O seu percurso profissional teve início em 1994, tendo desempenhado funções de Diretora Financeira em áreas de influência da nossa economia como na indústria automóvel e construção civil. Explique-nos as razões que a levaram a escolher segmentos tão distintos?

Na verdade não fui eu que escolhi, os convites surgiram e como gosto de desafios, aceitei!

O primeiro convite surgiu quando era muito nova, o segundo surgiu quando tinha filhos muito pequenos, em ambas as situações poderia ter recuado, mas isso não faz parte do meu perfil. Gosto de desafios, e a aprendizagem na indústria automóvel foi muito importante no meu percurso profissional.

De que forma é que esse percurso tão distinto e multifacetado a fez crescer enquanto líder?

As áreas são distintas, mas têm uma coisa em comum, são negócios onde os líderes são homens. Quando uma mulher chega e assume uma função de chefia, é obrigada a fazer mais e melhor, isso faz crescer qualquer um. Estamos a falar de situações vividas nos anos 90, se hoje em dia ainda nos confrontamos com situações destas, pode imaginar como foi nessa altura. Fez de mim a líder que sou hoje, sem dúvida.

Que análise perpétua no âmbito da Liderança no Feminino em Portugal?

A percentagem de mulheres com acesso ao ensino superior proporcionou um natural aumento da liderança no feminino em Portugal. Por outro lado, a mentalidade dos nossos empresários e gestores tem mudado, o que ajuda também os casos de sucesso das empresas que têm líderes femininos.

Sente que o cenário atual ainda perpetua diversos obstáculos no que concerne a uma mulher chegar a uma posição de liderança?

Não sei se lhe chamaria obstáculos, mas nós mulheres, mesmo quando temos uma função que exige tempo e disponibilidade, temos ainda que ser excelentes mães, mulheres, gestoras familiares. Nada nos é facilitado. É preciso ter muita atitude, não desistir ao primeiro desafio, e se tem a certeza do que quer, tem de investir a 100% em tudo, pois como já referi, somos solicitadas em várias funções. Mas ainda é comum vermos mulheres a abdicarem da sua própria carreira porque o marido tem uma função de grande responsabilidade e necessita de apoio familiar, mas o inverso não é verdadeiro.

Acredita que uma mulher tem de fazer e provar mais que um Homem para chegar a uma posição de destaque no seio de uma organização?

Neste momento, penso que depende das áreas de negócio. São muitas as mulheres líderes nas áreas da publicidade e comunicação, por exemplo, que nunca sentiram qualquer entrave à sua progressão na carreira. Existem até empresas que privilegiam a sensibilidade e intuição feminina. Na minha área nunca senti qualquer obstáculo. É o rigor, a confiança e a competência que os nossos empresários precisam de sentir. No entanto, há ainda um longo caminho até que todas as áreas de negócio privilegiem o talento, empenho e dedicação, independentemente do género.

Como é a Maria João Figueiredo enquanto líder e quais as particularidades que mais a caracterizam?

É um pouco difícil descrever-me a mim própria, pois existe a líder que eu penso que sou, a que gostaria de ser e a que realmente sou! Mas posso afirmar que sou uma líder que funciono com o exemplo e a comunicação, que gosta de consultar e ouvir a equipa, e que lhes reconhece todo o mérito, tenho por hábito dizer que sem a minha equipa não sou nada. Somos atualmente 24 elementos, e quando fiz anos em abril todos eles escreveram um adjetivo, foi muito interessante sentir o que a equipa pensa de nós. Palavras como carismática, guerreira, otimista, lutadora, mulher de visão e dedicada, foram as mais utilizadas. Tenho esse quadro na parede do meu escritório.

A terminar, que conselho gostaria de deixar ao universo feminino em Portugal?

Que não escondam os seus sonhos, que arrisquem, que definam objetivos e os escrevam para os colocar em ação. Que acreditem e que procurem as pessoas certas para as acompanhar, pois só assim serão bem-sucedidas. Se vão ter medo? Claro que sim. É normal, faz parte. Mas acima de tudo tenham atitude e acreditem em vocês mesmas.