PSP vai preso por tirar droga a traficantes para a consumir

Um agente da PSP do Porto foi condenado a seis anos e três meses de prisão por crimes de tráfico e mediação de armas, peculato e corrupção passiva.

563

Outro colega foi condenado a nove meses de prisão, com pena suspensa, por ter presenciado alguns dos ilícitos e não os ter denunciado.

Nélson Lopes, de 39 anos, agente da PSP na esquadra de Cedofeita, confesso toxicodependente, foi ontem condenado, no Tribunal S. João Novo, a seis anos e três meses de prisão efetiva, por se apropriar, em diversas datas de 2013, de cocaína e heroína que apreendia a consumidores de droga; a este crime – peculato – juntaram-se mais dois, o de corrupção passiva – por vender informações a traficantes sobre horários e locais de operações policiais – e ainda um crime de tráfico e mediação de armas já que vendeu, ou trocou por droga, equipamento da PSP, nomeadamente um bastão e uma embalagem de gás, ambos de uso exclusivo das forças policiais.

Outro agente, Renato Barqueira, de 34 anos, que na altura dos factos era o motorista do carro-patrulha em que Nélson se deslocava, foi condenado a nove meses de cadeia (suspensa por um ano) porque o tribunal considerou que, pelo menos em duas ocasiões, assistiu à apropriação, pelo colega, da droga apreendida e não denunciou, “nem sequer avisou”, os seus superiores. E porque “tanto é ladrão o que vai à vinha como o que fica à porta”, Renato foi condenado por peculato.

Principal arguido ausente

António Carneiro da Silva, presidente do coletivo que julgou os dois agentes policiais, não leu o extenso acórdão, optando por uma explicação sumária da matéria que os magistrados deram como provada e que determinaram a condenação.

Quanto ao principal arguido, Nélson Lopes (suspenso da PSP), ausente na leitura do acórdão, Carneiro da Silva disse que mentiu ao tribunal. “Confessou apenas ter consumido droga apreendida”, mas negou o resto. Porém, as vigilâncias “e as interceções telefónicas” provaram que vendia (ou trocava por droga) informações sobre operações policiais, bem como o negócio com um traficante (entretanto preso) de algemas, divisas, porta-carregadores, gás paralisante, bastões ou blusões da PSP, em troca de doses de cocaína e heroína.

Quanto a Renato Barqueira – presente no tribunal – o magistrado explicou porque o condenava a nove meses de cadeia: “Pelo menos em duas vezes o senhor viu o que o seu colega fez e não denunciou, nem sequer avisou os seus superiores”.

E a culminar a censura, o juiz Carneiro da Silva (alvo de inquérito na PSP) foi contundente para com Renato Barqueira: “O senhor não agiu como polícia”. v

Barqueira vai recorrer

lAo lado do cliente, a advogada Carla Delgado, defensora de Renato Barqueira, que em tribunal negou alguma vez se ter apercebido que o colega ficava com a droga apreendida, disse, ao JN, que ia “estudar atentamente” o acórdão e depois ponderar o recurso. “Mas em princípio vamos recorrer”.

Traiu os deveres de Polícia

lPara o Ministério Público, o comportamento de Nélson Lopes “decorreu de uma resolução criminosa perdurável no tempo (e não esporádica), em manifesto desrespeito pelas funções em que se encontra investido, violando os mais elementares deveres da profissão e as expectativas e confiança que o Estado e comunidade lhe depositaram na prevenção, fiscalização e repressão do crime”.

Desobedecia à patrulha

lNélson, com Renato Barqueiro como motorista, não cumpria as missões de patrulha que lhe eram atribuídas e que eram, essencialmente, “de visibilidade”, na zona dos hotéis Fénix, “com especial atenção aos arrumadores”, e na Praça Mouzinho de Albuquerque.

Em lugar disso rumava à zona de Campo Alegre, colocando-se em contramão em frente ao Bairro do Aleixo para “monitorizar a saída de veículos” e intercetar quem acabava de comprar droga, que apreendia, “para consumo próprio”.