A descarbonização da mobilidade: da retórica à necessária transformação da prática

A “Descarbonização da Mobilidade” faz hoje parte da “agenda” do “politicamente correto”. A verdade é que a crescente motorização da sociedade ainda contraria tal desígnio e revela a dimensão do desafio em torno da promoção dos modos suaves, ativos ou descarbonizados.

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Em Portugal, nos últimos 20 anos, triplicamos o peso do transporte individual motorizado na repartição modal (ou seja, o peso do carro nas nossas deslocações diárias passou de 20 para cerca de 60%). Notar que este crescimento aconteceu essencialmente com base na perda de importância do modo pedonal e dos transportes públicos (que perderam 20 e 10% da sua quota, respetivamente).

Perante este fenómeno, contrário à retorica dominante sobre a importância da descarbonização da mobilidade, creio existirem duas atitudes complementares a ter em conta.

Primeiro, importa não encobrir a realidade e reconhecer que a fase atual é, ainda, a do automóvel. A urbanização extensiva, que tem marcado as transformações territoriais mais recentes, assim o exige e determina. A cidade compacta, densa e com limite bem definido, deu lugar a um urbano vasto, disperso, fragmentado e absolutamente dependente da mobilidade assente no transporte individual. O carro é hoje uma peça chave na organização e funcionamento da cidade contemporânea, sendo que ocultar esta realidade significa, em grande medida, com ela pactuar.

Segundo, há que embarcar na “agenda” da “descarbonização da mobilidade” porque nos permite, “remando contra a maré”, defender uma transformação mais ordenada do território, isto é, minimizar custos (energéticos, ambientais e financeiros) e melhorar a qualidade de vida coletiva. Neste ponto, importa sublinhar que a mobilidade elétrica, tida hoje como a panaceia para todos os males do carro, apesar de contribuir para atenuar o seu impacto ambiental, é ainda manifestamente insuficiente para resolver outros tantos problemas. O congestionamento, a obesidade crescente (associada nomeadamente ao sedentarismo e à inatividade física), os acidentes rodoviários, a perda de autonomia dos cidadãos não motorizados e sobretudo, a necessária qualificação do espaço público das nossas cidades (que carece de intervenções que assegurem uma maior humanização), exigem outro tipo de ações e soluções.

Para atingir tais resultados é assim necessário definir um percurso multissectorial, uma estratégia persistente e de médio/longo prazo.

Sintetizando, a efetiva descarbonização da mobilidade, exige uma alteração da prática instalada, seja entre decisores políticos ou mesmo entre técnicos. Para o efeito, no meu “Ponto de Vista”, importa criar “Planos de Descarbonização da Mobilidade”, que combinem quatro tarefas distintas:

  • Articular o planeamento da mobilidade e do uso do solo, distinguindo áreas da cidade para as quais deverá haver clara aposta no transporte público e nos modos suaves (e onde, em consequência, deve ser dificultado o uso do automóvel particular, nomeadamente através de uma política de estacionamento dissuasora).
  • Definir e rever políticas urbanísticas, fiscais e financeiras indutoras de localizações precisas de novos usos e atividades, especialmente dos grandes geradores de tráfego.
  • Identificar e qualificar as centralidades já existentes, avançando com propostas específicas para a qualificação de determinados espaços públicos, sobretudo reforçando a sua dimensão e o seu desempenho pedonal.
  • Envolver a comunidade, em particular as escolas, explicitando e discutindo em cada caso, vantagens e objetivos das ações a implementar em cada espaço da cidade.

Professor Frederico Moura e Sá


Perfil

Urbanista, Doutor em Arquitectura pela FAUP (Perfil de Urbanismo), Mestre em Planeamento do Território (Ordenamento da Cidade) pela UA e Licenciado em Engenharia Civil (Opção de Planeamento do Território, Transportes e Ambiente) pela FEUP.

Iniciou a sua atividade profissional em 2002, enquanto investigador do CITTA e colaborador da SPTTA da FEUP, onde esteve envolvido em diversos projetos, nomeadamente: no Estudo para a Reabilitação da Baixa do Porto, na revisão do PDM de Chaves, na elaboração de “Planos de Mobilidade Sustentável” para vários concelhos, no Plano Estratégico para a 2ª Fase do Metro do Porto e na Avaliação do Impacto Global da 1ª fase do Projeto do Metro do Porto na cidade e área metropolitana. Mais recentemente, pelo IC-FEUP foi um dos responsáveis pelo “Estudo e Avaliação da Procura Estrutural das Linhas Alternativas para a Expansão da Rede do Metro do Porto”.

É Docente da UA e membro do GOVCOPP desde 2008, onde está envolvido em diversos projetos de investigação, projetos europeus e de prestação de serviços nas áreas da reabilitação urbana, do planeamento urbano, da mobilidade e da qualificação de espaços públicos (com destaque para a coordenação: de Planos de Urbanização, de Projetos relacionados com Bikesharing e do Projeto para Qualificação da Avenida Dr. Lourenço Peixinho em Aveiro).

É sócio gerente da Jorge Afonso Carvalho Urbanistas Lda. estando envolvido em diversos trabalhos nas áreas do planeamento urbano e da mobilidade, e na execução urbanística.

Tem como principais áreas de interesse: o planeamento do território e da mobilidade, as infraestruturas urbanas e a qualificação do espaço público urbano.