Patrícia Marta Rodrigues e Sónia Malveiro são as fundadoras da Biota, uma empresa de consultoria ambiental. Que missão definiu a criação da empresa e que objetivos se propunha a alcançar?

A criação da BIOTA não foi uma decisão romântica de quem decide abrir um negócio para concretizar um sonho, nem tão pouco uma decisão muito planeada e estruturada de quem tem uma missão e visão bem definida.

Pouco depois de ter acabado a licenciatua em Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em 1999, e paralelamente a outras atividades, comecei a prestar serviços como freelancer para várias consultoras de ambiente, realizando o descritor ecologia (fauna e flora) para integrar Estudos de Impacte Ambiental.

Ainda que as exigências do mercado e das entidades avaliadoras fosse muito inferior ao que felizmente se verifica hoje, tendo sempre em vista o fornecimento de um produto de qualidade aos clientes, era raro o trabalho em que não recorresse a colegas da faculdade especialistas em certos domínios que me assessorassem em temas mais específicos. E foi assim que se deu o meu reencontro com Sónia Malveiro, colega de curso, mas especializada em flora que passou a ser o meu braço direito na elaboração destes trabalhos.

Algum tempo depois, o volume de trabalhos adensavasse e estava a tornar-se financeiramente insustentável continuar a trabalhar assim. Na prática, eu passava o recibo verde ao cliente por todo o trabalho mas já tinha por de trás uma “estrutura de custos não reconhecida”. Ou seja, eu pagava todos os encargos fiscais como se todo aquele dinheiro fosse para mim, mas a verdade é que ele era distribuido por “várias famílias”. Por esta razão, há muito que digo em jeito de brincadeira que os anos em que trabalhei como freelancer não foram para ganhar dinheiro mas sim para construir a carteira de clientes da BIOTA! E a verdade é que, 10 anos depois, mantemos atividade com os nossos primeiros clientes que ainda persistem no mercado – VISA Consultores, Grupo PROCME e PROCESL (atualmente incorporada no Grupo Quadrante).

 Desde a criação da empresa, em 2007, que análise é possível fazer do percurso da Biota?

Uma grande experiência de vida! Chegados os 10 anos de existência da BIOTA, olho para trás e tenho muito orgulho naquilo que contruimos. Já atravessámos e, certamente como todas as empresas, havemos de voltar a atravessar dificuldades mas, com a nossa resiliência, criatividade e visão, entre outros valores que caracterizam a cultura da BIOTA, havemos de as ultrapassar. Mais recentemente, a aposta que temos feito no estabelecimento de parcerias, tem vindo a desempenhar um papel central na alavancagem da nossa atividade. Da empresa que nasceu como criação de auto-emprego até uma empresa que opera no mercado internacional, considero que o salto foi de gigante. Hoje, para além dos clientes nacionais, a BIOTA presta serviços para empresas de vários países, tendo clientes em Espanha, Itália, África do Sul, Moçambique e Angola. Do portfolio da empresa, consta a participação em mais de 250 projetos, redigidos em português, inglês e francês, distribuidos por Portugal, Espanha, Argélia, Malawi, Moçambique e Angola. Ainda que a maior parte deste percurso tenha sido feito por sua conta, a BIOTA não esquece que a sua primeira e impactante oportunidade de experiência internacional, foi através de um cliente nacional a COBA S.A., empresa internacional de origem portuguesa, com 50 anos de existência, com quem colaboramos desde 2009.

O ano passado iniciámos um período que considero de transformação profunda. Chegámos a um momento de maturidade em que, ou continuávamos como estávamos e o futuro poderia não ser muito promissor, ou dáva-mos o salto para o “patamar seguinte”. Após muita reflexão, temperada com a angústia de quem tem de tomar decisões estruturais, iniciámos um novo ciclo de crescimento. Revimos todos os nosssos processos internos, implementámos um sistema integrado de apoio à gestão e alargámos a nossa oferta para outras áreas não tradicionais, nomeadamente produtos tecnológicos para a área da biologia/ ambiente e serviços para a área do turismo, potenciando o nosso Know-how em biodiversidade, aplicando-o a contextos muito diferentes como, por exemplo, a atividade “Morcegos no Castelo”, que desenvolvemos para a EGEAC e que decorre todos os sábados à noite, de junho a setembro, no Castelo de São Jorge. 

Que papel assume hoje a Biota e qual tem sido o seu impacto?

Ainda que possa ser suspeita por falar em causa própria, considero que a BIOTA assume hoje um papel de referência, especialmente ao nível dos estudos de biodiversidade desenvolvidos no âmbito de Processos de Avaliação e Pós Avaliação de Impacte Ambiental. Apesar de pouco conhecidos por uma parte significativa de clientes-alvo, devido à nossa postura discreta, reunimos competências de elevada qualidade no âmbito da avaliação da qualidade ecológica da água; da determinação de caudais ecológicos com recurso a métodos holísticos e da sua monitorização para avaliação da eficácia. Nesta área, desde 2009 que temos tabalhado todos os anos, quase em exclusivo, para a LABELEC, empresa do Grupo EDP.

Patrícia Marta Rodrigues é Bióloga e CEO desde a sua criação. Com mais de 15 anos de experiência profissional é uma empreendedora e líder. Que desafios enfrentam as mulheres no que diz respeito à liderança de cargos de chefia?

Sem dúvida o equilíbrio entre maternidade vs internacionalização. Acredito que a maioria dos desafios na área da liderança que os cargos de chefia colocam não têm “género”. Homens e mulheres enfrentam todos o desafio da motivação das suas equipas, das quais eles próprios fazem parte; a solidão que é estar à frente de uma empresa (especialmente quando a responsabilidade de “guiar o leme” não é partilhada), entre outros sobejamente conhecidos.

No meu caso em particular, e possivelmente para todas as mulheres que se encontram numa situação idêntica, acredito que o equilíbrio emocional entre a dedicação à maternidade e o investimento nas ausências físicas necessárias quando a empresa se encontra num processo de internacionalização constitui o maior desafio enquanto mãe, mulher e empresária. Presto aqui uma homenagem e um agradecimento público muito sentido à família maravilhosa que tenho e que me apoia incondicionalmente em todos estes momentos. Sem eles, nem a BIOTA nem eu poderiam vir a ser quem ambicionam. A verdade é que sou uma emocional por natureza…mas estar a responder a esta entrevista em Moçambique…torna a resposta a esta questão muito mais sentida…

Afirma-se que “em matéria de igualdade de género o nosso país é desigual”. Já foi alvo de discriminação ou enfrentou dificuldades acrescidas durante o seu percurso profissional pelo facto de ser mulher?

Na verdade não tenho memória de ter sido alvo de discriminação ou de ter enfrentado dificuldades acrescidas durante o meu percurso profissional por ser mulher. Considero as palavras sempre e nunca perigosas pois, facilmente, ainda que sem querer, podemos estar a ser imprecisos mas, acho que nunca fui alvo de discriminação, pelo menos evidente. A ser, penso que terá sido descriminação positiva, sendo o convite para esta entrevista uma das evidências. Mais do que ser mulher, acredito que o facto de ter sido empreendedora desde muito cedo e de ter uma atitude muito positiva e de gratidão perante tudo – facilidades e adversidades, tem contribuído para o caminho que tenho feito, quer em termos de desenvolvimento pessoal, quer profissional.

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