Quem é Talita Brito e que história pode ser contada sobre si?

Eu nasci em São Paulo, tive uma infância muito feliz, na interior cercada da família que sempre apoiou os meus sonhos de infância: ser empresária, ser diplomata, trabalhar todos os dias de fato e ter um carro preto e um azul (risos). A relação com meus pais sempre foi muito próxima e de extrema confiança, eles sempre me diziam: você pode ser o que você quiser. O mundo é seu. E eu acreditei.

Tive meu primeiro negócio aos 16 anos, uma loja itinerante de aluguer de trajes para festas temáticas e depois não parei mais. O empreendedorismo sempre me fez sentir viva e nessa época eu senti em mim aquilo que todos já apontavam desde os meus sete anos: Essa menina tem tino para liderança. Conclui o curso de economia aos 21 anos e nessa altura já tinha concluído três especializações, indo diretamente lecionar no ensino superior em universidades de Minas gerais e São Paulo. Doutorei me em estratégia em Portugal, onde vivi durante 14 anos atuando na atividade empresarial primeiro com a direção de uma rede de franquias e também na equipa de direção da implementação do BNI em Portugal. Naquela altura, tinha somadas 12 especializações que hoje complementam a minha área de conhecimento. Há 10 anos fundei a empresa que hoje tem 23 representações divididas entre Europa, África, América do Sul e mais recentemente Ásia.

Enquanto Mulher, quais são os princípios e valores que a movem a nível profissional e pessoal?

Transparência, respeito e reciprocidade, são os valores dos quais eu não abro mão seja a nível pessoal ou profissional. Uma das coisas que costumo dizer é que o maior cuidado que temos de ter na vida é não acreditar que temos mais a ensinar do que a aprender. O excesso dessa autoconfiança pode nos iludir e consequentemente nos fragilizar. É preciso respeitar a experiência de quem está a anos no mercado, mas também é preciso respeitar o conhecimento adquirido de quem apesar de menos idade ou tempo de carreira, dedicou-se a aprender e a investir em conhecimentos específicos. A forma como agimos a nível profissional está 100% associada ao nosso comportamento profissional. Observe alguém dentro de sua casa, como ela trata os pais, os irmãos, o marido a esposa os filhos e terá um espelho dos valores profissionais que essa pessoa carregará para dentro da organização. Eu tive uma grande sorte de crescer numa família que me ensinou que apesar de qualquer coisa sempre temos de dizer a verdade e nunca nos abandonar e tive a dupla sorte de casar com um marido que cresceu com esse mesmo valor. E nosso lema familiar é “Ohana”. Ohana significa família e família significa que ninguém fica para trás. Esse é um valor que tem um tremendo resultado quando levado para as organizações, porque assegura e fortalece o sentido de equipa

Acredita que atualmente as mulheres vêm conquistando o seu papel na liderança de empresas, movimentos e grupos, de forma consistente? O que ainda falta para que este cenário seja ainda mais evidente?

Cada dia mais. Esse papel notoriamente vem sendo ocupado por homens ao longo de várias décadas. Com a saída da mulher para o mercado de trabalho, seja por necessidade ou por vontade, começamos a mostrar uma forma diferente de fazer o mesmo que somados a nossa capacidade incontestável de realizar várias tarefas ao mesmo tempo, começou a demostrar uma vantagem competitiva na liderança de empresas, principalmente naquelas maiores e departamentalizadas. Se observar as maiores empresas com lideranças femininas, vai ver que essas tem menos assessores para entregar o mesmo trabalho do que uma liderança masculina. Essa “economia” provocada pelo efeito multiplicador da mulher é muito atrativa nas organizações.

Sente que hoje as Mulheres são vistas de forma diferente pela sociedade? O que mudou? Alguma vez sentiu dificuldades no seu percurso profissional pelo facto de ser Mulher?

Sim. Hoje somos vistas com mais aceitação principalmente no mercado europeu, que deixou de ser tão restritivo às mulheres. Mudou a forma de enxergar, mudou o modelo estratégico de gestão de empresas, hoje focado nas pessoas e nos seus contributos e resultados. Eu já comecei minha trajetória como empreendedora, desenvolvi carreira académica, dirigi redes de centenas de unidades e sinceramente todas as vezes que tentaram impor alguma dificuldade eu me lembrava do que diziam meus pais: o mundo é seu… e por nunca duvidar disso eu nunca me deixei intimidar. Essas dificuldades sempre acabam por se impor quando estamos a nadar em mares tradicionalmente masculinos, como são os mares que eu nado (risos). Atualmente, presido a Câmara de Comércio Europeia no Brasil e presido e dirijo pessoalmente meu grupo empresarial onde negociamos commodities como soja, açúcar e partes de frango para todo o mundo, ambos mercados em que 98% dos dirigentes são tradicionalmente homens e acabamos por ter de nos adaptar para não ferir suceptividades e assim temos conseguido alcançar os resultados propostos, respeitando quem criou o mercado e sempre buscando aprender algo, pois no final do dia o que vai importar mesmo é fazermos o melhor que pudermos, da melhor forma com aquilo que temos em mãos.

Sente que o novo modelo estratégico de gestão de empresas que é mais focado nas pessoas veio ajudar a esta realidade de uma liderança mais feminina?

Sem dúvidas, mesmo porque esse novo modelo foi inspirado na capacidade feminina de unir, agregar e dividir.

O que podemos esperar de Talita Brito para o futuro? O que ainda pretende “conquistar”?

Uma líder que continuará a desbravar os mercados em busca do crescimento de sua equipa, carregando com honra a alcunha de rainha do frango (risos) (por causa das exportações de partes frango que fazemos para todo o mundo). Uma mulher e profissional que jamais desistirá daquilo a que se propõe fazer, que não abre mão do controle das suas operações mas que coloca sempre em primeiro lugar a família. Porque o trabalho, as empresas, os títulos isso tudo um dia passa, a família não. Para o futuro, pretendo estar entre as 100 maiores exportadores de commodities, criar a fundação ductus – lideranças para o futuro (ductus significa liderança em latim) e abrir 20 novas delegações da câmara europeia em todo o mundo, nos próximos 2 anos.