Iniciou o seu percurso profissional numa multinacional, tendo passado por vários tipos de empresa e diferentes funções, como a formação, a organização de eventos e a consultoria. Explique-nos como foi trabalhar em segmentos tão distintos.

Este meu percurso diversificado foi um processo natural, pois comecei a trabalhar muito jovem, para prover aos meus estudos. A minha primeira experiência corporativa deu-se, mal entrei na maioridade, com a sorte de ter sido acolhida por uma multinacional de referência (Xerox), onde pude aprender com os melhores.

As minhas melhores escolas foram, sem dúvida, as grandes organizações (a passagem pela farmacêutica Merck foi outra experiência deveras desafiante), mas convivi com uma pluralidade de empresas, quer fazendo parte da estrutura, quer na qualidade de formadora.

A formação constitui, claramente, uma grande parte da minha vida. Teimo em dizer que ser formadora não é a minha profissão, ainda que a ela me dedique de há vinte anos a esta parte. Dar formação é, para mim, uma mistura de um arte, missão e vício.

A gestão da formação foi uma inevitabilidade: há muito que nela intervinha de forma não oficial, quando aceitei dirigir um centro de formação na área do turismo. Compreender as necessidades das empresas; desenhar soluções de desenvolvimento das suas pessoas; selecionar e apoiar os formadores ao longo do processo pedagógico, de modo a garantir o sucesso dos projetos, é algo que faz todo o sentido para mim.

Trabalhar na Fórmula do Talento, o meu mais recente projeto, ofereceu-se-me como uma oportunidade de integrar a formação numa lógica mais ampla, a do desenvolvimento do capital humano, a minha grande área de interesse.

De que forma é que esse percurso distinto e multifacetado a fez crescer como líder, e quais as particularidades que melhor a caracterizam como tal?

Líder? Quem andou a dizer uma coisa dessas…? (Risos)

Se algum tipo de liderança exerço, será, porventura, uma liderança pelo exemplo.

Na formação, imodestamente, admito que sim, que poderei ser uma referência para alguns. A qualidade da formação é a minha luta. Sempre fui muito crítica e, confesso, algo contestatária.

E sou igualmente exigente na seleção de formadores, inclusive colegas com quem mantenho relações de amizade. É a minha forma de dar o melhor à comunidade no que respeita à aquisição de novas e efetivas competências.

Um líder deve ser capaz de orientar pessoas e de extrair o melhor de cada qual, ter o dom da comunicação, forte senso de justiça, capacidade de inspirar e transmitir confiança, de promover o crescimento e incutir responsabilidade. Obviamente, sou uma mera aprendiz de feiticeira, mas todos estes são valores que me perfazem.

Nas equipas que liderei, quer em contexto pedagógico, quer corporativo, sempre apostei na complementaridade, procurando saber fazer o que os outros fazem e que estes saibam fazer o que eu faço. Perfila-me, sobretudo, o estilo colaborativo.

Em 2013 foi reconhecida com o Prémio Formador do Ano. De que forma este reconhecimento influenciou o seu trajeto profissional?

A visibilidade que isso me trouxe não terá sido tão significativa assim. Era o primeiro congresso nacional de formadores, longe ainda da notoriedade que hoje tem. Mas confesso que foi delicioso assistir ao orgulho e ao afeto dos meus formandos e ao respeito e carinho dos meus pares. Esse sim foi o maior prémio.

Uma consequência interessante é que o mercado passa a ter um certo receio de que pratiquemos honorários avultados. Mas como já antes não era low cost, não mudou grande coisa.

Outra, é o rótulo que recai sobre o profissional: como se custasse a entender que um formador não tem que ser só formador. Na minha opinião, na maioria dos casos nem deverá sê-lo, e sim um profissional com uma robusta experiência prática na sua área de especialização.

Na verdade, ser reputado como especialista de formação pode ter tanto de positivo como ser condicionante. Fica por vezes difícil convencer o mercado de que não sirvo só para formar e treinar pessoas, conceber ações e gerir processos, quando há muitas coisas para as quais considero que tenho jeito e que me fazem feliz, sem ser o que faço ou o que já fiz.

Sente que uma mulher tem de fazer e provar mais do que um homem para chegar a uma posição de destaque no seio de uma organização?

Estamos muito longe do desejável no que diz respeito à paridade entre géneros, é um facto. Estudos apontam para um claro desfasamento nomeadamente quanto à atribuição de responsabilidade e à remuneração, de entre outras dimensões. É notória, porém, uma evolução, e em algumas áreas profissionais as diferenças são menos flagrantes. Depende também de múltiplos fatores, de entre os quais o tipo de função em causa e, lamentavelmente, a vida privada das profissionais. A maternidade, por exemplo – porventura o mais exigente tipo de liderança que se pode experimentar – continua a ser penalizada. Seja como for, as mulheres são realmente uma força da natureza, capazes de superar o desgaste (físico e emocional) que tantas vezes as acomete. Auguro tempos mais justos e equitativos.