Início Opinião A Palavra a... Formação Médica: Presente e Futuro

Formação Médica: Presente e Futuro

0
Formação Médica: Presente e Futuro

A arte de tratar doentes implica uma combinação de conhecimentos oriundos das Ciências Básicas e Clínicas para lá de elementos derivados de outros ramos, como a Sociologia ou a Epidemiologia.

Por outro lado, a tecnologia tem um peso crescente na Medicina actual, revolucionando os meios complementares de diagnóstico e as estratégias terapêuticas e, com isso, obrigando os profissionais da saúde a desenvolverem novas competências para as quais não tinham recebido formação prévia. No momento presente, cada método de diagnóstico, cada equipamento cirúrgico implicam formações específicas e requerem curvas de aprendizagem mais ou menos longas até serem devidamente dominados.

Numa outra vertentFotos luis andradee, a Medicina sempre foi e continuará a ser uma ciência com um forte componente subjectivo, podendo existir diferentes soluções para uma mesma condição clínica. Essa subjectividade vai sendo moldada pela experiência de cada profissional, pela sua forma de interagir com os seus pacientes, pelo contacto com os pares e pelo estudo que, ao longo da vida, se vai fazendo.

É um dado assente que é impossível para qualquer médico estar a par de tudo o que vai sendo publicado sobre a sua área específica de intervenção. Mesmo que todo o tempo de um médico fosse dedicado a ler e estudar, o que faria pouco sentido, não seria viável absorver tudo o que se escreve e apresenta. Tal facto não significa que os médicos estejam permanentemente em défice de formação e informação, uma vez que a prestação de cuidados médicos de excelência vai muito para lá disso, envolvendo uma relação médico-paciente de grande confiança e proximidade, a capacidade para ouvir e dialogar, a troca de impressões entre colegas, a experiência acumulada e uma forte intuição clínica.

Importa não esquecer que muita da informação científica actualmente disponível não é adequadamente revista. O fenómeno da democratização da informação na internet removeu muitos dos crivos que as revistas médicas de referência apresentam e passou a permitir a coexistência de boa e má informação médica, muitas vezes difíceis de distinguir entre si. E mesmo muitos dos grandes estudos médicos sobre os quais assentam práticas médicas foram perdendo a sua validade, fruto da acumulação de novos dados, assim se demonstrando, mais uma vez, o carácter profundamente dinâmico, instável e subjectivo da arte médica.

Olhando para aquela que tem sido a tradição da formação médica, actividade necessariamente importante e com custos associados, é um dado adquirido que ela foi sempre muito suportada pela indústria farmacêutica. Tal associação foi sempre encarada como natural, por um lado, porque a indústria tinha necessariamente de apresentar aos profissionais de saúde o produto da sua investigação, tinha de os envolver nos estudos que permitem a sua validação e aprovação e tinha de prestar toda a informação necessária à optimização da sua utilização. Isto no que se refere tanto a fármacos, dispositivos médicos ou meios de diagnóstico. O peso da indústria nessa formação foi-se acentuando, dada a impossibilidade das Faculdades, das instituições governamentais e dos próprios profissionais suportarem as despesas relacionadas com Congressos, viagens, assinatura de revistas, compra de livros, etc. E, como tal, uma actividade que derivava de uma necessidade básica de divulgação e promoção do trabalho desenvolvido, foi-se confundindo com um modelo de relacionamento que foi sendo aceite como padrão e como tradição por todos os intervenientes.

Esse modelo, como é do conhecimento comum, gerou comportamentos eticamente condenáveis, criminalmente puníveis, mas também permitiu que muitos médicos, enfermeiros e outros técnicos pudessem aceder a formação de excelente qualidade de um modo isento e sem qualquer compromisso da qualidade dos cuidados de saúde prestados.

Como em tudo na vida, os tempos vão mudando e vai-se assistindo a uma maior regulamentação da actividade formativa, o que é bom, e a uma menor capacidade da indústria assegurar o seu papel de patrono da formação, fruto de constrangimentos financeiros diversos, o que é mau.

Sempre referi que a indústria farmacêutica tende a ser encarada com uma enorme dualidade de critérios de avaliação. Por um lado, é a ela que se pede o desenvolvimento constante de novas moléculas que permitam curar ou prevenir doenças e prolongar vidas, por outro lado, ela é acusada de pretender gerar lucros milionários à custa de um bem tão nobre quanto a saúde.

Os custos de desenvolvimento de um novo fármaco, o tempo que esse processo pode demorar, os riscos de insucesso e o curto tempo de vida útil de muitas moléculas (como os antibióticos, por exemplo) são factores que geram custos extraordinários e o retorno para as nossas vidas é verdadeiramente ímpar mas isso tende a ser, injustamente, menorizado.

Contudo, não penso que a formação médica venha a ser afectada por estas novas realidades. Essa formação, como referi, apenas em parte era apoiada pela Indústria Farmacêutica e muitos profissionais sempre desenvolveram as suas próprias estratégias de formação e desenvolvimento profissional. Não creio que nenhum médico deixe de crescer e de aprender apenas porque não tem uma entidade que o apoie e, mesmo quando esse apoio existia, ele representava somente uma pequena parte do seu esforço formativo.

Como referi no início, um bom profissional da saúde forma-se, educa-se e cresce no seu dia-a-dia, aprendendo com cada doente, com os seus colegas, com o que lê, com o que estuda.

As novas ferramentas virtuais, o acesso à informação em tempo real tornaram o mundo mais pequeno e as possibilidades de formação transformam-se em conformidade com os novos tempos em que viajar é menos seguro, em que a informação flui vertiginosamente, em que o tempo é cada vez mais escasso.

A formação em Medicina sempre cumpriu o seu papel e temos, em Portugal, profissionais extremamente bem preparados e formados. As contingências de cada época obrigam a adaptações nos modelos formativos mas a nada mais do que isso, porque essa formação é vista como elemento intrínseco à própria actividade médica.

Como tal, acredito que essa formação nunca esteve nem nunca estará em risco. Irá, como sempre fez, adaptar-se às novas realidades.

Será sempre importante que todos, individual e colectivamente, estejam abertos a aprender e a contribuir para a formação de outos. As Ordens e Sociedades Científicas têm um papel a desempenhar nessa formação, o Estado deve estimulá-la e nela intervir, a Indústria é um catalisador incontornável e, no final, será sempre cada um de nós que deve, incansavelmente, buscar o conhecimento de que precisa no exercício diário da sua actividade para dar o melhor de si mesmo aos seus doentes.

Sempre assim foi. Sempre assim será…

Luís Gouveia Andrade, Director Geral da InfoCiência, Processamento e Gestão de Informação Científica | Médico Oftalmologista no Hospital CUF Infante Santo