«Matou-se o meu pai. Matou-se a minha mãe. Matou-se um irmão meu. Matou-se um irmão da minha mãe. Matou-se um tio do meu pai.» Desatento à cronologia, Eduardo, 63 anos, desfia o catálogo de desaparecimentos familiares. Assinala o fado genealógico ao ritmo de batidas na mesa da cozinha, diferente da da sua infância – aqui tem luz de rede e água canalizada, «luxos» que muitos nesta zona, nas áreas mais isoladas, não têm. Isolamento é palavra-chave para explicar um fenómeno que historicamente tem a maior expressão no Alentejo, em particular no Alentejo Litoral, de que Odemira, o mais extenso e parcamente povoado concelho do país, é o expoente: o suicídio, sobretudo na população mais idosa.

Os dados mais recentes do Comando Territorial de Beja da GNR, que elenca os suicídios de todo o distrito, atribuem a Odemira 102 vítimas com mais de 60 anos entre 2003 e agosto de 2016, comparativamente aos 404 de todo o distrito de Beja no mesmo período e faixa etária. Porquê Odemira?