Nos dias 3 e 4 de março, no Pavilhão Multiusos de Guimarães, vai realizar-se o 8º Fórum de discussão sobre feridas, organizado pela ELCOS-Sociedade Portuguesa de Feridas. Conversámos com Kátia Furtado, Enfermeira no Hospital de Portalegre e Presidente desta sociedade científica, no sentido de perceber que impacto tem o tema “feridas” em Portugal.

“O impacto das feridas na qualidade de vida das pessoas, e a dimensão dos reflexos económicos e sociais associados, constituem hoje, pela sua grandeza, um grave problema de saúde pública. A sua prevenção e tratamento estabelecem uma área de elevada complexidade, que requer não só uma abordagem holística dos seus portadores, como também uma intervenção clinica interdisciplinar, em tempo útil, baseada nas melhores práticas, apoiadas pela ciência, única forma de obter ganhos em saúde. Face a esta exigência, a prevenção e o tratamento das feridas é, indubitavelmente, uma área negligenciada, em Portugal.

De elevado interesse clínico, por ser condicionadora da qualidade de vida das pessoas, uma ferida pode acompanhar um cidadão ao longo de 30 ou 40 anos ou, se bem avaliada e tratada, cicatrizar em menos de 6 meses”, começa por explicar a nossa entrevistada.

A ELCOS, uma sociedade científica nacional, fundada em 2009, constituída por profissionais ligados às áreas da saúde, ensino e investigação, têm como foco a promoção do debate, a formação e a investigação no âmbito da prevenção e tratamento de feridas. Trata-se de uma Comunidade de Prática que se projeta no espaço nacional através dos seus Conselhos Regionais distritais (CR).

“Cada profissional tratava o seu utente de forma isolada, sem haver um olhar e um diálogo interdisciplinar. Por isso, tornou-se óbvia a criação de uma sociedade científica nacional que se ocupasse desta problemática, promovendo o diálogo, a reflexão, a continuidade médica, as consultas da especialidade e uma resposta em tempo útil às pessoas com feridas. Só assim se reduzirão os elevadíssimos custos, financeiros e humanos, com as feridas”, afirma Kátia Furtado, referindo ainda que “a ELCOS tem desenvolvido o Diagnóstico Organizacional nas instituições parceiras e introduzido documentos, metodologias, materiais e formação/ação, de forma a implementar processos e práticas científicas na prevenção e tratamento de feridas”. “Todos os cidadãos”, refere, “devem ter garantidos cuidados de qualidade, todavia, estes revelam-se bastante desiguais na geografia do país.”

De modo a unificar conhecimentos, metodologias, processos, a ELCOS tem, em parceria com instituições de ensino, pós-graduações a decorrer em todo o país, tendo já formado centenas de profissionais (médicos e enfermeiros) que garantem uma resposta de elevada qualificação nos seus contextos clínicos”, explica Kátia Furtado.

Face à complexidade do tema, a ELCOS tenta um envolvimento a todos os níveis: “temos tido a preocupação de sensibilizar não só os profissionais de saúde, mas também gestores e políticos, ao nível da DGS e Ministério da Saúde.  A criação de uma Rede de Referenciação Nacional para feridas complexas: a articulação geográfica dos serviços, consultas da especialidade, profissionais e demais recursos; a pronta referenciação, constituem um desiderato a prosseguir na prevenção e tratamento de feridas, afigurando-se o único modo de obter, de forma sustentada, ganhos em saúde e qualidade de vida para a população.

De acordo com a nossa interlocutora, neste momento a DGS já reconhece esta realidade e “estamos, em conjunto, a trabalhar duas novas normas, exatamente para que as diretivas, superiormente desenvolvidas, tutelem as práticas dos profissionais, em cada instituição. Estas diretivas permitirão, também, que as instituições de saúde adquiram materiais essenciais à prevenção e tratamento das feridas. Há hospitais com elevada carência de materiais, porém, a carência na área da formação é a mais gritante. Quando os profissionais têm formação na área, consomem menos e obtém melhores resultados. É esta a nossa experiência e os estudos que temos promovido revelam isso mesmo”.

Financeiramente, a maior despesa resulta de não se cicatrizar. A presidente da ELCOS afirma que “há doentes portadores de feridas há 40 anos e isto é que é um enorme gasto. Não só não cicatrizamos o doente e, por conseguinte, não melhoramos a sua qualidade de vida, como continuamos com custos diários elevadíssimos, uma vez que permanecem doentes internados só para tratarem feridas”.

 8º FÓRUM IBÉRICO DE ÚLCERAS E FERIDAS

O 8º Fórum convoca a reunião do pensamento científico interdisciplinar que se produz em torno da prevenção e tratamento de feridas: a prática clínica, o ensino e a investigação, para um diálogo de elevada riqueza, devido à diversidade das disciplinas em presença, tutelado pelo olhar analítico, escrutinador e distanciado da sociologia da saúde.

Acessibilidade e Equidade na Prevenção e Tratamento de Feridas é o tema que norteará, este ano o Fórum. Observamos uma desigualdade notável na resposta às feridas complexas. Esta desigualdade condiciona a índices de qualidade de vida diferentes em cada região de saúde, a uma incidência de amputações em diabéticos, vergonhosamente desigual; a uma esperança de vida desigual, por região de saúde, parecendo, neste contexto, que o norte e o sul do país são tutelados por ministérios diferentes.

O desenvolvimento do Fórum em regiões diferentes do país, prende-se com o facto de sermos uma sociedade científica nacional que tem CR nos diversos distritos e que pretende chamar a atenção das instituições responsáveis para as necessidades na área das feridas, em cada região. Resulta ainda da necessidade de apoiar os CR e desenvolver formação nas instituições com as quais temos parceria (no caso, a Universidade do Minho, onde desenvolvemos uma Pós-graduação há vários anos). Resulta, por fim da necessidade de produzir investigação, apoiar e cimentar boas práticas, nas instituições que estamos a assessorar.

Face à complexidade que envolve esta área, particularmente menosprezada, em termos clínicos, a ELCOS, em parceria com a Universidade do Minho, a Universidade de Évora, o Hospital da Senhora da Oliveira, Hospital da Luz-Guimarães e Hospital Narciso Ferreira, propõe dois dias de debate sobre o tema, na procura de respostas para as diversas realidades e desigualdades observadas em Portugal. Na procura de condições para uma mais qualificada resposta nacional às feridas complexas, aumentando o conhecimento, reduzindo custos, promovendo ganhos em saúde e qualidade de vida para a população.