O ímpeto consumista foi refreado pela crise e os especialistas ditaram que o consumo em Portugal não voltaria a ser o mesmo. Mais racional, devorador de promoções, apostado em ter uma vida saudável e uma alimentação focada nos produtos frescos, o retrato do consumidor mudou radicalmente. Mas depois de anos a conter gastos, mesmo em alimentos básicos, os portugueses recuperaram alguma confiança e já estão a dispostos a gastar mais, incluindo em electrodomésticos.

No primeiro semestre, as vendas destes produtos aumentaram 11% para 202 milhões de euros, o valor mais elevado dos últimos três anos, comparando com o primeiro semestre de 2013, 2014 e 2015. Os dados do Barómetro de Vendas da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), divulgados nesta terça-feira, indicam ainda que dentro desta categoria (identificada como “linha branca”), destacam-se subidas expressivas nas vendas de máquinas de lavar a roupa (12,2%), máquinas de lavar a loiça (11,5%) e frigoríficos (4,5%).

As vendas de electrónica de consumo também seguiram a mesma tendência: cresceram 7,2% para 149 milhões de euros – ainda assim um valor menor face ao primeiro semestre de 2014 (159 milhões de euros). Em ano de campeonato europeu de futebol e de Jogos Olímpicos, os protagonistas foram as televisões, cujas vendas cresceram 10,7%. Houve também mais apetência por mini colunas de som (13,9%), enquanto as câmaras de vídeo perderam terreno e registaram quedas de quase 26% nas vendas no primeiro semestre.

Os equipamentos de telecomunicações já não conseguiram atingir níveis de crescimento de outros tempos – no primeiro semestre de 2014, por exemplo, as vendas dispararam 44% graças aos smartphones – e evoluíram apenas 1,1%. Analisando a categoria de produtos, os portugueses aumentaram as compras de auriculares (19%) e de acessórios para telemóveis e aparelhos semelhantes (8,2%). Quanto aos smartphones, as vendas recuaram 0,3%.

Em termos globais, as vendas no retalho não alimentar caíram 0,7% para 3491 milhões de euros, mas Ana Isabel Trigo de Morais, directora-geral da APED, explica que esta contracção é “efeito dos combustíveis”, que representam 45% da facturação total. A descida do preço do petróleo influenciou o valor e as próprias vendas deste produto, que caíram 2,4% nos primeiros seis meses.

“Vendo com mais detalhe, houve um crescimento do consumo de bens de equipamentos, à excepção da fotografia”, que caiu 13,8% fruto da “evolução tecnológica e alteração radical” nos hábitos do consumidor, que usa cada vez mais o smartphone para fotografar. “Está a acumular perdas consecutivas e qualquer dia já nem justifica incluí-la nos indicadores”, acrescentou.

Gastos com perecíveis em alta

A maior fatia dos gastos dos portugueses está, contudo, concentrada nos bens de grande consumo, incluindo comida e produtos para a casa. No primeiro semestre, as vendas cresceram 3,5% para 5103 milhões de euros, muito impulsionadas pelos perecíveis, ou seja, frutas, legumes, carne e peixe. Esta foi, aliás, a categoria que maior subida registou (+9,8%), reforçando ainda mais a tendência dos últimos anos. Em 2014, por exemplo, os gastos com produtos frescos subiram apenas 0,1 pontos percentuais.

“Este aumento evidencia a procura de uma vida mais saudável. Os consumidores têm sido bastante alertados para a prática de uma boa alimentação”, diz Ana Isabel Trigo de Morais, que também explica esta evolução com maiores investimentos das cadeias de grande distribuição nesta categoria e maior “variedade destes produtos produzidos em Portugal”. Os consumidores também gastaram mais dinheiro em congelados (2,3%), um sinal de que a “conveniência” dita as opções.

No carrinho de compras há produtos que estão a perder importância: os lacticínios e as bebidas. No primeiro caso, as quebras de consumo chegam aos 2,4%, nas bebidas o recuo é de 0,3%.

Apesar de alguma recuperação, as promoções continuam a determinar os gastos e a suportar o volume de negócios do retalho. São cada vez mais a regra, em vez da excepção. Entre Janeiro e Junho, 44,8% das vendas foram feitas com desconto, quando na mesma altura em 2015 a percentagem era de 39,7%. “Evidencia a dinâmica concorrencial e a forma como o consumidor continua a decidir o que comprar”, começa por dizer a directora-geral da APED. “Há uma tal intensidade que o consumidor se tornou centrado na promoção”, continuou, acrescentando que, “a prazo há uma tendência de preços baixos”.