Oya não vai a manifestações e não é porque não esteja aliviada com o fracasso do golpe. “Tenho medo. Desde Gezi, tenho medo”, diz, esclarecendo que nem se aproxima da Praça Taksim por estes dias. A explicação impõe-se só por um motivo: segundo Oya, jornalista de 35 anos que há muito tempo desistiu de escrever sobre política neste país “de doidos”, essa sua ausência tem sido “notada”, diz, à conversa numa movimentada esplanada da gigantesca rua Bagdat, a terceira maior rua de compras do mundo, no lado asiático de Istambul.

Recapitulando. Na noite de 15 de Julho, sexta-feira, à hora do jantar, houve uma tentativa de golpe de Estado falhada na Turquia. Em Ancara e Istambul morreram mais de 230 pessoas (na maioria civis) que saíram à rua em resposta ao apelo do Presidente, Recep Tayyip Erdogan, apelo que este fez através de FaceTime em directo na CNN Turca, antes do canal independente ser tomado pelos golpistas. Por trás da conspiração, diz Erdogan e Oya, assim como a maioria dos turcos, acredita, esteve Fethullah Gülen, líder de um movimento religioso, exilado nos Estados Unidos.

“Eles que são religiosos que se entendam, o problema é deles”, diz Oya, que agora se dedica à crítica de televisão e, sem saber, há uns anos teve um programa num dos canais ligados a Gülen. O que isso significa é que podia estar a ser detida, como dezenas de colegas de profissão. Acusados ou listados como suspeitos membros do movimento gulenista, muitos limitaram-se a assinar colunas de opinião num título que pertencia a algum dos seus próximos. Os jornais identificados com Gülen não eram os únicos onde se admitem opiniões críticas a Erdogan e ao seu AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento, no poder desde 2002), mas quase. Acontece.

Erdogan e o Governo reagiram ao golpe lançando purgas massivas. Há dezenas de milhares de pessoas despedidas ou suspensas. Mais de 12 mil foram detidas. Muitos dos detidos são militares, juízes, professores, académicos, médicos ou membros da função pública que já antes estavam referenciados como gulenistas. Outros, serão apenas críticos. Outros ainda, não se sabe e vai demorar a saber.

“O que os advogados nos dizem é que estão a fazer perguntas aos detidos do género ‘a que escola é que os teus filhos vão?’, ou, ‘em que banco é que tens conta?’, ‘estudaste no estrangeiro?’… Ou seja, eles estão a tentar encontrar uma ligação a Gülen ou a uma instituição ou empresa ligada ao seu movimento”, descreve o investigador da Amnistia Internacional no país, Andrew Gardner. “E isso não é o mesmo do que ter participado no golpe.” Quanto aos jornalistas, Gardner lembra que o cerco vem de longe. “Há jornalistas nesta lista que eu sei que nem sequer têm simpatias por Gülen, quanto mais terem estado envolvidos no golpe”.

“Esta” lista tinha 42 nomes de jornalistas que estavam a ser procurados, isto dias depois do golpe. Entretanto, já foram emitidos pelo menos 108 mandados de detenção contra jornalistas (dezenas estão detidos), 20 sites foram bloqueados e 131 meios de comunicação social e editoras foram encerrados, incluindo 45 jornais, 23 estações de rádios e 16 canais de televisão.

Muito perigoso

Veteranos comentadores políticos; activistas que assinam textos de opinião; advogados que são, ao mesmo tempo, jornalistas e já tinham defendido curdos ou simplesmente outros jornalistas perseguidos na justiça. “Claro que tenho medo, todos temos medo. A arbitrariedade é total, é muito perigoso”, confessa outro jornalista. “Eu não tenho nada a ver com Gülen. Desisti de escrever sobre política para não ter chatices, e mesmo assim sei que me podia acontecer qualquer coisa. Então se eu aceitei apresentar um programa num canal dele e nem sabia…”, afirma Oya.

Actualmente, Oya trabalha a partir de casa. Mas há três anos estava numa redacção não longe da Taksim, o epicentro de Istambul, colada ao Parque Gezi. É por isso – e pelos amigos que na altura foram detidos – que hoje nem se aproxima de nenhum ajuntamento. O Gezi é o parque que Erdogan quis demolir e que alguns habitantes de Istambul ousaram defender numa concentração que foi brutalmente reprimida pela polícia; a reacção do AKP provocou uma escalada e uma vaga de protestos por todo o país como a Turquia nunca tinha visto. Houve gente a perder olhos, médicos perseguidos por terem assistido manifestantes, muitos canhões de água e balas de borracha e crianças mortas e Erdogan, cada vez mais polarizador e autoritário (na altura era primeiro-ministro).