INVESTIMENTO ESTRANGEIRO NO SETOR IMOBILIÁRIO

“O setor do imobiliário irá ser mais apetecível nos próximos anos para o investidor privado e estrangeiro, fruto da situação geoestratégica mundial, da particularidade da nossa banca, da rentabilidade do dinheiro e dos Vistos Gold”, refere Reis Campos, Presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas, em entrevista, à Revista Pontos de Vista.

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AICCOPN – Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas é uma instituição centenária, de âmbito nacional, com cerca de sete mil associados. Tem como missão defender os interesses dos industriais que representam e o setor da Construção, contribuindo para o desenvolvimento económico e social do país. Que trabalho tem vindo a desenvolver nesse sentido de promover e apoiar as empresas portuguesas?

Falar desta Associação é falar da maior Associação do país, ao nível do setor da construção e a nível do número de associados que apresenta. É uma Associação de referência, uma Associação que tem 125 anos e que tem vindo a sofrer uma evolução qualitativa.

Apostamos na melhoria contínua dos serviços prestados e na defesa qualificada do setor, tendo por objetivo apoiar as empresas e contribuir para que estas possam ser cada vez mais produtivas e competitivas.

O setor da construção sofreu uma mudança significativa há cerca de dez anos para cá. Não há investimento público, pelo que o número de obras/construções diminuíram. O setor foi abanado com as restrições exigidas pelo país e foi o setor que mais sofreu com a austeridade.

Exigiu, assim, dos dirigentes associativos um comportamento diferente. Procuramos ir ao encontro dos associados para pugnar junto dos governos pelo investimento público, criar condições para o investimento estrangeiro e para o investimento estrangeiro

Hoje 30% da faturação do volume de negócios do setor diz respeito à internacionalização. Se antes tínhamos as empresas direcionadas para mercados com a Angola, Moçambique, que representava 63% do nosso mercado, hoje temos uma nova orientação. A Europa não representa para nós o que devia representar, portanto existe uma aposta na procura de novos mercados, nomeadamente, a América Latina. Celebramos um Protocolo de Cooperação com a Câmara de Comércio, Indústria, Serviços e Turismo Portugal – Cuba para desenvolver o projeto “Global Portuguese Construction” com o apoio do programa Portugal 2020 para promover e qualificar as empresas portuguesas de construção e imobiliário no exterior.

Verifica-se um maior dinamismo na compra de habitação em Portugal que está a ser essencialmente impulsionado pela maior abertura dos bancos ao crédito, pelo aumento da procura internacional e também pelos depósitos bancários pouco atrativos, que fazem do imobiliário uma alternativa de poupança mais rentável. O mercado imobiliário português está numa fase ascendente?

O setor da construção e do imobiliário teve uma perda, nos últimos cinco anos, no valor de 39 mil empresas e 260 mil trabalhadores.

No entanto, começa a verificar-se uma implantação de grandes construtores no país, acrescentando o facto de sermos, hoje, o terceiro país europeu com maior implantação na América Latina, o que define para o setor uma componente muito importante.

Durante muitos anos o imobiliário decresceu bastante. Em 2000 construíamos cerca de 114 mil habitações, há cerca de dois anos passámos para 7 mil habitações. O imobiliário português correspondia, praticamente, à construção de habitações novas. Hoje é diferente. O setor mobiliário vai passar muito pela reabilitação urbana. E, nos últimos anos temos procurado promover a componente da reabilitação no imobiliário português. Realizámos um estudo onde se conclui que a necessidade existente em reabilitar o património imobiliário está na ordem dos 38 mil milhões de euros, o que significa que temos reabilitação para 20 anos, se começarmos já.

Portanto, o imobiliário tornou-se apetecível para o investimento estrangeiro e para o Turismo. A par deste fator, o clima, a segurança, a centralidade geográfica, a riqueza patrimonial são algumas das razões que levam os investidores internacionais a colocarem Portugal no radar.

Em 2014 o mercado imobiliário teve um volume de negócios na ordem dos 12,4 mil milhões de euros, em 2015 passou para 15,2 mil milhões de euros.

Estamos numa fase ascendente e vamos ter crescimento em 2016 também. Conseguimos ter um volume de negócios só no primeiro semestre igual ou superior corresponde ao ano transeunte em Vistos Gold.

Começa a verificar-se, também, uma procura do imobiliário por parte de investidores privados que começam a sentir que a Banca não é muito segura, que apresenta taxas de juros muito baixos, levando os privados a procurar rentabilizar o seu dinheiro de uma forma diferente: investir no imobiliário passou a ser uma fonte de receita.

Verifica-se uma diminuição das transações de arrendamento em prol da compra de habitação. Com a maior abertura da banca, em matéria de crédito à habitação, a primeira opção dos portugueses é a aquisição do imóvel?

A procura da compra é, de facto, efetiva. Portugal gosta de comprar, os portugueses gostam de comprar. É uma questão de cultura e de mentalidade. Temos 81% de proprietários, só temos 19,8% de arrendatários. No entanto, tem-se verificado um crescimento no arrendamento devido ao aumento de turistas no nosso país. Somos o segundo País com menos arrendamento na Europa cuja média ronda os 40%.

De facto, há uma tendência para o aumento do arrendamento apesar de não termos mercado efetivo. Só existirá um mercado, em Portugal, quando existir uma oferta superior à procura.

O setor do imobiliário irá ser mais apetecível nos próximos anos para o investidor privado e estrangeiro, fruto da situação geoestratégica mundial, da particularidade da nossa Banca, da rentabilidade do dinheiro e dos Vistos Gold.

Outro aspeto que se tem verificado é o aumento da compra de imóveis em leilão pela facilidade na obtenção de crédito habitação e o eventual desconto no preço do imóvel, uma vez que os bancos financiam, nestes casos, até 100% do valor da habitação. Que papel tem assumido a banca no mercado do setor imobiliário hoje em dia?

A Banca já teve um papel criticável quando, por razões genéricas, teve de ficar com grande parte do imobiliário. Foi “tentada” a colocar o imobiliário numa situação de desequilíbrio no processo de escoamento do stock. Hoje, esses stocks baixaram consideravelmente, a Banca estabilizou e tem confiança no seu imobiliário. Em números, chegou a ter 160 mil habitações para vender, hoje estamos a falar de um número que ronda os 80 mil. São valores residuais.