“NÃO TEMOS O QUE MERECEMOS MAS SIM O QUE NEGOCIAMOS”

Aprendeu a ler tinha apenas quatro anos. Tudo porque o seu sonho era ter um livro. O pai recusou-se a dar-lhe um livro até que aprendesse a ler. E foi isso mesmo que Ermelinda Gonçalves fez: começou por copiar as cartas do avô, e assim a conhecer as letras, com cinco anos tinha cumprido o seu objetivo, sabia ler. Hoje garante que, ter sempre um sonho é o que a move.

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No final de 2014 sai do Banif e começa a trabalhar como consultora numa empresa de marketing. Mais tarde entrou numa empresa dedicada apenas a consultoria e começou a fazer candidaturas no âmbito do Programa Portugal 2020. A par disto decide inscrever-se no BNI (Business Network International), rede mundial constituída por pequenos grupos de empresários que se reúnem uma vez por semana, para trocarem oportunidades de negócio. Aliam-se como parceiros empresariais ou, através da sua rede de contactos no exterior, proporcionam outras parcerias empresariais lucrativas e certo é que quem dá recebe sempre em troca. A rede BNI foi fundada em 1985, por um empresário norte-americano, Ivan Misner, que começou a trocar contactos (prefere chamar-lhes “referências”) com um grupo de amigos e passou a ser solicitado para criar outros encontros com o mesmo objetivo. Hoje, o BNI está em 69 países e liga mais de duzentos mil homens e mulheres no mundo dos negócios.

CONSULTORIA FINANCEIRA

Com contactos recolhidos da BNI, decide fundar a EGENI, em junho de 2016, uma empresa de consultoria, fruto de toda a aprendizagem que reuniu ao longo dos anos. No entanto não parou e ao mesmo tempo é hoje Consultora da marca I Have the Power. Uma empresa com um sistema totalmente integrado de treino de pessoas para o êxito.

LIGAÇÃO AOS PALOP

Ermelinda Gonçalves está também ligada aos PALOP desde junho. Foi numa festa que conheceu um contacto chave, que percebeu a potencialidade da nossa entrevistada e que decidiu por isso fazer-lhe uma proposta. Tornaram-se parceiros com o intuito de estabelecer sinergias entre empresários portugueses da construção civil e trading para investirem em vários países de África e não só: Guiné-Bissau, são Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e também da América Latina (Argentina e Bolívia).

SER MULHER

Porém, a nossa interlocutora revela que “nem sempre é fácil lidar com o facto de ser mulher em alguns países, simplesmente porque a liderança no feminino é algo que não é aceite”. Mesmo assim, esse não é um problema para a nossa entrevistada que garante que há sempre forma de contornar os obstáculos. “Em África as mulheres não discutem política nem negócios. Temos de respeitar alguns fatores culturais”.

“Há mentalidades complicadas e formas de realizar negócios pouco claras. São mentalidades que têm de ser combatidas mas com calma, sem correr riscos. É necessária uma sensibilidade especial”. Relativamente ao papel da mulher na sociedade e à importância que em alguns lugares ainda lhes é devida, Ermelinda Gonçalves considera que há um caminho a percorrer e que são, também, as mulheres a ter de o fazer: “o ideal é que as mulheres sejam valorizadas pela sociedade e que se aproveite o que de diferente têm dos homens. As mulheres precisam de ir à luta. Existem muitos casos de mulheres que também não querem sair da sua zona de conforto, têm medo. Comigo aconteceu, também tive medo. Porém a minha educação permitiu-me aprender que eu tenho valor, que me instruí para nunca ser o tapete de ninguém. É errado não nos opormos àquilo com que não concordamos. Se as mulheres continuarem preocupadas com o que os homens pensam delas nunca ultrapassarão os limites que a sociedade lhes impõem em várias áreas da vida”. E tudo começa e pode mudar a partir de casa, com a educação, garante: “as mães têm de ensinar aos seus filhos rapazes que eles não são mais do que as raparigas, quer na vida profissional quer na vida pessoal”. Quanto ao resto, Ermelinda Gonçalves afirma que na vida “não temos o que merecemos, mas sim o que negociamos”.