Fomos descobrir que trabalho tem sido desenvolvido pelo grupo laboratorial em torno da medicina de precisão e o que a distingue da medicina baseada na evidência, assim como quais são os seus princípios e que descobertas dela têm resultado.

Em tempos, chegou a diretor de serviço dos Hospitais Civis de Lisboa, quando os hospitais que integravam aquele icónico grupo hospitalar ainda não se tinham separado. Era ainda muito jovem, com apenas 38 anos, algo quase único, uma vez que a idade “normal” para se alcançar tal cargo rondava os 50 e poucos anos. Por ter sido dirigente estudantil em Coimbra nos anos 60 a PIDE proibiu-lhe a entrada nos hospitais. O 25 de Abril de 1974 foi um dos dias mais felizes de toda a sua vida.

No pós 25 de Abril o Sistema Nacional de Saúde era algo ainda pouco estruturado e com poucas condições. Neste início de conversa começámos por falar um pouco sobre a história do Sistema Nacional de Saúde e de que forma a vida de Germano de Sousa se encaixa na história da saúde portuguesa.

Em Portugal, no início da década de 70, o sistema de saúde português estava fragmentado, com grandes hospitais do Estado em Lisboa, Porto e Coimbra, uma rede de hospitais das Misericórdias, postos médicos dos Serviços Médico Sociais da Previdência; Serviços de Saúde Pública, etc entre outros. A capacidade de financiar os serviços públicos da saúde era muito limitada e a despesa com a saúde era de 2,8% do PIB. Os médicos tentavam adaptar-se às limitações económicas no setor e à debilidade financeira das instituições públicas, algo que hoje é difícil de imaginar…

A revolução do 25 de Abril de 1974 e a nova Constituição de 1976 mudaram Portugal profundamente – surgiram novas medidas políticas sociais – como a criação de um Serviço Nacional de Saúde, que na época tinha como principal objetivo dar uma resposta adequada às necessidades dos serviços de saúde. A nova constituição estabelecia que “todos têm direito à proteção da saúde” e que por isso surgia assim “a criação de um serviço nacional de saúde universal, geral e gratuito”.

Germano de Sousa por esta altura estava já integrado na Ordem dos Médicos e fez parte de todo este processo. O trabalho da Ordem fez com que o Estado contratasse os médicos, que, por sua vez, aceitavam trabalhar a partir dos seus consultórios privados a preços reduzidos – as chamadas convenções – desta forma todos os utentes teriam acesso a cuidados de saúde gratuitos, pagos aos médicos convencionados os actos médicos praticados, a preços socialmente justos. “Foi assim que o SNS se aguentou durante os primeiros anos após o 25 de abril, baseou-se na convenção”, explica o médico.

A evolução médica foi acontecendo naturalmente e, por volta de 2002, Germano de Sousa, que já tinha o seu laboratório privado, conta que começaram a aparecer grupos estrangeiros interessados em comprar laboratórios portugueses. “Dei por mim com a necessidade de perceber se me vendia ou se fazia frente àqueles gigantes”. Reuniu-se com os dois filhos, também ambos médicos, e juntos decidiram seguir em frente, apenas munidos de coragem. “Os primeiros tempos não foram nada fáceis! Mas conseguimo-nos aguentar e até há bem pouco tempo graças a um crescimento orgânico tornámo-nos um dos maiores grupos laboratoriais do país”. Orgulha-se e com todo o mérito, de o seu grupo laboratorial ser 100% português: é pertença exclusiva de médicos portugueses e apenas com capital português. Esta é portanto, uma casa portuguesa, com certeza!

Medicina de precisão

“Hoje, o meu laboratório está presente por quase todo o país, além disso, procurei que tivéssemos um número suficiente de médicos para prestar o apoio necessário, ou seja, mais do que serem especialistas naquilo que fazem, temos 24 médicos a trabalhar connosco que fazem também consultoria dos nossos colegas clínicos para discutir diagnósticos, casos clínicos…Isto permitiu-nos alcançar um nível de excelência único e conquistamos a confiança dos nossos parceiros. A história da minha vida foi sempre esta: quanto mais conhecermos melhor dominamos a doença. Esforcei-me sempre por estar na vanguarda daquilo que se faz na medicina, acredito que só assim é possível evoluir. Tive que acompanhar toda a recente revolução que houve na medicina”. Conta-nos Germano de Sousa sobre a revolução a que se refere: “Com a descodificação do genoma humano por volta de 2002/2003, começámos a perceber que cada vez mais haviam doenças que só tinham explicação a nível molecular e que, na realidade, cada pessoa tem as suas próprias características. Ou seja, cada pessoa precisa de ser estudada de forma individual”.

O cancro é uma doença genómica, ou seja, originada pela alteração dos genes, em que alterações no ADN das células do tumor causam a multiplicação desgovernada das células com comportamentos invasivos que originam a metastização, e resistências a fármacos que geram ineficácia do tratamento. Neste campo a medicina de precisão tem tido um papel de extrema relevância e de revelação uma vez que hoje se entende que um cancro de qualquer órgão, tem variados tipos com diversas alterações  genómicas. Assim como cada pessoa é única, um cancro também o pode ser. O que a medicina de precisão ou personalizada se propõe a fazer é adequar a terapêutica a cada tipo de tumor de acordo com as alterações do seu ADN tumoral.

“Hoje é possível estudar em cada tumor o seu tipo de alteração molecular, a qual condiciona algo mais: possibilidades terapêuticas, permitindo-nos ver e perceber as existências de mutações, de fusões… de modo a oferecer aos médicos e doentes respostas baseadas nas recomendações dos colégios internacionais e nacionais da especialidade quanto à terapêutica ideal para aquele tipo de tumor”, explica o médico.

Até há pouco tempo, fazia-se quimioterapia para destruir as células cancerígenas, muitas vezes não havendo a capacidade para se fazer a diferenciação suficiente para determinar a que seria mais adequada a cada tipo de tumor e é isto que a medicina de precisão vem exatamente fazer: personalizar. Com isto, Germano de Sousa diz que podemos ir mais além, porém alerta que há ainda um longo caminho a percorrer e, sobretudo, há situações que são muito difíceis de resolver. “Estamos a dar os primeiros passos. Mas já existe algo que foi fundamental, e no qual fomos pioneiros em Portugal: o diagnóstico não invasivo por  biópsia líquida”.

 Biópsia Líquida

As células dos tumores também morrem e por isso entram na corrente sanguínea sob a forma de ADN e esse ADN pode ser isolado no sangue circulante. Ou seja, numa colheita de sangue, normal, há agora a possibilidade de se fazer uma biópsia através de uma mera colheita de  sangue. Na área da medicina molecular este é um salto enorme, porque apesar de em biópsias ditas tradicionais as pessoas serem anestesiadas, o processo é invasivo e moroso. Além disso, a biópsia líquida tornou possível acompanhar a evolução do tumor de forma mais rápida e perceber se a terapêutica prescrita está a funcionar ou não. Apenas com uma amostra de sangue, e de forma menos invasiva, é possível fazer a identificação e análise de pequenos fragmentos de ADN libertados pelo tumor na corrente sanguínea, permitindo ao médico compreender que mutações genéticas estão na sua origem, definindo o tratamento mais adequado para o paciente. É a chamada “oncologia de precisão”, constata Germano de Sousa. Contudo, o médico continua sempre a ser “o decisor”, pois a análise, apenas “aponta o caminho”.

Nos Laboratórios Germano de Sousa também fazem consultas de avaliação genética para o risco de cancro hereditário. Porém só são realizados testes genéticos para o despiste desse risco se tal for considerado necessário pelo especialista em genética clínica que faz a consulta de avaliação.

“Apesar de estarmos a dar os primeiros passos, já são muito relevantes. Tem, por isso, sido uma evolução fora de série e inesperada. Há avanços grandes e muito significativos.”

 “Os médicos têm feito um esforço enorme para acompanharem a ciência que tem evoluído a largos passos, todos os dias tenho de ler artigos, tenho de ir a congressos, sinto-me na obrigação de estar constantemente a estudar porque só assim é possível acompanhar o processo de evolução. Todos os meses surgem coisas novas. Quer do ponto de vista profissional, quer do ponto de vista deontológico, é nossa obrigação mantermo-nos informados”.

“Desenvolvidos por uma equipa de investigadores em bioinformática e genómica, agrupados na OPHIOMICS, uma empresa de investigação e desenvolvimento integrada no Centro de Medicina Laboratorial Germano de Sousa, estes testes estão hoje disponíveis, exclusivamente, para todo o país, no laboratório de genética deste Centro, colocando-o na linha da frente dos avanços da medicina de qualquer país desenvolvido e de avançada tecnologia. Contudo, existe ainda um longo caminho a trilhar no que à implementação sistemática desta nova abordagem diz respeito, de modo a torná-la, a baixo custo, acessível a todos os doentes.”

100%

Orgulha-se e com todo o mérito, de o seu grupo laboratorial ser 100% português: é pretença exclusiva de médicos portugueses e apenas com capital português.

O que nunca poderá mudar?

 “Os princípios éticos não podem ser desrespeitados: a vida humana, que é sagrada, nunca fazer mal ao doente e o sigilo profissional, sempre. Isto define o que é ser médico e não pode jamais ser alterado”.