foto Prof Goncalo XufreA etapa mais notória é a que está associada à transição da escola para a vida ativa em termos profissionais, verificando-se que, comparativamente aos alunos provenientes do ensino secundário meramente vocacionado para o prosseguimento de estudos, os estudantes de cursos profissionalizantes têm tempos de espera mais curtos entre o momento de saída da escola e o do ingresso num emprego.

Em muitas situações este tempo é até nulo, pois os jovens entram nas empresas na sequência da frequência de uma formação em contexto de trabalho, realizada durante o curso. Esta vantagem advém, indubitavelmente, do facto de estes jovens envolverem-se, desde cedo, com a realidade do mundo do trabalho, e de terem sido preparados para o desempenho profissional, sendo detentores de competências específicas, técnicas associadas à atividade profissional e, ainda, de competências transversais muito valorizadas pelas empresas, como o saber trabalhar em grupo, o ser-se pró-ativo ou saber comunicar. Evidente é também a correlação que se estabelece entre o ensino profissionalizante e o sucesso escolar. Esta correlação é muitas vezes confundida com a existência de um maior facilitismo nestes cursos, face aos percursos escolares académicos, mas facilmente se desconstrói esta ideia. Como?

A carga horária dos cursos profissionalizantes é superior à das restantes formações; para poderem concluir os seus cursos, os jovens passam por uma prova de aptidão profissional ou final, realizada perante um júri, depois da elaboração de um projeto que terão de apresentar e defender; e todos os módulos são avaliados (a avaliação incide em todas as temáticas de estudo e não apenas em algumas). Se pretenderem ingressar no ensino superior também realizam exames, com a agravante desses exames incidirem em currículos que não são os seus. Mesmo assim, são muitos os que ingressam no ensino superior. Portanto, estes cursos não serão mais fáceis, serão (isso sim!) mais aliciantes e, como tal, geradores de maior sucesso.

Mas, importa ainda perceber que os benefícios do ensino profissionalizante não se esgotam nestas etapas da vida (de estudante e de jovem à procura de um emprego). Vários estudos realizados pelo Centro Europeu para o Desenvolvimento da Formação Profissional (CEDEFOP) especificam as vantagens e benefícios do ensino e da formação profissional em matérias que vão muito além destas dimensões. Há inclusive dados que apontam para o facto de os países que mais apostam em educação e formação profissional apresentarem melhores condições de vida, taxas de longevidade mais elevadas, índices menores de criminalidade e maiores níveis de participação cívica. Estes são temas que associamos menos à educação e formação profissional mas que, no contexto atual, nos devem fazer pensar e ponderar de que modo a poderemos tornar mais atrativa para os jovens e famílias que, apenas por preconceito, a veem, ainda e muitas vezes, como segunda escolha.

Consciente da necessidade de se eliminar, de vez, este preconceito, a Comissão Europeia acaba de lançar um desafio, convidando todos os Estados-Membros, parceiros sociais, operadores de educação e formação, associações, instituições e cidadãos em geral a inscreverem iniciativas que possam dar corpo a uma Semana Europeia de Competências Profissionais, a realizar entre 5 e 9 de dezembro de 2016. O que se pretende é divulgar boas práticas que corroborem o facto de a escolha de percursos de educação e formação profissional poder conduzir a carreiras desafiantes de sucesso e a empregos considerados de qualidade, sem esquecer tudo o que a isso se associa do ponto de vista da integração social, da satisfação pessoal, do bem-estar, da competitividade nacional, etc. Cabe-nos agora unir esforços e agarrar esta oportunidade para, mais uma vez, reafirmarmos a relevância da educação e a formação profissional.

OPINIÃO Gonçalo Xufre Silva, Presidente do Conselho Diretivo da Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional