Jovens, sexo, álcool e drogas: Cada vez pior? Cada vez melhor? Ou antes pelo contrário?

Os jovens estão muito mais escolarizados e mais saudáveis do que há 40 anos e com muito melhor acesso à saúde e à educação. A sociedade portuguesa está muito mais cosmopolita e convivial com a diversidade, recebendo-a mais frequentemente como um desafio e uma janela de oportunidade e não como uma ameaça.

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Desde que me conheço (e suspeito que já acontecia bem antes), esbarro com esta tendência histórica que empurra as gerações numa querela estéril sobre “tudo estar melhor” ou “tudo estar pior”, nesta ou naquela geração.

Estes mapas cognitivos que apenas permitem o “tudo” e o “nada”, o “sempre” e o “nunca”, o “todos” e o “ninguém”, sempre me perturbaram o raciocínio. Como se fosse possível retirar completamente os factos dos contextos, das situações, das épocas e reduzir a certezas firmes, asserções que incluem tanta complexidade e incerteza.

As boas notícias são que, por muito estranho que isso pareça, os portugueses estão em geral mais instruídos, vivem melhor e têm mais saúde, acompanhando deste modo uma trajectória europeia.

Os jovens estão muito mais escolarizados e mais saudáveis do que há 40 anos e com muito melhor acesso à saúde e à educação. A sociedade portuguesa está muito mais cosmopolita e convivial com a diversidade, recebendo-a mais frequentemente como um desafio e uma janela de oportunidade e não como uma ameaça. Isto falando da cultura, da religião, da nacionalidade, da etnia, da relação homem-mulher…

Portugal atravessou uma grave recessão económica nos últimos anos, mas foi sobretudo uma facada na sua esperança, na crença da possibilidade de poder dar aos seus filhos um acesso à educação, à saúde, à justiça, tão boa ou melhor do que a sua. Atravessámos uma crise económica, mas sobretudo uma crise de confiança, uma crise de desesperança. A confiança está a ser devolvida, e com esta a esperança e a aposta num futuro.

Falando dos jovens, e falando por exemplo de homens, de mulheres e de consumos, algumas crenças que custa eliminar:

Crença:  As adolescentes (mulheres) estão a consumir mais álcool e drogas do que os adolescentes (homens).

Facto:  Há uns 20 anos os homens consumiam mais drogas e bebiam mais. Não acontece hoje as raparigas consumirem mais álcool e drogas, nestas idades mais jovens. O que se nota é uma diferença de perfil: os motivos e o padrão do consumo parecem ser diferentes, Por exemplo no tabaco as meninas tendem a fumar preferencialmente para regular estados emocionais, e os rapazes pela “acção” em si; no álcool, os rapazes tendem mais a beber durante o dia e todos os dias, enquanto as meninas mais frequentemente bebem quando saem à noite e no fim de semana (dados do estudo HBSC em 2014 em www.aventurasocial.com )

Se fizermos um estudo numa festa de “despedida de solteira” podemos até encontrar várias jovens alcoolizadas, o que não dá uma boa medida do “alcoolismo no feminino”; se formos à saída de uma discoteca às 6 da manhã de sábado teremos uma ideia incorreta do abuso de álcool e droga na população nacional.

Quando falamos de “população” jovem valerá a pena não considerar eventos que acontecem um par de vezes e que por si não marcam uma tendência, a não ser em circunstâncias muito específicas (a “queima das fitas”, as praxes, as viagens de finalistas, os concertos de verão, os eventos desportivos competitivos).  Estes eventos encerram um enorme perigo para a saúde, não só pelos problemas relacionados com as enormes quantidades de álcool e drogas consumidos, como pelos acidentes, as quedas, as brigas, os acidentes de viação e pela associação com outros comportamentos de risco (sexo desprotegido ou não consentido, condução perigosa, comportamento violento).

Crença: As adolescentes (mulheres) agora, adoptam comportamentos pouco saudáveis para se impor (aos homens).

Facto: Impor porquê? Desde há pelo menos uma década que a população estudante é predominantemente feminina e na maior parte dos empregos “regulados” há a regra do salário igual. Há realmente um tal “tecto de vidro” que faz com que as mulheres cheguem a lugares de topo na hierarquia, mas depois encontrem como que uma barreira invisível que não as deixa ir mais longe.  Esta barreira tem a ver com crenças sobre a mulher não dever ter uma posição profissional superior ao homem, mas também com realidades como a mulher trabalhar em várias tarefas em “acumulação”, chegando muitas vezes a casa à noite para ainda ir encetar o seu quarto trabalho (o seu emprego no seu local de trabalho, ser cuidadora de familiares, ser cuidadora de filhos, ser cuidadora de marido, ser cuidadora da casa, o que inclui limpar, compras, cozinhar etc.)

Este cenário parece muito anos 50 e total admiração para o facto de este modelo se conseguir perpectuar, num período onde a mudança das condições históricas e culturais o fariam naturalmente extinguir-se. A casuística clínica de que disponho sugere uma geração que, talvez para evitar a “onda de divórcios” da geração anterior, volta ao modelo anos 50 e assume que é mais fácil a mulher “ocupar-se de tudo” do que manter as discussões à volta do tema. A outra parte dessa geração não arrisca e opta por “viver só”.

Se estas mulheres abusarem do consumo de álcool e drogas (ou psicotrópicos), este abuso sugeriria uma necessidade de regulação de estados emocionais, uma necessidade de descompressão, uma cedência ocasional a algum divertimento no seu dia-a-dia, mais do que como uma “necessidade de se impor”. A prevenção do abuso do álcool e drogas no feminino teria mais a ver com uma lacuna nas alternativas de regulação do mal-estar.

Não há tal coisa como “antigamente é que era bom, ou antigamente é que era mau”: os grandes desafios sociais vão mudando e há contingências diferentes que dificilmente os torna comparáveis.

Margarida Gaspar de Matos, *

Professora Catedrática da Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa; Psicóloga; Investigadora no ISAMB/ Faculdade de Medicina / Universidade de Lisboa;

INSERM / Universidade Paul Sabatier/ Toulouse, em licença sabática com apoio da FCT.

*Escreve sem obediência ao novo acordo ortográfico.