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“AS MULHERES TÊM AS MESMAS ARMAS QUE OS HOMENS”

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“AS MULHERES TÊM AS MESMAS ARMAS QUE OS HOMENS”

Sobre a Ana Pedrosa Augusto diz-se que “é seguramente uma das melhores advogadas da sua geração na área do Direito dos Negócios, e um exemplo a seguir”. Como chegou até este nível de reconhecimento pelo mercado e pelos seus pares, tendo em conta os seus 35 anos?

Quando chegamos a um determinado patamar e revemos o nosso percurso nunca achamos que foi rápido. Mas tenho noção que aos 35 anos já alcancei importantes conquistas profissionais, numa idade em que tal não é frequente, principalmente neste tipo de negócio. A resposta à pergunta é só uma: muito trabalho, empenho, dedicação e muito foco. Sempre quis ser advogada nesta área e nunca me imaginei a fazer outra coisa.

Este sempre foi o meu desígnio. Sempre quis acompanhar quem cria valor, que é o que admiro. Sentir que estou também a criar valor junto dos nossos clientes é o meu grande propósito, é aquilo que gosto realmente de fazer. Olhar para trás e constatar que estive nesse processo de criação é indescritível.

Ana Pedrosa Augusto integra a Rogério Alves & Associados desde 2013, tendo sido recentemente nomeada sócia da RA&A. Este acontecimento importou, certamente, mais responsabilidades. Alguma coisa mudou para a Ana desde então?

Foi fantástico para mim estar, em 2013, na génese da Rogério Alves & Associados. Foi muito marcante poder acompanhar a fundação de um projeto no qual tanto acredito. Ter sido nomeada sócia em 2016 foi magnífico. Partilhar a definição do destino da nossa sociedade de advogados, deste projeto que queremos tanto ver crescer… é qualquer coisa de extraordinário. Por isso só posso agradecer aos sócios fundadores, em especial ao Rogério Alves e ao João Pedro Varandas, por terem depositado a sua confiança em mim. Sei bem que estou à altura do desafio. Sempre que prossegui um objetivo e me foquei nele as coisas correram como pretendido.

Dito isto, muito mudou, mas o essencial – o trabalho, a relação com os clientes, o foco – esse é o mesmo.

A RA&A Advogados conta, atualmente, com seis sócios, refletindo assim o crescimento da sua atividade e o posicionamento da sociedade em diversas áreas de prática. É a única mulher neste painel de sócios. Esta é uma tendência em todas as principais sociedades. A advocacia continua a ser uma área dominada por homens? Ser mulher é um obstáculo acrescido?

É indiscutível que esta área ainda é dominada por homens. Basta olhar para o tecido empresarial português para verificar que a grande maioria das empresas é dirigida por homens. Obviamente que no Direito se acompanha essa tendência.

Não posso dizer que não notei, pontualmente, alguma reserva pelo facto de ser mulher. Mas foi sempre vencida, utilizando invariavelmente a mesma fórmula: com trabalho, empenho e paixão, todas as dúvidas que possam surgir são esmagadas. Hoje, ser mulher é um detalhe, uma circunstância, mas para aqui chegar tive certamente mais a provar.

A mudança não acontece de um dia para o outro. Há apenas uma ou duas gerações eram raras as mulheres que tiravam cursos superiores e ainda menos as que assumiam cargos de chefia. Mas não tenho a menor dúvida de que as coisas vão mudar. Nesta área, por exemplo, há grandes mulheres que são advogadas fantásticas e o mercado reconhece isso, porque o mercado necessariamente percebe o mérito e a qualidade.

Por natureza a mudança pode demorar. Mas ela não parte só dos homens, depende principalmente da atitude das mulheres.                                              

A Ana Pedrosa Augusto atua predominantemente nas áreas de direito fiscal, imobiliário, comercial e societário, sendo também membro do painel de árbitros em matéria tributária do CAAD (Centro de Arbitragem Administrativa). Na sua opinião, como está o Direito dos Negócios em Portugal?

Vivemos muito em função do que é a economia do país. Estamos intimamente ligados a ela e ao que se vive em cada momento. Com o abrandamento da economia, o acompanhamento aos nossos clientes não foi tanto numa perspetiva de expansão, mas sim de consolidação. Tivemos que nos adaptar, porque tudo mudou e houve que acompanhar essa mudança. Hoje há mais atividade, mas o seu crescimento sustentado é muito prejudicado pela ausência de estabilidade tributária. Precisamos de previsibilidade, de racionalidade e de bom senso, se queremos investimento. As maiorias parlamentares têm que perceber isto de vez. Há que compreender que quem gera riqueza não é um alvo a abater.                                                    

Na sua opinião, as mulheres carecem de alguma proteção especial, designadamente legal, para que possam ascender a lugares de direção e decisão?

As mulheres têm as mesmas armas que os homens. Não sou a favor de regulamentação ou proteção que privilegie as mulheres. Eu não quereria que houvesse dúvidas sobre o motivo pelo qual cheguei a um certo nível, se foi por mérito ou porque simplesmente fui preencher uma quota. Hoje, se as mulheres chegam a cargos de chefia é porque, como os homens, o merecem. E tal é o que deve prevalecer. A lei é clara e as questões de desigualdade de género estão tratadas. A Constituição da República Portuguesa impede a discriminação seja de que tipo for. Apesar de ainda poder existir algum preconceito relativamente às mulheres, a mudança está acontecer e não tenho dúvidas que rapidamente este será um falso problema.

Deixará de ser uma questão de género, será puramente uma questão de mérito. E claro que isso pressupõe um percurso muito individual. Cada um tem de trilhar o seu caminho. Tenho a certeza que se todas as mulheres traçarem o seu percurso e nele se mantiverem, com determinação, ultrapassando os seus próprios obstáculos, esta dúvida deixará de surgir. Não se pode ficar à espera que o Estado resolva este ainda aparente problema, porque já fez o que havia que ser feito. Agora parte das mulheres, têm de ir à luta como os homens vão à luta.

Não sinto hoje qualquer grau de discriminação em relação à minha pessoa. Tenho a sorte de ter clientes que reconhecem o trabalho, que vivem no presente e pensam no futuro. Não têm vocação para problemas que devem ficar no passado.

O mérito prevalece sempre e o mérito sobrepõe-se a qualquer questão de género.