Em 2007, depois de ter estado 37 anos na Alemanha, Anabela mudou-se para Portugal, a sua terra natal, para trazer as tecnologias de baixo consumo energético “para um país onde o sol brilha 1860 horas por ano”. Foi a melhor aposta que podia ter feito?

Sim, sem dúvida. Os dois motivos principais foram:

– O primeiro porque regressei ao país onde nasci e que adoro, identifico-me com a cultura, com a culinária e com o estilo de vida, especialmente por poder estar perto do mar.

– O segundo motivo foi porque como profissional é gratificante poder trazer para este país a ultimas novidades relativamente às tecnologias de baixo consumo e contribuir para a sua implementação. Tenho-me apercebido de grandes dificuldades na introdução deste tema, especialmente porque o mesmo ainda não é obrigatório, no entanto, tenho assistido ao aumento da procura por parte do consumidor dos nossos serviços, devido ao nosso know-how e qualidade da tecnologia utilizada. Daí que, continuo bastante satisfeita com a aposta que fiz em 2007 e ainda espero assistir à obrigatoriedade da utilização de tecnologias de baixo consumo em todas as futuras construções novas, porque é benéfico para a carteira e para o ambiente.

Zen Architecture é mais do que um estilo de arquitetura. É um estilo de vida. Propõe-se a criar obras-primas arquitetónicas únicas, combinando o melhor das tecnologias ocidentais modernas com as antigas filosofias orientais. No que se traduz a arquitetura da Anabela?

A Arquitetura da Anabela é um princípio, que se traduz em combinar/criar espaços para o ser humano que permitam transmitir felicidade e harmonia aos habitantes. Todos os materiais escolhidos pelo nosso atelier são saudáveis e ecológicos, isto porque, hoje em dia a maioria dos materiais são compostos por químicos perigosos que se encontram nos materiais de construção, nas tintas, pavimentos, no compósito dos móveis, etc… como por exemplo o formaldeído, este componente é composto por gases tóxicos que se vão libertando dos materiais durante anos, causando aos habitantes diversas doenças como asma, alergias graves, entre outras. Devido à falta de informação nesta área os habitantes procuram soluções na medicina para as suas doenças e no entanto o que deveriam alterar é a sua habitação e materiais que os rodeiam por forma a conseguirem um ambiente saudável.

“A inspiração é a semente para grandes criações. Seguindo a ideia de que a simplicidade é sofisticação». Em quê é que a Anabela se inspira no seu dia-a-dia?

A minha inspiração vem muitas vezes da natureza, adoro viajar, conhecer novas culturas, descobrir o que têm de novo, materiais, hábitos, combinação de cores, tradições, etc. Adoro tradições especificamente as portuguesas, daí que, em todos os projetos idealizados existe sempre a originalidade e a natureza mesmo em zonas citadinas.

Em Portugal temos 1860h de sol/ano, é o país com mais sol da Europa, porque não aproveitar o que temos sem custos e desenhar casas de baixo consumo com piscinas biológicas, sem químicos, uma construção que respeita a natureza, utilizando materiais adequados por forma a criar um modo de vida sustentável e saudável.

A escolha de materiais recai sobre os materiais naturais, proveniente da natureza, tais como o barro para o reboco, a madeira para a estrutura do telhado, cobertura ajardinada, aquecimento solar, alto desempenho a nível do isolamento, combinados estes materiais criam um ambiente equilibrado com baixos custos de manutenção e de despesas correntes.

Nos meus projetos uma das grandes preocupações é a preservação do meio ambiente e a utilização de energias renováveis. Fascinada pelas outras culturas encontrei no feng shui uma ferramenta adicional que permite compreender o segredo da influência dos materiais sobre os humanos. Esta fusão entre a ciência e o conhecimento antigo sobre o fluxo de energia ajudou a criar o nosso estilo de arquitetura, a qual denominamos por ZENARQ.

O Feng Shui é uma antiga, milenar, ancestral filosofia oriental que estuda a interação humana com o ambiente. O objetivo é criar nos edifícios uma atmosfera motivante e rejuvenescedora.

A Core Architects propõe-se a criar e construir ambientes que beneficiem as pessoas e os seres vivos envolventes. O nosso país tem aderido facilmente a este conceito de arquitetura que a Anabela nos trouxe?

A procura por este tipo de construção tem crescido anualmente a nível do cliente nacional, pois a nível dos clientes estrangeiros este tipo de conceito na construção e na escolha de materiais já faz parte da sua cultura, uma vez que, já receberam informação e estão alertados sobre os benefícios deste tipo de construção há mais anos.

Numa sociedade onde cada vez mais o dia precisa de ter mais do que 24 horas, sendo mulher e com uma carreira profissional que exige muito de si, é fácil fazer a gestão de todos os papéis que lhe são inerentes?

Claro que não é fácil, contudo é uma questão de gestão de prioridades. Gosto muito da minha família, mas dedico a maior parte do meu tempo ao meu trabalho, à arquitetura, pois é, e sempre foi a minha paixão. Para além de que o mercado está sempre em evolução e cada vez é mais exigente, o arquiteto tem de estar constantemente a atualizar-se para poder implementar novos produtos e tecnologias.

A discussão sobre lideranças no feminino e no masculino está cheia de lugares comuns. Diz-se que os homens são mais competitivos, imediatistas e propensos ao risco e diz-se que se houvesse mais mulheres no topo, as coisas estariam melhores. Na sua opinião, as mulheres têm um estilo de liderança diferente?

Muito honestamente adoro trabalhar com mulheres, neste momento a minha equipa é constituída por três mulheres e um homem, contudo para que exista um equilíbrio saudável aprecio e respeito a presença masculina, todos temos alguma coisa para ensinar e para aprender.

Como fazemos gestão de obra, o meu trabalho diário envolve uma grande presença masculina. Na área da gestão acredito que a forma feminina na maioria das vezes atinge melhores resultados, porque conseguimos ter uma liderança distinta, mas suave. O universo masculino durante o meu percurso profissional tem aceitado muito bem a liderança desta forma, sem existir confrontos, não tendo qualquer razão de queixa.