Será mesmo preciso entretê-los o tempo todo em campos de férias, ateliês de arte ou aulas de ténis durante este tempo que a nós, adultos, nos parece interminável e que dá pelo nome de férias de verão? E se lhe disserem que essa organização excessiva do tempo dos miúdos é prejudicial – porque os impede de partirem à descoberta do que realmente lhes interessa?

“O nosso papel como pais é preparar as crianças para tomarem o seu papel na sociedade. Ser crescido significa poder ocupar o nosso tempo livre da forma que nos faz mais feliz”, sublinha Lyn Fry, psicóloga infantil citada pela publicação digital Quartz. “Se os pais preencherem todos os dias dos filhos com atividades, eles nunca vão aprender a fazê-lo por si”.

Não é de todo a única a apontar os benefícios do aborrecimento para os mais novos. Teresa Belton, investigadora convidada da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, cujo interesse de estudo é a ligação entre o tédio e a imaginação, disse mesmo à BBC que “esse momento aborrecedor é crucial para o desenvolvimento dos estímulos internos – e que isso depois é que os conduz a momentos de uma criatividade maior.”

Embora a nossa capacidade para nos entediarmos tenha diminuído consideravelmente com a internet, os peritos há muito que discutem a importância de não fazer nada. Em 1993, já o psicoterapeuta britânico Adam Phillips escrevia que ” a capacidade de ficar aborrecido podia significar uma aprendizagem para a criança – no sentido em que a obriga a pensar na vida e no há de fazer, em vez de andar sempre a correr e a cumprir agendas.” Segundo Phillips, ocupá-los o tempo todo é uma atitude completamente opressiva dos adultos, porque não lhes dá espaço para procurarem o que gostam de fazer e aprenderem a entreterem-se sozinhos.”

É uma espécie de revisão da matéria dada. Em 1930, o filósofo Bertrand Russel, no seu livro A Conquista da Felicidade, assinalava: “Imaginação e a capacidade de ultrapassar momentos de tédio são duas faces de uma aprendizagem que é preciso fazer em criança”. Há um ano, numa discussão sobre se as férias são grandes demais, o professor de Psicologia da Educação do ISPA, José Morgado,lembrava: “O problema não é a duração das férias. Os nossos miúdos até têm mamais aulas que muitos outros. O problema é faltar uma resposta adequada da comunidade para este período”, diz, acrescentando que não o incomoda nada que possam decorrer iniciativas na escola, desde que não sejam escolares. “Acaba muitas vezes por acontecer os miúdos terem uma imensa panóplia de atividades neste período. E eles também precisam de outras rotinas, de brincar, de serem crianças por um bocadinho”, apela o professor do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, criticando também as “crianças-agenda”, que mesmo nas férias continuam com uma sequência organizada de horários e afazeres. “Brincar é a atividade mais importante que as crianças fazem”.