Indústria do calçado: produção de referência a nível mundial

Quando falamos sobre a indústria do calçado portuguesa, Maria José Ferreira, Diretora de Investigação e Qualidade do CTCP – Centro Tecnológico do Calçado de Portugal – diz-nos que “Portugal dá cartas a nível internacional”. Venha connosco saber mais.

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Como descreve a atual indústria do calçado portuguesa, sob um ponto de vista nacional e internacional?

A Indústria de calçado portuguesa é hoje uma indústria moderna, que promoveu uma revolução tecnológica interna, desenvolvendo e adotando as mais avançadas tecnologias de conceção, corte, fabrico e venda de calçado.

Uma indústria que produz calçado moda e calçado técnico muito diferenciado para todo o tipo de faixas etárias e tipo de aplicações. Produzimos calçado bonito, confortável, apelativo, com qualidade e uma correta relação preço- desempenho.

Utilizamos materiais avançados, componentes funcionais e tecnologias automáticas nacionais.

O calçado nacional, assim como estas inovações tecnológicas são hoje exportadas para todo o mundo.

Portugal é reconhecido mundialmente como produtor de referência de calçado de couro, disputando os lugares cimeiros com Itália.

Os inovadores materiais e tecnologias e calçado que propomos aos nossos clientes são customizados e ajustados às suas necessidades e desejos, contribuindo para a sua satisfação e fidelização.

A indústria mais sexy viu reconhecida a sua excelência no prémio europeu de promoção empresarial na categoria de apoio à internacionalização das empresas, em 2013.

Quais foram as novidades mais significativas no setor na última década?

Em termos de produto destacam-se a aposta nas marcas próprias e em produtos de moda, sofisticados e high-end (verdadeiras joias para adornar os pés), a par com calçado em materiais nobres (couro) com acabamentos naturais, fashion ou luxuosos, com formas e solas, que associam estética e conforto.

Verificou-se também uma forte aposta em produtos técnicos, por exemplo, para golfe, área médica, “trekking” ou segurança, que associam conhecimento e moda.

Foi também criada uma linha de calçado que não incorpora materiais de origem animal, visando uma faixa de consumidores ou aplicações específicas, criando soluções que surpreendem pela beleza e funcionalidade.

Em termos de materiais e componentes salienta-se a aposta em composições e processos realmente amigos do consumidor, do trabalhador e do ambiente.

O cluster do calçado decidiu colateralmente que a sustentabilidade e responsabilidade social eram desígnios, traçando objetivos e executando ações, que culminam na criação de novos materiais e eco produtos, nomeadamente isentos de substâncias químicas críticas, produtos biodegradáveis, sem metais ou incorporando substâncias de origem natural.

Complementarmente, desenvolveram-se materiais mais leves e flexíveis, materiais com excelente resistência ao desgaste, à água, ao escorregamento, à radiação solar, micróbios ou contaminantes químicos.

Relativamente às tecnologias destaca-se a aposta em soluções automáticas, robotizadas, sonorizadas e interligadas via internet.

Portugal dá cartas a nível internacional nos sistemas de corte por jato de água e por faca, nos sistemas de movimentação de materiais e calçado em curso de produção e nos sistemas de desempenho (CAD) interligados com soluções de apresentação dos produtos e suporte à sua comercialização.

Que papel tem tido o Centro Tecnológico do Calçado de Portugal no que diz respeito a conceitos como inovação e investigação para indústria?

O Centro Tecnológico do Calçado de Portugal (CTCP) tem uma extrema proximidade com as empresas e com todos os intervenientes deste setor a nível nacional e internacional o que nos permite identificar necessidades e oportunidades atempadamente.

Em paralelo mantém relações excelentes com o meio científico, trabalhando em parcerias com as principais universidades e institutos (entidades de I&DT) localizados, desde o Porto, Aveiro, ao Minho até Bragança, o que resulta na identificação do conhecimento e das tecnologias emergentes que poderão depois devidamente desenvolvidas ter maior potencial de se transformar em soluções para os desafios e oportunidades em inovações valorizadas economicamente.

O cluster de IDT do calçado, coordenando pelo CTCP, envolve cerca de 20 entidades do SCT,20 empresas de base tecnológica (produtoras de materiais e componentes, bens de equipamento e software) e 30 empresas demonstradoras (calçado, marroquinaria e componentes) e realizou nas duas últimas décadas mais de 50 projetos, que resultaram em cerca de 150 novos equipamentos, 100 materiais e componentes, 40 produtos multimédia, estudos setoriais e manuais técnicos e Software para áreas de qualidade, produtividade e certificação.

O CTCP tem competências de coordenação de projetos de desenvolvimento de materiais, calçado e tecnologias de teste, corte e produção.

Consultar mais informação em: https://www.ctcp.pt/info/email/index.asp?valores=11%7C3%7C2016%7C3665

Que iniciativas/projetos têm desenvolvido nesse sentido?

O CTCP tem promovido e coordenando projetos de I&DT colaborativos, envolvendo uma ou mais empresas e entidades de I&DT. Destes destacaria os grandes projetos mobilizadores que envolveram dezenas de co-promotores concretamente, o FATEC, FACAP, Shoemat e Newalk, nos quais se desenvolveram muitas das tecnologias e soluções, pelas quais somos conhecidos mundialmente: Por exemplo os sistemas de corte, transportadores, calçado moda.

Atualmente temos em execução o 5º projeto mobilizador, designado de FAMEST, que envolve 33 co-promotores, cujo enfoque vai para o design, a personalização, o fabrico aditivo, a industria 4.0, as vendas online, a reciclagem, a economia circular. Em suma este projeto foca-se essencialmente nas soluções do futuro.

A par deste projeto realizaram-se projetos mais pequenos de I&DT, mas igualmente importantes, dos quais podemos destacar alguns mais recentes e que tiveram um impacto bastante positivo na indústria de calçado, nomeadamente: HighSpeedShopFactory (HSSF) e Fascom onde foram desenvolvidos, no cado do HSSF um novo modelo de fábrica de calçado para resposta ágil em 24 horas, orientado para a produção unitária par a par, capaz de responder sem stocks, às vendas pela internet, às pequenas encomendas e reposições de produtos em loja e ao fabrico rápido das amostras.

Mais info: https://www.ctcp.pt/info/email/index.asp?valores=11|2|2016|3632

Enquanto que, no âmbito do FASCOM, foram criadas novas ferramentas que possibilitam uma produção flexível, eficiente e eficaz e permitem responder de forma rápida às tendências e preferências dos consumidores.

Mais info: https://www.ctcp.pt/info/email/index.asp?valores=11|2|2017|3829

Na execução destes projetos tem sido essencial o apoio dos programas de apoio nacionais como o COMPETE, QREN, Portugal2020, bem como programas de apoio Europeus como Horizonte 2020, fundos europeus e FEDER.

Como suporte a esta atividade de I&DT e CTCP realiza projetos de inovação à medida e ações de divulgação regulares. Neste momento temos em curso um programa de disseminação difusão, demonstração e transferência de conhecimento na fileira do calçado: PROSHOE. Uma iniciativa que conta com o apoio do Norte 2020, que teve início em 2016 e prolonga-se até meados de 2018.

A indústria do calçado continua a afirmar-se como uma das que mais contribui para a balança comercial nacional. Esta é uma tendência que se irá manter?

A internacionalização, concretamente as exportações, vão continuar a estar no topo das nossas prioridades. A APPICAPS promove e lidera as campanhas de marketing e internacionalização do setor, promovendo a participação das empresas em mais de 60 feiras por ano. Desde o segundo semestre de 2016 até à data o setor concretizou 750 participações de empresas em 70 feiras no exterior com um investimento na ordem dos 16,7 milhões de euros em feiras internacionais. O que contribui para a exportação de mais de 95% do que é produzido em Portugal para mais de 150 países.

Todo o trabalho de I&DT e inovação desenvolvido pelo CTCP que fui referindo, visa a diferenciação e diversificação, para suportar a capacidade exportadora com valor acrescentado. Em paralelo, o Centro Tecnológico abastece o setor na qualificação dos recursos humanos e na atração e sedimentação de novos valores em áreas como o design, tecnologia dos materiais e processos, informática, línguas, vendas, marketing, entre outros.

As estratégias de internacionalização, inovação e qualificação são antecipadas, planeadas, estruturadas e utilizadas em planos de ação estratégicos, que são acompanhados e modelados durante a sua execução. São já sete os planos/”road maps” realizados pelo setor/cluster, podendo afirmar-se que tem perseguido, em cada momento, uma visão adequada do futuro que tem contribuído para o bom saldo da balança comercial. Dado a experiência e o forte empenho dos dirigentes das empresas, entidades de suporte do setor e de I&DT, os planos de trabalho já lançados, estão reunidas as condições para o trabalho permanente progredir com o objetivo de manter e aumentar as exportações.

Internacionalmente, na sua opinião, como é avaliado o trabalho português no calçado?

Creio que o setor do calçado se transformou. A indústria dos modelos standard em azul, castanho e preto deu lugar a um jardim colorido com materiais, produtos e tecnologias de todas as formas, para todos os gostos, feitios e aplicações. Os líderes associam agora a intuição, conhecimento do produto e produção com novas e avançadas formas de gestão e venda. A força de trabalho era reconhecida pelas suas capacidades manuais e de perfeição, a par do “desenrasque”. A estas juntam-se agora os conhecimentos de novos materiais, processos de produção e comercialização. Os trabalhadores e atores deste setor assistem com frequência a seminários, conferências de formação e qualificação, atualizando-se e evoluindo permanentemente. Viajam por todo o mundo e as suas competências e capacidades são reconhecidas mundialmente, traduzidos por exemplo na seleção dos nossos produtos, que são os segundos mais caros do mundo preferidos pelos consumidores internacionais.