A cultura não é um “incómodo”, mas tem de passar a ser

Um debate em Coimbra, no qual participaram alguns agentes culturais, deixou clara a necessidade de o setor se unir e de passar a ser "um incómodo" para o Governo.

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© Global Imagens

debate, que decorreu na noite de terça-feira, no Teatro da Cerca de São Bernardo, tinha como mote a pergunta ‘A cultura é um incómodo?’, numa alusão às declarações da diretora regional da Cultura do Centro, Celeste Amaro, que, em março, elogiou uma companhia de teatro de Leiria por viver “sem pedir dinheiro, não incomoda a administração central”.

“Estou completamente de acordo com a diretora regional da Cultura. A cultura não é suficientemente um incómodo e daí estarmos aqui”, vincou a jornalista Cláudia Galhós, uma das participantes.

A jornalista notou que “não há perturbação suficiente” para a cultura ser “um incómodo”, num momento em que parece não haver tutela, por tudo ser “remetido para uma lógica de finanças”.

Também a diretora da Produções Independentes e presidente da REDE – Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea, Tânia Guerreiro, sublinhou que uma forma de trabalhar “que não choca” é “nula”, defendendo uma reação do setor.

“Se a cultura não incomoda, devíamos estar incomodados e devíamos reagir”, apontou.

Para a presidente da cooperativa Bonifrates, Cristina Janicas, que estava na plateia, chegou o momento de as estruturas deixarem apenas de “espernear um bocadinho” e passarem a incomodar, numa reação conjunta.

“Está-me a incomodar que as estruturas culturais tenham optado por incomodar cada vez menos”, sublinhou.

Durante o debate, criticou-se a falta de financiamento no setor por parte do Estado, a ausência de transparência na avaliação dos projetos que se candidatam, bem como a postura que o Governo teve ao longo dos protestos contra o modelo de apoio às artes.

“O problema não está resolvido”, notou Pedro Rodrigues, da direção da Escola da Noite. Além de ter de aumentar o orçamento para a cultura, o Governo tem de “deixar-se de tiradas demagógicas e populistas que apenas reforçam a ideia da subsidiodependência”, disse.

O produtor criticou ainda a forma como o atual modelo foi imposto pelo Governo, ignorando as propostas do setor. O mesmo volta agora a acontecer, constatou, ao recordar que o Ministério da Cultura anunciou na terça-feira a apresentação, a 05 de junho, de uma proposta de alteração do modelo de apoio às artes, sem ter havido uma discussão pública.

Para o vereador da oposição da Câmara de Coimbra José Manuel Silva, o incómodo tem que ter “uma tradução pública”.

“Se esta discussão não sair daqui é irrelevante”, notou.

Neste sentido, ao longo do debate, sugeriu-se uma paragem do setor, a união – que admitiram ser difícil – e mais luta.

“Estamos muito longe de encontrar alguma coisa que incomode de facto”, referiu Tânia Guerreiro, lançando dúvidas sobre as consequências do debate, como este realizado em Coimbra, em que se está a “convencer os convencidos”.

A resposta que o Governo deu às críticas “estimulou um certo ‘reencapsulamento’ das estruturas”, observou o docente universitário e encenador João Maria André, salientando que, depois de alguns protestos, não se pode parar.

“Eu, enquanto cidadã, tenho direito a saúde, a educação, a casa, a cultura, a emprego. As pessoas têm que perceber que não é mais dinheiro para a cultura, mas para si própria, a sociedade e o país a que têm direito”, vincou a jornalista Cláudia Galhós.

Também Pedro Rodrigues sublinhou a necessidade da afirmação da cultura enquanto direito social, considerando ser preciso acrescentar a cultura à paz, ao pão, à habitação, à saúde e à educação, que Sérgio Godinho canta em ‘Liberdade’.

“A culpa não é do Sérgio Godinho, é nossa”, concluiu.

LUSA