Marcelo Rebelo de Sousa não esconde que a sua grande prioridade da sua viagem a Nova Iorque e da participação na 71.ª Assembleia Geral das Nações Unidas é contribuir para a eleição de António Guterres como secretário-geral da ONU. Mas na sua primeira intervenção como chefe de Estado no plenário das Nações, inibiu-se de o fazer directamente, ao contrário de outros.

Preferiu começar e acabar a sua intervenção garantindo o “compromisso firme e permanente de Portugal para com as Nações Unidas”. Ou, na versão longa escolhida para rematar o discurso, “o apoio firme, convicto e entusiástico” de Portugal na defesa do papel da ONU “na construção da paz, da liberdade, do desenvolvimento e da justiça em todo o mundo”.

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Numa intervenção de cerca de 15 minutos, Marcelo deu a volta ao mundo. Lembrou que Portugal está em África, nas missões do Mali e da República Centro-Africana, na promoção da segurança marítima do golfo da Guiné, na defesa de uma “solução sustentável” para a Guiné-Bissau. Saudou o acordo de paz na Colômbia, garantindo que Portugal irá enviar efectivos para a missão das Nações Unidas e contribuir financeiramente. Reafirmou o apoio português à retoma do processo negocial na questão israelo-palestiniana e condenou a escalada de violência na península coreana.

A seguir, sublinhou que “o terrorismo não pode ser tolerado” e defendeu que “a comunidade internacional, sob mandato das Nações Unidas, tem o direito legal e o dever moral de pôr fim a este flagelo, designadamente ao Daesh”. “Não cederemos ao medo nem abdicaremos dos nossos valores e princípios, nomeadamente em matéria de direitos humanos”, frisou.

Aterrou depois no tema a que mais se tem dedicado – a questão dos migrantes e dos refugiados – para sublinhar o exemplo de Portugal, duplicou, por sua iniciativa, a quota estabelecida a nível da União Europeia.

Só no fim fez uma referência abstracta à eleição para as Nações Unidas, destacando as qualidades que Portugal defende para sucessor à sucessão de Ban Ki-moon. “Estando em curso o processo de selecção do próximo secretário-geral das Nações Unidas, gostaria de exprimir os meus votos mais sinceros para que a pessoa que venha a ocupar este cargo tenha as qualidades humanas e profissionais à altura do desafio”.

E elencou-as: “Que seja um congregador de espíritos e vontades e que se guie pelo exemplo dos valores e da abordagem que Mahatma Gandhi e Nelson Mandela sempre aplicaram na vida: indo para além do seu grupo ou círculo, e assim unindo e representando todos e não uma parte”. Mais: “Que construa pontes; que saiba ouvir e tenha a sabedoria e capacidade de liderança inatas que lhe permitam tomar decisões em que todos se revejam e se sintam incluídos”.

Certo é que Portugal não é o único país que está a aproveitar a 71ª Assembleia Geral das Nações Unidas para fazer campanha por um candidato à sucessão de Ban Ki-moon. Um pouco antes de Marcelo falar, o presidente da Eslovénia, Borut Pahor, apelou directamente ao apoio à candidatura do seu conterrâneo e antecessor, Danilo Turk, que na segunda votação, em Agosto, recebeu 11 votos de apoio e dois contra.

Guterres é o candidato com melhores resultados nas quatro votações já efectuadas até agora, seguido de perto por um outro candidato de Leste: o ministro dos Negócios Estrangeiros da Eslováquia, Miroslav Lajcak, o segundo melhor colocado nas últimas duas rondas.

A próxima votação está marcada para 26 de Setembro, logo após o fim desta Assembleia Geral, sendo concluída, então, esta fase de apreciação das candidaturas. Em Outubro, ainda em data não definida, decorre o primeiro escrutínio com votos coloridos dos cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança: China, França, Estados Unidos, Grã-Bretanha e Rússia.