não é aceitável. “Um engenheiro hoje não tem uma participação tão ativa na sociedade como outras profissões e isso retira um pouco a credibilidade à profissão. Pretendemos reforçar a presença da engenharia nas decisões do Estado. Isto não significa que nos queiramos intrometer, simplesmente existem temas como os transportes, a construção das cidades, a energia, o urbanismo, a industrialização e outros que são assuntos que os engenheiros deveriam ter em agenda e onde deveriam ter uma ação mais ativa”.

Crescer com quem sabe

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Paulo Bispo Vargas destaca o combate ao desemprego, a requalificação dos engenheiros e a reconciliação com antigos membros, que, por vários motivos, abandonaram a instituição, como prioridades máximas em caso de vitória. “Há muitos engenheiros desempregados. É necessário criar mecanismos rápidos para ajudar a que se encontrem soluções”. E de que forma? “Com parcerias, quadros comunitários, participação nas decisões nacionais, entre outros. Temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance”. Para isso, o candidato a Bastonário, pretende adaptar a OE às novas realidades da engenharia e
do país. “As organizações precisam de ser renovadas com colegas que já estiveram na área e conhecem a fundo este setor. Temos de os chamar para que contribuam com o seu saber, a sua vontade e experiência”, afirma, lembrando que esta contribuição de todos é vital para a engenharia em Portugal.

Ideias inovadoras

No programa valoriza-se a criação de um observatório, para um acompanhamento permanente dos membros, ou seja, para que possam contar experiências e identificar problemas a partir dos quais se fará o diagnóstico para apresentar soluções. “
Somos construtivos na critica e apontamos soluções” assume Paulo Bispo Vargas.

A par deste objetivo será fundada a primeira Biblioteca Portuguesa do Engenheiro, “para alunos e profissionais, em contexto de investigação ou aperfeiçoamento de competências, que acompanhem os novos paradigmas e as novidades permanentes em que a engenharia é fértil. Por isso é a ciência das ciências.”

A abertura ao mundo é essencial para todos os segmentos e a engenharia não é exceção. Assim, será criada uma plataforma de interesse entre todas as engenharias dos países de língua portuguesa: Brasil, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Timor Leste, Macau e Cabo Verde.

As razões? “Porque pretendemos passar a mensagem do valor da engenharia portuguesa, que merece reconhecimento mundial. Começaremos pela oportunidade que a língua comum nos proporciona e partiremos para geografias mais vastas” esclarece, assegurando que o objetivo é perceber “que necessidades e oportunidades existem para uma bolsa de empregabilidade e trabalho a larga escala.”

“Pensar global é um desígnio da engenharia e a Ordem dos Engenheiros de Portugal tem de se afirmar neste contexto. Esta tem de ser uma instituição aberta para o mundo.”

21 de Abril… dia da mudança

As eleições terão lugar no dia 21 de abril e Paulo Bispo Vargas, deixa uma mensagem de profunda esperança no futuro próximo. “O Engenheiro tem de voltar ao centro do desenvolvimento do país, papel do qual foi relegado com clara responsabilidade do seu setor dirigente. Apelo ao orgulho do engenheiro para o seu papel técnico, social, de competência e de apresentar visões de futuro que coloquem a profissão e o país no seu lugar histórico. Ser engenheiro tem de voltar a representar conhecimento, modernidade e forma de ser e de estar num mundo contemporâneo que precisa de nós mais ativos, mais atentos e mais assertivos.”

“O que nos move é o gosto genuíno do “SER ENGENHEIRO” e de nos reorganizarmos, em torno da Ordem, de forma sustentada, inovadora, criativa e, sobretudo, participada por todos. Propomos MAIS ENGENHARIA como forma e força de alavancar novas vontades e novas soluções. As organizações são dinâmicas e o tempo não perdoa a inatividade e o conformismo. Contam com a nossa paixão e querer, contam com a nossa dinâmica e sobretudo contam com a nossa ousadia de fazer acontecer.”

O momento eleitoral é de trabalho e estímulo á participação, à mudança, a nova visão para a Engenharia Portuguesa. Os 106 elementos da lista B e os milhares de colegas que a apoiam unem-se por uma causa e uma visão.

“A Ordem dos Engenheiros e a Engenharia em Portugal merecem uma lista alternativa com a dinâmica e vontade da Lista B. Cumprimos este ponto, lançamos o debate, impusemos dinâmicas. Se for eleito estarei na organização no máximo dois mandatos, onde tentarei deixar o meu legado porque acredito nas pessoas e na sua capacidade de atingir metas mais ambiciosas”.

As Mulheres e a Engenharia

IMG_7155E porque ninguém alcança nada sozinho, conversamos também com Paula Teles, Candidata a Vice-presidente da Ordem dos Engenheiros, que nos deu o seu parecer sobre este sufrágio e sobre o universo da engenharia em Portugal, mais concretamente sobre o universo feminino.

Na sua opinião, em que patamar está a engenharia portuguesa?

A Engenharia portuguesa vive momentos complicados e o seu raio de intervenção tem vindo a decrescer. Um olhar atento sobre o passado, por exemplo, desde o período dos Descobrimentos, passando pela fundação da engenharia militar, esta profissão sempre representou uma das bases do conhecimento principal para transformar o território e vencer os obstáculos. Facilmente verificamos a importância da engenharia ao longo da história, em particular a portuguesa, por tudo o que desenvolveu e criou por esse mundo fora.

Efetivamente, é com uma enorme tristeza que presenciamos que a sua importância, que se manteve até à contemporaneidade, tem vindo a perder-se de forma muito rápida.

O facto de ser candidata a Vice-presidente da OE tem uma responsabilidade acrescida por ser mulher?

Nunca planeei estar neste desafio. Aceitei-o porque entendi que é tempo de dedicar algum do meu tempo a esta causa. Em mais de duas décadas como profissional deste sector, com trabalho desenvolvido no serviço público autárquico, universitário e no serviço privado, enquanto empresária, esta é, efetivamente, a primeira vez que trilho algo similar, de poder ter um nível superior de intervenção na Engenharia em Portugal, no âmbito do seu coletivo.

Verifiquei que em 23 anos de engenharia nunca tive a ajuda da Ordem na minha carreira profissional.

Julgo ter conseguido reunir um conjunto de conhecimentos e competências suficientemente vastas, através do meu envolvimento em projetos de âmbito público e privado, para dar o passo na candidatura a este importante cargo, em contexto de uma lista de extraordinários profissionais. Tenho tido uma postura na minha vida de realizar projetos curtos mas intensos e sustentáveis numa dinâmica continua e crescente.

Sei que a nossa futura direção irá dar uma atenção especial ao papel das mulheres na engenharia, nomeadamente no conjunto de tarefas que a mulher ainda acumula na vida pessoal e profissional, suscitando apoios e criando parcerias com o universo empresarial para que não sejam desfavorecidas, em particular, nos momentos em que for mãe.

Já passei por esse papel. Já fui funcionária, hoje sou empresária. Entendo que tenho o dever de apoiar todas as mulheres engenheiras a desenvolverem na sua plenitude as suas duplas funções. Porque sei que conseguem e, em muitos casos, superam até as expectativas.

Ao longo do seu percurso profissional houve momentos em que as dificuldades/responsabilidades foram acrescidas por ser mulher?

Como sabem as engenharias são, de forma natural, predominantemente masculinas. Também o foram ao longo das gerações pelos motivos que conhecemos. Mas o mundo mudou. A mulher passou a integrar a vida profissional e a engenharia não pode continuar a ser exceção. Contudo, ainda hoje, na engenharia, raramente se vêm mulheres porque é difícil, para elas, chegar à liderança de projetos e neste contexto penso poder dar um contributo decisivo para alterar esta norma. Quero mudar esta atitude. Quero mostrar a todos os atores que a vantagem está no trabalho de equipa e na integração do género masculino com o feminino.

Na sua opinião as mulheres em Engenharia sofrem ainda algum tipo de discriminação notória num universo que outrora foi exclusivo ao género masculino?

Pela minha observação a discriminação tem vindo, felizmente, a diminuir e isso também é fruto da própria atitude da sociedade. Acredito que um dos principais obstáculos passa pelo próprio empregador que perante determinada situação tende a olhar a mulher em engenharia de uma forma mais cética. Porém e não obstante o que referi, hoje as engenheiras atingiram um patamar elevado na sua competência e profissionalismo.

Atualmente vivemos numa geração em que as famílias se constituem mais tarde e para esse problema tem de haver uma solução. Assim, é necessário apoiar a mulher na vida pessoal para que ela se desenvolva em pleno na profissão. As razões de não ter filhos podem ser múltiplas, tudo o que não seja por vontade própria mas por fatores sociais, económicos e profissionais, tem de ser debatido e encontrar solução. Fica o meu empenho e determinação em encontrar as soluções adequadas. Quero criar processos de diplomacia da engenharia no feminino.

Essa atenção começa por ser dada no sentido de demonstrar que vale a pena o patrono apostar no género feminino que, não obstante poder ter obrigações adicionais, irá verificar que vale a pena pelas suas competências próprias, até ao apoio à formação pessoal e empresarial da mulher em contexto profissional de engenharia.

Ser mulher e engenheira em Portugal é…?

Um desafio. Uma atitude. Uma forma de ser e estar.

É no agir que está o ganho

Joaquim Nogueira de Almeida, menciona o que falta e o que é necessário para que a Engenharia reconquiste o seu lugar na sociedade. Um lugar seu por direito e inerente à profissão. AGIR é a sua palavra de destaque. Descubra o que pensa um dos Vice-presidentes da lista «alternativa».

Nestas eleições para a Direção da Ordem dos Engenheiros (OE) concorre pela Lista B. Quais são asJNA razões para que os seus colegas votem na vossa Lista em vez da lista adversária?

Apesar dos programas das duas listas parecerem semelhantes, a verdade é que a lista adversária esteve na direção da OE durante seis anos e não fizeram o que agora prometem, porquê? Há quatro anos que criticamos a inércia da OE perante os problemas crescentes da profissão e queremos MUDAR. Pretendemos que os engenheiros nos dêem essa oportunidade.

A nossa Lista tem uma idade média de 48 anos a lista adversária de 62 anos, são catorze anos que fazem a diferença de uma visão e atitude mais perto da necessidade atual da profissão.

Um terço da Direção da lista B é Engenharia no Feminino, porque julgamos que o papel crescente das Engenheiras precisa de ser defendido por alguém com experiência real desta situação. A lista adversária não contempla esse facto.

Temos 66% de empresários que vivem das empresas que criaram e conhecem bem o difícil mundo empresarial em que nos encontramos. Na lista adversária 66% são gestores públicos que vivem habitualmente dos favores do estado.

 

Na sua opinião o que falta, em Portugal, para uma evolução da engenharia?

Falta AGIR!

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Temos muito boas intenções mas pouca concretização. É um problema do próprio país e que se reflete também na Engenharia, apesar de se julgar que a formação por si dá ferramentas e visão aos colegas para que sejam menos contaminados pelo “laissez faire”.

A engenharia é o MOTOR de um país, mas esse motor precisa de ser eficiente, consumir e produzir muito, pouca manutenção e se possível ser “user friendly”.A nossa Engenharia tem pouco disso.

Os engenheiros deixaram de ser pragmáticos, passaram a ser mais políticos e movidos de interesses consoante o lobby.

Há alguma área da engenharia portuguesa que careça de meios ou de falta de empregabilidade e que por isso necessite de uma maior intervenção?

TODAS as áreas exceto talvez a da Informática. A intervenção deve ser vista numa política global que me parece não haver. A OE devia ter um plano de ação nesse sentido. No nosso programa apresentamos soluções para questões como: a da requalificação dos engenheiros, a utilização dos nossos engenheiros como “pontas de lança” no estrangeiro, a promoção de criação de start ups com jovens licenciados e apoiados por uma bolsa de engenheiros seniores em regime de voluntariado e enquadrados nos programas de apoio da comunidade europeia e sociedades de capital de risco.

Ser engenheiro em Portugal é uma mais-valia ou acredita que para um futuro mais promissor trabalhar no estrangeiro é a melhor opção?

Sou muito sensível a essa questão uma vez que estou expatriado neste momento. Há mais de doze anos que trabalho na área internacionalmente. Devemos ser engenheiros em empresas portuguesas e exportar para o estrangeiro. As condições são muito variadas e dependem da área da engenharia.

Há uma urgente reorganização funcional da OE? De que forma será realizada?

A OE tem uma organização assente em quase oitenta anos de história, pelo que temos de saber aproveitar o que ela tem de bom. No entanto, na minha opinião, o “simplex” ainda não chegou à OE. Propomos aligeirar, simplificar e facilitar a vida aos engenheiros. Convido os leitores a consultarem o nosso Programa em www.listab.maisengenharia.org.

Por outro lado existe uma necessidade de levar a OE a ser uma mais-valia para TODAS as engenharias. Há um trabalho importante de levar a OE aos engenheiros, que se têm afastado muito dela, veja-se a abstenção nas últimas eleições de 92%.

Há uma necessidade de internacionalizar a Ordem dos Engenheiros? De que forma o pensam fazer?

Portugal é um exíguo país à beira mar plantado. Essa grandeza foi visível quando fomos tomar outros mundos. O país não tem dimensão crítica para rentabilizar a ambição e valor da nossa engenharia, o nosso mercado tem de ser sempre o Global.

Quais os mecanismos a colocar em prática para a integração de recém-formados e engenheiros reformados no mundo laboral?

Propomos muitas soluções no nosso Programa. Precisamos de entrar na Direção da OE para podermos implementar ações concretas já estudadas e debater com os colegas outras que existem e que são visíveis em muitas iniciativas dispersas de certos colegas e instituições. É preciso AGIR! É desse verbo que se faz a evolução.