Eu trabalho, eu descanso, eu divirto-me…

O título deste artigo não nos diz nada de novo sobre a forma como ocupamos o nosso tempo. Numa situação normal, as pessoas têm o seu emprego e as tarefas domésticas, que no seu somatório, correspondem ao tempo de trabalho. O tempo que sobra é usado para descansar ou para fazer coisas que gostam, ou seja, para se divertirem.

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Já todos ouvimos que o tempo é porventura o bem mais precioso, e uma verdade de “La Palice” é que esse tempo está à nossa disposição, bastando para tal estarmos vivos.

O que mudou foi a forma como o tempo é hoje doseado. Bem sei que a tinta que corre sobre as diferenças geracionais é abundante, de várias cores e origens. Este é, de resto, um tema intemporal, em que apenas muda a terminologia.

Todos ouvimos os mais antigos falarem “do meu tempo” ou do tempo dos meus avós”, enunciando avidamente as diferenças entre esses tempos e o tempo “desta gente mais nova”.

Mas este assunto foi ganhando relevância e contornos de análise (mais científica), sendo necessário (ou útil) criar uma classificação. E surgem os Milleanials, os Baby Boomers, etc, obrigando-nos a contar os anos de vida para percebermos onde nos encaixamos.

Voltando ao modo como o tempo é utilizado e as suas diferenças entre gerações, encontramos uma repartição das horas do dia, criando dimensões temporais bem diferentes das nossas. Há uns anos atrás, os grandes profissionais eram alcoólicos do trabalho (dito em português parece um pouco chocante, verdade?). O habitual era trabalhar durante horas perdidas, avançar noite dentro, encomendando pizzas ou comendo sofregamente as bolachas Maria que a empresa sempre tinha para acompanhar o cafezinho ou as maçãs, nas organizações que começavam a ser mais saudáveis.

E era com orgulho que víamos “o pessoal administrativo”, que tinha saído às 5 e meia, chegar de manhã, olhar para nós, um grupo de gente com o nó da gravata descaído, e ouvir-nos dizer: “está tudo feito, vou só a casa tomar um duche, mudar de roupa e preparar-me para a webcon”.

Hoje, a gente mais nova não abdica do seu tempo. Os que têm o azar de calhar numa equipa da velha guarda, olham com inveja para os seus colegas que “têm tempo para tudo”.

Já não se inveja quem trabalha 14 horas por dia; Tem-se pena.

Já não se ambiciona ter uma carreira que obriga a abdicar de uma vida com qualidade; estranha-se que alguém alguma vez o tenha feito.

Já não se está disponível para perder horas a fio a fazer coisas improdutivas, apenas porque sim. Questiona-se a lógica dos métodos.

Já não se cancelam as férias. Viaja-se e conhece-se o mundo, não aquele dos hotéis e aeroportos.

Todavia, estas diferenças não têm de ser a razão de conflitos inter-geracionais. É comum encontrar numa equipa duas ou até três gerações diferentes, a trabalhar para objectivos comuns. E as equipas de sucesso são aquelas que são lideradas por quem sabe distribuir o fundamental empowerment de modo a que cada um possa, individualmente, oferecer o seu conhecimento à equipa. Se os mais velhos têm o saber e o conhecimento da experiência, os mais novos devem beneficiar desse activo. Se os mais novos têm uma visão disruptiva e uma relação com novos instrumentos de trabalho que permitem fazer melhor o que sempre se fez, então há que lhes dar a responsabilidade de passar o seu saber.

E deixa de haver velhos e novos, actuais e ultrapassados, ansiosos e casmurros. Esbatem-se as gerações.

Eu, Geração X me assumo.

Miguel Coelho