“Temos de aceitar de uma vez por todas que não é o género com que nascemos que nos define como pessoas”

Fernanda Alves Schmelz, Vice-Presidente da Rainbow Portugal, deixa uma mensagem a todas as mulheres: “Não se deixe armadilhar por dogmas, que é o mesmo que viver segundo os pensamentos de outros. Não deixe que o barulho das opiniões dos outros abafe a sua voz interior”.

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Fernanda Alves Schmelz é empresária e uma mulher empreendedora que dirige, atualmente, duas empresas. O que a inspira e motiva diariamente enquanto mulher e profissional?

A motivação é a mesma, ou seja, não sinto que, como mulher, tenha motivações diferentes das que tenho como empresária ou líder. É a motivação para a vida que conta e essa resume-se em poucas palavras: perseguir com determinação objectivos concretos sem pôr em causa os valores morais e éticos que aprendi em criança e que tento transmitir não só aos meus filhos como a todos aqueles com quem trabalho ou tenho relações de amizade.

Respeitar esses valores não significa para mim, porém, recear a inovação e a criatividade. Pelo contrário, fomento-as e procuro incluí-las (com bom senso e orientação adequada) em todos os aspectos da minha vida.

Convido persistentemente as várias equipas com que trabalho a sugerirem novas abordagens, novos eventos, novas formas de nos aproximarmos uns dos outros e de potenciais clientes e tem-me surpreendido positivamente a riqueza das propostas recebidas. Propostas que, uma vez discutidas e consensualmente aceites, passam a ser um projecto comum a várias equipas, envolvendo o maior número possível de pessoas que se deixam apaixonar pelo projecto.

EQUIPA RAINBOW PORTUGAL

Mulher e empresária, é também mãe de três filhos. É preciso ser-se uma supermulher para se conseguir conciliar todos os papéis que são inerentes a uma mulher?

Para mim, esse conceito de supermulher ou super-homem é discutível. Não se é “super” quando se luta esforçadamente para atingir os objectivos materiais, emocionais e afectivos que qualquer ser humano se propõe. Pensar que ser mulher e mãe tem necessariamente de implicar uma menor prestação profissional é falso e injusto.

O que é vital é ter uma atitude positiva perante a vida, saber ouvir os outros, aprender com os erros e ter um modelo de referência a seguir (ou vários, conforme a área da vida de que estamos a falar). Pessoalmente, sinto-me realizada sempre que posso passar a outros a minha experiência, as minhas ferramentas, as minhas recompensas, convidando-os a fazerem o que fiz e continuo a fazer: aprender, estar atenta, decidir, agir, assumir responsabilidade pelos erros e celebrar as vitórias em que incluo com alegria e gratidão os que colaboram comigo para as obter. E isto não é nada de extraordinário: é viver com os pontos fortes e fracos de qualquer ser humano, mas com equilíbrio, prioridades definidas e um grande sentimento de gratidão pela vida em si.

É uma mulher de causas e desde sempre que se dedica ao voluntariado e a ações humanitárias. Em que projetos está ou esteve envolvida e que gostaria de partilhar connosco?

Desde a minha adolescência que me envolvo em trabalho voluntário e me dedico a causas humanitárias e filantrópicas na África do Sul, em Portugal e também nos Estados Unidos. Quer se trate de trabalhar com crianças com deficiências mentais ou físicas, de recolher bens e produtos e distribui-los em igrejas e orfanatos (muitas vezes na companhia dos meus filhos), quer de contribuir com donativos para parar com a crueldade para com os animais ou para salvar uma espécie em perigo… Envolvo-me ainda em causas ambientais, sendo muitas as vezes que adiro, com os meus filhos, a acções nesta área, como, por exemplo, plantação de árvores, promovidas por entidades e associações relacionadas com o bem-estar ambiental. A Rainbow em Portugal festeja frequentemente algumas datas significativas e, sempre que o espaço o permite, convidamos representantes de associações humanitárias, de proteção animal, e de defesa do ambiente, a quem damos oportunidades para divulgarem os seus serviços e angariarem associados.

Deixou para trás os seus estudos em psicologia infantil e uma carreira como modelo. Olhando para trás mudaria alguma coisa no seu percurso?

Deixar para trás não significa para mim esquecer o que já aprendi e continua a enriquecer a minha vida como pessoa. Não perco muito tempo a pensar no que ou se teria feito de diferente; o passado é uma bagagem preciosa para me ajudar no presente a preparar o futuro.

Ao rever o meu percurso de vida, é surpreendente que os meus primeiros grandes feitos tenham tido a ver com concursos de beleza… Agora sou essencialmente uma gestora de mulheres e homens que confiam em mim e que respeito e admiro pelo seu empenhamento. Tomo diariamente decisões que envolvem, em Portugal, a marca mundialmente conhecida Rainbow. O sistema de limpeza Rainbow (que alguns chamam, erradamente, aspirador) é comprovadamente o melhor produto de limpeza e purificação doméstica, recomendado por muitos médicos e instituições como a Fundação do Pulmão, em Portugal e algumas associações americanas, como, entre outras, a Asthma & Allergy Foundation, a Association of Home Appliance Manufacturers e a The Carpet and Rug Institute, Inc. Temos mais de 290 mil clientes em Portugal, mais de 400 agentes autorizados e
14 distribuidores independentes, sendo sobre este mundo que eu e as minhas equipas nos focamos diariamente. É neste imenso mundo que me é permitido exercer a melhor das lideranças que é, para mim, aquela que não implica autoritarismo nem prepotência, mas comunicação e interacção constantes, independentemente do género, idade ou etnia.

É uma oradora influente e gosta de promover o bem-estar. Que mensagem gostaria de deixar às nossas leitoras para as suas vidas profissionais e pessoais?

Como diz Stephen Hawking “temos de aceitar de uma vez por todas que não é o género com que nascemos que nos define como pessoas, quer relativamente às nossas capacidades quer relativamente ao nosso papel na sociedade”. Uma sociedade mais paritária é mais justa, mais equilibrada e, obviamente, mais competitiva. Por isso, não se deixe armadilhar por dogmas, que é o mesmo que viver segundo os pensamentos de outros. Não deixe que o barulho das opiniões dos outros abafe a sua voz interior.

Por fim, nunca deixe que a validação dos seus actos dependa do facto de ser mulher. Nem os bons nem os maus resultados podem ser explicados pelo género, mas pelas escolhas informadas que cada um faz, homem ou mulher. A nossa vida é plena de escolhas. Acredito que todos somos inteira e igualmente responsáveis pelas nossas vidas, pelas decisões que tomamos e pelas consequências dessas decisões. Também acredito que podemos evitar muitos erros na vida, se nos organizarmos e tivermos a noção das prioridades. Uma coisa espantosa que a vida tem é que está em constante mudança. As prioridades que se estabelecem hoje podem ser completamente diferentes amanhã ou daqui a uns meses… Por isso, frequentemente, pergunto a mim própria o que é importante, o que é que me proponho fazer, que projecto me está a apaixonar, como posso ser a pessoa que sempre quis ser. Estou a avançar para deixar o legado que pretendo deixar? Mantenho os meus valores e as minhas prioridades? A minha saúde, a família, a carreira, a segurança financeira, a minha vida espiritual, a interacção com os outros?

Para levar uma vida equilibrada, preciso de saber o que é mais importante para mim e em que momento. É por isso que tenho de me concentrar nas coisas certas. As que me ajudam a concretizar os meus objectivos, entre os quais ressalta a minha parte de responsabilidade na gestão de uma marca com o prestígio mundial da Rainbow. É deste equilíbrio que resulta a capacidade de incentivar as várias equipas (vendas, marketing, assistência, etc.) – e dar-lhes meios – para manterem Portugal, desde 1996, entre os 3 países de todo o mundo com mais unidades vendidas por mês e por ano.

É desta forma simples e universal que entendo a liderança. Ao fazê-lo, sinto uma grande paz, uma grande harmonia e um grande equilíbrio na minha vida, e, ao mesmo tempo, que estou ligada aos que me rodeiam, ao universo.

*Este artigo não foi redigido segundo o novo Acordo Ortográfico