Com uma carreira profissional repartida por quatro áreas, a moda, a recessão de eventos, o protocolo e a restauração… como e quando descobriu o que queria fazer?

Para ser sincera nem sei se já descobri a minha vocação. As áreas foram-me encontrando. O que sempre quis foi ser uma profissional independente. Poder escolher quem e o que amar. Ser a dona das minhas escolhas.

Trabalho desde que me conheço. Aos 15 anos já tinha ganho o suficiente para comprar um terreno, que ainda tenho. Adoro trabalhar. Fico angustiada se não me sinto útil. Todas são tão divertidas que as sinto como hobbies.

Como é um dia normal na sua vida?

Felizmente não os tenho. Para quem gosta de aventuras, África é um prato cheio. Luanda é difícil. Apesar de ser a capital de um país rico e promissor, não se engane que é a cidade mais cara do mundo mas as infraestruturas deixam muito a desejar.

O trânsito é caótico e a distância mede-se em horas. Aproveito para responder a e-mails, pôr as redes sociais em dia e gerir a relação com parceiros e clientes. Nem me atrevo a conduzir à semana.

As constantes falhas de eletricidade e a falta de combustível obriga até a racionar o gerador. É raro termos luz 24 horas. Sem energia não há água. A gestão rigorosa do tempo e a habilidade de reajuste são uma obrigação.

Há que ter sempre um plano B. Mas, quando a atividade começa, como por magia, tudo se vai encaixando na perfeição. Apesar da alguma falta de formação, a capacidade de improviso e a solidariedade dos angolanos é fantástica. No fim tudo acaba bem ainda que muitas vezes já no plano F.

Apesar de jovem já conta com dez anos de experiência. Que história pode ser contada sobre o seu percurso?

Venho de um lugar remoto, na Bahia, onde as mulheres são quase escravas e casam ainda crianças. As meninas servem para criar os irmãos e assumir toda a lida doméstica. Aos seis anos tomava conta de dois.

Para o meu pai, comerciante, a família tinha de trabalhar por casa e comida. Por isso, aventurei-me por conta própria. Aos nove já era empreendedora. Catava vagens, pastoreava ovelhas e limpava casas de idosos a troco de sabonetes, bananas e roupas usadas. Aos 11 comecei a exigir salário e a poupar.

Como quase todas as meninas do povoado “saltei” a infância. Aos 14 «casei». Cedo descobri que não queria viver assim e fugi para Salvador. Trabalhei como babysitter a troco de abrigo.

A minha avó fez-me regressar. Voltei, mas já como revendedora da Avon. Nas férias, em Maceió, entrei nos eventos para tapar uma falha. Adorei, mas como era menor não pude ficar. Ficou o bichinho.

Assim que terminei o secundário fui para Aracaju. Adoptou-me uma mulher fantástica a quem devo muito do que sou, Vanda Gonzaga, dona da churrascaria Brasa Viva. Apaixonei-me pela restauração. Apoiada voltei a estudar. Fiz todos os cursos profissionais que consegui.

Com formação comercial e de marketing senti-me capaz de tudo e sai para São Paulo. Fui bater a uma loja onde outra pessoa fabulosa apostou em mim, Catarina Conservani, de quem ainda sou sócia na Sax Grifes. Irrequieta, acumulei a gestão da loja com o protocolo na Casting Vip.

Com a visibilidade dos eventos, surgiu a moda. O fotógrafo Thiago Drumond abordou-me via Instagram e levou-me à Allure.

Umas horas de conversa no aeroporto de São Paulo e apaixonei-me pelo meu marido. A inteligência é sexy. Fomos mantendo a relação à distância mas namorar via internet não nos chegava. Na primeira oportunidade parti para a Europa. França, Espanha e Portugal onde ficou a morar o meu coração. No Porto nasceu o meu filho.

Como ele vivia a maior parte do tempo em Luanda, vim para cá. O mercado recebeu-me muito bem. Optei por me estabelecer como freelancer. Primeiro porque com um filho pequeno necessitava da flexibilidade, depois porque escolhendo a parceria certa para cada cliente podia servi-los melhor. Consegui que as empresas vissem o freelancer como um sócio dos seus negócios. Os projetos crescem mais rápido quando entendemos o outro como igual.

Ser mulher é uma mais-valia nas áreas em que trabalha? Porquê?

Apesar de ter nascido no século XX, cresci num lugar onde as mulheres não têm direito à auto-estima. Os homens, pouco cultos, impõem o estatuto. Às meninas é vedado o acesso à educação e as que querem evoluir são muitas vezes vítimas de violência.

Hoje vivo num mundo onde se premeia a dedicação como uma característica de um bom profissional que vai além da mera questão sexual.

Enquanto empreendedora que mensagem gostaria de deixar a quem vai ler a sua entrevista?

Tudo depende de si. A nossa ação surge do que consideramos importante. Só temos de vencer a barreira psicológica que nos impede de encarar desafios.

Tive muitos dias confusos, vazios. Nasci num país onde a violência contra a mulher é genericamente aceite. Há as que se conformam e as que, como eu, não. Para chegar onde a maioria não chega, é preciso fazer o que a maioria não faz. Foi difícil, mas só quando sai da minha zona de conforto é que me permiti ser feliz.