Formada pela Universidade Católica Portuguesa, Sofia Campos começou o seu percurso profissional numa empresa pioneira no desenvolvimento de projetos de energias renováveis em Portugal, juntando-se à equipa como responsável pela estruturação do financiamento a parques eólicos.

Pouco depois, Sofia Campos faz uma pausa na carreira. Atualmente mãe de três filhos, Sofia foi mãe muito cedo. “Parei dois anos para me dedicar aos meus filhos e estar mais disponível para ser mãe. Foi uma opção que tive de tomar”, começa por referir a nossa entrevistada.

Durante esse período, Sofia frequentou dois cursos, a nível nacional e internacional, e, passados dois anos, depois de ter o terceiro filho, começa a trabalhar numa empresa developer de energias renováveis como gestora de projetos. É nesta altura que começa a viajar bastante, passando muito tempo fora de casa e de Portugal. Quando a organização sofre uma reestruturação sai da empresa e começa a trabalhar na Banca no departamento de análise de crédito e de financiamentos estruturados. Contudo, um ano depois, percebe que trabalhar na Banca não era o que a realizava. “Sentia que precisava de mais, de algo “palpável”. Por isso quis regressar para as empresas de engenharia, um mundo muito mais fascinante para mim”, afirma Sofia Campos.

É nesta altura que integra a equipa do departamento de energias renováveis de uma empresa do setor da engenharia de forte componente tecnológica. Passados alguns anos é promovida para a área de desenvolvimento do negócio internacional do grupo e é quando se muda para a África do Sul para arrancar com a operação do grupo. “A minha vida sofre uma mudança radical. Numa fase inicial fui para a África do Sul sozinha e só mais tarde é que a minha família se junta a mim”, relembra Sofia Campos.

Entretanto, o grupo faz a aquisição de uma empresa na África do Sul e Sofia assume a posição de CFO, ficando responsável por quase todos os departamentos administrativos. Quando essa organização começa a fechar as suas sucursais internacionais, Sofia tem de tomar uma decisão. É quando projeta, com o seu atual sócio, uma empresa direcionada para projetos na Etiópia: a Live Wire.

No mercado há dois anos, a Live Wire é uma empresa que se dedica a projetos na área das linhas de transmissão, com o objetivo de trabalhar em países africanos. “Tem sido uma experiência rica, com momentos de muita alegria, mas também de dor. É aliciante a experiência de vida que se ganha, o contacto com culturas diferentes, mas também é desafiante a tomada de decisões diárias, a qual é sempre um momento de dúvida e de incertezas por não sabermos o verdadeiro impacto das mesmas. No entanto, é bom poder implementar na empresa a forma como vejo o mundo, os meus valores e a forma como idealizo como uma empresa deve funcionar”, refere Sofia Campos para quem Portugal está agora incluído na estratégia da empresa, sendo o próximo passo encontrar parceiros portugueses para trabalhar o mercado da Etiópia.

“EM MUITOS MOMENTOS SENTI QUE NÃO TINHA VOZ”

“Definitivamente tenho um tratamento diferente pelo facto de ser mulher. Quer pela negativa, quer pela positiva. Não há meio-termo”, afirma Sofia Campos.

Desde que ingressou no mercado de trabalho, Sofia esteve sempre ligada ao desenvolvimento de negócios em empresas de infraestruturas, uma área que ainda é vista como sendo uma área masculina, um mundo para homens. “São dois fatores muito fortes: ser mulher no mundo dos negócios e ser mulher num setor que ainda é vincadamente marcado pela presença masculina. Sou um peixe fora de água”, explica a nossa entrevistada.

Acrescenta ainda que, neste “mundo de homens”, existem homens que consideram que Sofia não pertence ali, pelo facto de ser mulher, menosprezando as suas capacidades. Contudo, também existem homens que a vêm como uma mais-valia e uma “lufada de ar fresco” por ter uma visão diferente para a solução de problemas. “Senti muitas vezes que não interessava o que se dizia, mas sim quem o dizia. Em muitos momentos senti que não tinha voz”, elucida-nos Sofia Campos.

Sofia Campos explica ainda que África do Sul é um país bastante progressista no que diz respeito à igualdade de género, no entanto, na Etiópia, um país ainda bastante dominado pelos homens, sente que ainda existe uma falta de confiança nas capacidades das mulheres. “Preciso de algum tempo para ganhar a sua confiança e para ter credibilidade. Preciso de me esforçar mais do que um homem para conseguir “conquistar” este mercado. Mas é possível. É uma questão de resiliência, persistência e profissionalismo. Demora algum tempo, mas sinto que tenho conseguido ser bem-sucedida e conseguido ganhar o respeito por parte do homem durante o meu percurso profissional”, acrescenta a nossa interlocutora.

Durante o seu percurso muitas pessoas perguntaram-lhe como é que conseguia conciliar a vida profissional com a família. A sua resposta era: não consigo. “Fazemos o melhor que podemos, mas falhamos sempre nalgum lado. Tentamos que seja o melhor possível, mas nunca é uma situação perfeita. Há sempre sacrificados numa altura ou noutra. E a razão pela qual quero realçar isto é porque há outras mulheres na mesma situação que eu e que vivem cheias de sentimento de culpa quando têm que fazer esta gestão entre a carreira e a família. Acho que acaba por ser uma utopia dizer-se que se consegue fazer perfeitamente a gestão entre a carreira e a família”, conclui Sofia Campos.